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ABELARDO, O ALCOÓLATRA |
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| ÍNDICE | |||
| Ficha | |||
| Apresentação | |||
| Bebendo na Segunda-feira | |||
| Doença incurável | |||
| Conseqüências o alcoolismo | |||
| Erguer a cabeça | |||
| Vencendo obstáculos | |||
| Vencendo obstáculos – 2 | |||
| Desajustes sexuais | |||
| Resistindo à tentação | |||
| Enfrentando o egoísmo | |||
| Marcas inapagáveis | |||
| Atacando os problemas | |||
| Novas experiências | |||
| Combatendo a solidão | |||
| Encarando derrotas | |||
| Azar dos cônjuges | |||
| Vida de porco | |||
| Investindo no futuro | |||
| O ser renascido | |||
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o alcoólatra WALTER MEDEIROS Livro COMPLETO! Uma contribuição do jornalista Walter Medeiros para o tratamento do alcoolismo. Alcoolismo é o conteúdo deste trabalho, que mostra o dia-a-dia de uma clínica de recuperação. O autor mostra saídas para os que têm problemas com a bebida, abordando uma variedade de temas. Trata-se de uma abordagem esclarecedora para aqueles que não conseguem se controlar quando bebem. O livro apresenta situações que podem parecer estranhas para aqueles que não são dependentes do álcool, como o ato de beber sozinho, a necessidade de beber pela manhã, o costume de beber escondido e a prática dos que são sempre os últimos a deixar as recepções e as bebedeiras. ABELARDO, o alcoólatra aborda também as conseqüências drásticas do alcoolismo como doença, que provoca desajustes e gera prejuízos às suas vítimas, que debilita o organismo e mata. Trata-se de um trabalho que serve para reflexão sobre o sofrimento de muitos que ignoram o alcoolismo como problema. --- QUEM É WALTER MEDEIROS · Jornalista e Bacharel em Direito nascido em Natal, 48 anos. · Especializado em Direito do Trabalho · Consultor de Empresas · Palestrante da ABQV (Associação Brasileira de Qualidade de Vida)/RN · Representante do RN no Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar, do Ministério da Saúde e-mail: walterm.nat@terra.com.br --- ABELARDO, o alcoólatra FICHA CATALOGRÁFICA PREPARADA PELA BIBLIOTECA PÚBLICA CÂMARA CASCUDO Medeiros, Walter Bezerra de, 1953 - M538a Abelardo o alcoólatra / Walter Bezerra de Medeiros. Natal: CERN, 1990. 76 p. 1. Alcoolismo. I. Título CDD 157.61
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Apresentação
É o retrato vivo e inconteste de um homem com um simples copo de bebida na mão, que depois de ingerido, foi o prenúncio para desencadear uma predisposição orgânica chamada alcoolismo. Sem se aperceber que além do efeito euforizante o álcool tem outra face que é a depressão do sistema nervoso, levando o indivíduo a um estado de dependência física, psíquica e emocional. Como elemento integrante da equipe multidisciplinar da Chácara Renascer, que é um Centro de Tratamento de Alcoolismo que tratou o autor, senti logo no início de entrevista a ansiedade que ele apresentava, inclusive aquela situação de conflito do seu mundo interno com o mundo externo. Ele compreendia que não podia sozinho conduzir aquela pesada carga – o alcoolismo, deixando bem claro que não só admitia que tinha problemas com a bebida, mas que precisava de ajuda, apesar de algum referencial teórico que o mesmo havia obtido sobre a doença. Durante todo o tratamento a equipe da Chácara sentia que o autor, em seu íntimo, era dotado de uma sensibilidade extraordinária que contaminava a todos. Um homem com um coração imenso e cheio de coisas belas e que tanto tinha a oferecer àqueles que com ele conviviam e convivem – lições de amor, de compreensão, de sabedoria, enfim, de atitudes dignas que um ser humano pode ter. Não demorou muito, a sua esposa começou a perceber que não mais havia aquela tranqüilidade em seu lar: os diálogos estavam sendo substituídos por agressões verbais; os filhos se ressentindo, etc... Todas as suas virtudes estavam deslizando e distanciando-se ao correr dos tempos. Agora travou-se a batalha mais acirrada da esposa, para que toda a estrutura do seu lar não tivesse o triste fim de muitos outros lares: ele não conseguia ver-se com os mesmos olhos que os outros o viam. A sua autodestruição estava patente. Walter ainda não se apercebia, ou seja, não sentia que estava sendo cada vez mais aprisionado pelos grilhões da doença – o alcoolismo. Quando certo dia teve aquele despertar espiritual e já quase em desespero, sentiu que não mais podia continuar naquela vida de tantos sofrimentos – ressacas morais, desencantos, perda de autoestima, enfim, cada vez mais sendo dominado pelo álcool. Foi quando determinou de forma corajosa e espontânea que precisava de ajuda para se tratar. Durante o tratamento aprendeu a dizer “não” a si próprio, quando a feroz vontade de beber involuntariamente surgia em seu organismo. Hoje tenho a felicidade de estar fazendo a Apresentação deste livro que é escrito numa linguagem singela e motivadora, sem maiores preocupações literárias. Abelardo, o Alcoólatra tem a preocupação de levar o seu depoimento honesto e sincero a todos os lares onde reside o problema da bebida. É acima de tudo, uma lição de coragem e amor próprio. Hoje ele sabe como é gostar de si mesmo e experimentar o sabor da sua felicidade, bem como compartilhar com a sua família. JOSÉ DE
OLIVEIRA FREITAS*
Natal, junho de 1990. *Dr. José de Oliveira Freitas foi professor titular da cadeira de ortodontia do Curso de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e diretor presidente da Chácara Renascer – Centro de Tratamento do Alcoolismo localizado em Natal, na avenida do Jiqui.
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Bebendo na Segunda-feira O alcoólatra decide fazer alguma coisa para mudar o rumo desastrado da sua vida Às sete horas a mulher acorda pensando em preparar o café da manhã, para ir em seguida trabalhar com o marido. É tomada de surpresa quando o vê andando pela casa e percebe que está alcoolizado. - Já bebeu hoje, Abelardo? - Acordei às três horas e tomei umas doses. Não vou trabalhar. - Tem de ir, você não pode mais faltas, pois sua situação está delicada. - Vou não. Vou beber mais. Acho que o tratamento não pode passar de hoje. Vamos procurar doutor Borja. Como é que se faz? - Ele só está no consultório à tarde. - Então vamos à tarde. Mas agora vou beber mais. - Você é quem sabe. Continuou bebendo. Havia dormido apenas duas horas naquela noite, depois
de ter bebido durante todo o fim de semana, desde a sexta-feira à
noite, sendo a cada dia dominado pelo excesso de bebida para poder
dormir algumas horas. Ao saber que somente à tarde iria ao médico tentar começar o
tratamento, tomou um copo, um depósito com gelo e o litro de uísque e
saiu no carro para a praia. Queria levar consigo um dos filhos, para lhe
fazer companhia, mas Camila o convenceu a ir só. Bebeu dirigindo enquanto chegava à praia. Lá, tomou um rápido banho
de mar, o pensamento voltado para a beleza o colorido natural formado
pelo verde vegetal das dunas, o branco da areia, o azul do Céu, o
verde-branco da água. Voltou entretanto, para o amarelo-ouro da bebida.
Retornou à casa levando o almoço, que comeu com aquele velho gosto de
somente deglutir algo. Saíram no começo da tarde à procura do amigo,
em meio ao trânsito dos que já iam para o segundo expediente. Não
encontraram o doutor Borja. Ele estava de férias e só voltaria na
segunda-feira seguinte. Resolveram, então, procurar diretamente a Clínica,
onde em outra ocasião haviam tentado o internamento sem sucesso, por
falta de vagas. -
Doutor Duarte está? – Perguntaram ao homem que os recebeu no
alpendre. -
Está, sim senhor – respondeu Edson, com a voz empostada. -
Queremos falar com ele. -
Pois não. Mas ele só vai poder recebê-los daqui a uns vinte
minutos, porque está proferindo uma palestra no auditório. -
Certo. Nós esperamos. Dito isso, Edson entrou e eles ficaram sentados junto a uma mesa
quadrada, coberta com uma toalha azul claro com riscos nas bordas, que
tinha por cima um plástico grosso transparente. -
Se der certo pode ser a solução do problema- disse Abelardo a
Camila. Ela havia conduzido o carro do consultório do amigo até a clínica,
porque o tinha convencido de que ele não estava em condições de
dirigir com segurança. -
É, pode ser que essa tentativa dê certo – disse ela. -
Vai demorar vinte minutos. Dá tempo ainda para a gente ir ali e
eu tomar a última dose. -
Você é quem sabe – respondeu-lhe com a mesma preocupação
que sempre demonstrava, por mais que tentasse dissimular. Embora realmente estivesse com vontade de tomar mais uma dose de uísque,
ele conseguiu conter-se até que o Doutor Duarte aproximou-se,
cumprimentando-os. -
Está lembrando da gente, doutor? Estivemos aqui há uns dois
meses a mandado do doutor Borja e naquela ocasião não foi possível
ficar por falta de vaga. Bebo desde sexta-feira e se for possível quero
ficar agora logo por aqui. Enquanto falava doutor Duarte dava a entender que se lembrava
perfeitamente da tarde em que havia conversado com ele sobre os
problemas que estava enfrentando. Chamou-os para o auditório. -
Acho bom o seu interesse em se tratar. -
Há condições de ficar agora, doutor? -
Há. -
Como é que se faz, então? -
Olhe, aqui nós cobramos 100 BTNs pela diária. Mas vou fazer um
preço melhor para você. Depois de sentir que haviam sido acertadas as bases do tratamento,
Duarte chamou Edson para preencher a ficha de internação.
Imediatamente Abelardo recebeu seis comprimentos de tipos diferentes,
junto com um copo com água e os tomou. Foi convidado a deitar-se em uma
rede marrom, de um tecido rústico, que estava armada no alpendre da
frente. Enquanto isso, a mulher foi buscar sua bagagem. Jantou às sete da noite e foi assistir televisão juntamente com os demais internos, onde começou a se ambientar. Todos enfrentavam problemas idênticos. Dormiu às dez horas, no primeiro quarto, onde ficam três camas, duas das quais ocupadas. Estava dada a partida na sua viagem rumo ao mundo sóbrio sobre o qual tinha inúmeras dúvidas.
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Doença incurável Em meio a
outros alcoólatras, Abelardo, que decidira procurar uma mudança para
sua vida, choca-se as afirmações de que não deve mais beber Cinco e meia da manhã acordou. Acostumado com ocasiões de convivência
e tarefas coletivas, não estranhou ter de cobrir a cama. Arrumou-se
para o café da manhã, que sairia às sete. Era grande a sua
curiosidade sobre os dias que passaria naquele local. Começou no próprio
quarto observando quadros de paisagens que apresentavam beleza incomum,
com mensagens que valorizavam o ser humano. Deteve-se em cada uma das
fotografias, como que buscando uma identificação maior que o amor já
sentido pelas coisas da natureza. Seus companheiros haviam saído para
fazer uma caminhada de cinco quilômetros e voltaram a tempo de tomar o
café no horário. A mesa tinha o que a casa considerava necessário ao organismo: mamão,
abacaxi, melão, melancia, cuscuz, tapioca, pão, café e leite. Tinham
ouvido as manchetes do dia na televisão e agora escutavam música de
uma caixa posta no teto. Todos comentavam os seus gostos. Do café foi
aguardar o início das atividades do dia. Olhava detidamente o pomar,
onde se formavam muitas sombras. Nas paredes, muitas mensagens impressas
nos mais variados tipos de papel, em meio a posteres grandes mostrando
ambientes naturais. Soa uma campainha. É prá todos irem ao auditório.
-
Vamos mostrar uma entrevista que doutor Duarte concedeu à
televisão, para começarmos a discutir o assunto – disse uma jovem
que se apresentou ao grupo como Fabiana, que fazia parte do quadro de
instrutores. Era uma entrevista que tinha sido feita no estúdio da emissora havia um
ano, mostrando o desempenho da clínica no tratamento do alcoolismo. Uma
experiência que chamava atenção por ter sido iniciativa de uma alcoólatra
que tinha enfrentado os mesmos problemas com a bebida e decidiu estudar
o assunto para transmitir aos clientes. Nas suas respostas, doutor Duarte afirmava logo que o alcoolismo é uma
doença, acrescentando tratar-se de fato comprovado cientificamente.
Dizia que a doença podia ser hereditária e era taxativo ao assegurar
que se constituía num mal incurável, porém tratável. Sentenciava
também que estatísticas médicas comprovavam a perda de anos de vida
por conta da bebida alcoólica. Mostrou mais que em muitas ocasiões o álcool etílico atua como
alimente e que possui calorias, porém provoca muitos males que anulam
qualquer substância saudável que possa levar ao organismo: “No
fundo, ele inibe a fome e produz falsas calorias.” E dava sua visão a
respeito dos efeitos da bebida, entre eles a ressaca, que provoca
tristeza, ansiedade, depressão e angústia. Ninguém podia fumar no
auditório. Por isso, passada uma hora de exibição no vídeo, foi dado
um intervalo de dez minutos, para em seguida ser feita uma discussão
dos assuntos expostos. -
Vamos formar um círculo – Voltou Fabiana dizendo ao pessoal
que retornava à sala – Alcoólatras ou familiares de alcoólatras que
buscavam naquele lugar informações, conscientização e orientação
para lidar com o problema. Era um casal, ele Gustavo, moreno, 36 anos,
ela Helena, branca, 39. Uma mulher magrinha, apelidada de Olívia
Palito, branca, dona Irene, mais de cinqüenta anos. Júlio, também
muito magro, moreno, óculos fundo de garrafa, 34 anos. Lauro, 37 anos,
galego dos olhos azuis. E o próprio Abelardo, 36 anos. Ao lado de
Fabiana, sentou-se Edson e
depois chegou o doutor Duarte, entrando no debate. -
Lamentavelmente – sustentou Fabiana – a medicina não trata a
doença alcoolismo como deveria fazer. A medicina trata somente das
conseqüências: cirrose, depressão, infarto e outras situações,
muitas delas sanadas mas que irrompem porque o indivíduo não é
conscientizado de que somente sobreviverá sem elas se deixar de beber. -
Quer dizer que o alcoolismo é uma doença? – indagou Júlio,
espantado, porém demonstrando uma emoção diferente. -
Sim. Uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde,
pela Associação Médica dos Estados Unidos e por muitos outros órgãos
respeitáveis do mundo inteiro. Porém, a sociedade criou um tabu em
torno do assunto, considerado que o alcoólatra é um safado, um viciado
uma sem-vergonha, um irresponsável, desconhecendo que uma deficiência
que ele tem no organismo é que o leva a beber. -
E por quê tem de deixar de beber? Não há uma forma de se
controlar e beber sem criar problemas ao organismo e às pessoas? –
perguntou interessado Lauro. -
Nenhum alcoólatra volta a ser bebedor social – enfatizou
Fabiana, acrescentando: quando é jovem, está integrada em ambientes
onde é natural beber. Gosta de bebida, pelo sabor ou pelo efeito que
ela provoca, onde sente um bem-estar diferente, mesmo que se embriague.
É a fase que chamamos de adaptação, na qual não aparecem problemas.
Se o indivíduo não tem predisposição ao alcoolismo, ele bebe a
quantidade que o organismo suporta e não sente vontade de beber mais a
qualquer custo. Entretanto, se existe a predisposição, ele chega em
seguida ao que chamamos de fase da tolerância. Nela o organismo vai se
acostumando a receber doses cada vez maiores de álcool, quase sempre
durante anos seguidos. Por fim, chaga a fase mais problemática, que é
a fase da dependência, na qual ele não consegue viver sem o álcool. -
Cada vez mais o álcool vai fazendo parte da sua vida com maior
intensidade. Se ele bebe nos fins de semana, passa a beber à noite,
durante a semana. Se chega a beber durante a semana, bebe antes do almoço.
Se bebe até nessas ocasiões, passa a beber pela manhã. Até que, sem
controlar-se diante do álcool, este passa a ser a coisa mais importante
da sua vida. Daí, começa a falhar nos compromissos o emprego, da casa,
da escola, todos, enfim. E aparecem ou se agravam os problemas de saúde,
como diarréia, taquicardia, tremor das mãos, que enfrenta com
paliativos e continua bebendo. Os esclarecimentos acerca desse tema perduraram até onze horas, quando
o grupo foi liberado para o almoço, recebendo uma primeira tarefa: ler
e fazer um comentário escrito sobre o Capítulo I do livro azul dos
Alcoólicos Anônimos, que conta “A história de Bill”. Pareceu a
todos uma forma de iniciar a prática de combate aos problemas de cada
um, pois foi determinado que fizessem um comparativo entre a história
daquele alcoólatra com a vida de cada um que fosse ler o livro. Logo soou o sino chamando todos para a mesa. Serviam-se à americana de
feijão, arroz, macarrão, verduras, legumes, carne e suco de frutas. Só
voltariam às atividade as duas da tarde. Cada um foi descansar um
pouco. Mas logo todos estavam de livro e papel não mão. À sombra de um coqueiro, Abelardo lia a história de Bill fazendo anotações
de trechos que lhe chamavam mais atenção, identificando-se em muitas
ocasiões com o alcoólatra do livro, cuja vida foi muito prejudicada
pelo uso do álcool descontroladamente. Da primeira leitura fizera
imediatamente sua tarefa. À tarde, foi exibido mais um vídeo sobre alcoolismo e drogas. Uma
reportagem mostrando as conseqüências sociais do seu uso. Depois
discutiram sobre auto-piedade, um sentimento que se desenvolve no alcoólatra
e que se manifestou naquele diálogo quando foi dada a informação de
que as últimas estatísticas situavam 87% o número de pessoas que não
tinham problemas com o álcool ou bebiam socialmente, enquanto 13% eram
alcoólatras ou enfrentavam problemas devido ao uso do álcool. -
Por que eu tive de nascer exatamente no meio desses 13% - indagou
Abelardo, encenando brincar, sentindo, entretanto, que em seu íntimo a
pergunta era séria. -
Está aí uma das mais vivas formas de auto-piedade – explicou
Edson, que coordenava os trabalhos naquela tarde. Lamentar-se porque não
pode beber sem que deste gesto advenham graves problemas. Acontece que
esta pena de si próprio se dá porque as pessoas que bebem como nós
acham que são a maioria da população ou que a vida não tem sentido
se não estivermos com um copo de bebida na mão. Temos que ser fortes
para superar este sentimento, a partir do momento em que enxergamos que
a vida não é feita só de bebidas alcoólicas. Temos uma deficiência
orgânica como ocorre com as vítimas de qualquer outra doença. Vejamos
o caso do diabético. Existe coisa melhor do que açúcar comum? No
entanto, desde que sua doença é detectada e está ameaçando sua vida,
ele suspende definitivamente tudo que é doce. Por quê, então, o alcoólatra
não suspender a bebida, se tem tudo mais na vida para usufruir? Como que alimentando um frágil resto de esperança, apesar de estar
quase que definitivamente consciente da realidade, Lauro salto do seu
canto com outra pergunta: -
Por quê você enfatiza tanto que não podemos mais beber. -
É bom deixar claro que não somos nós, mas vocês mesmo quem
decidirá se beberão ou não. O que temos a esclarecer é que até hoje
os alcoólatras que suspendem a bebida e voltam a beber voltam bebendo
cada vez mais e enfrentam problemas cada vez maiores. Pode ser que algum
dia descubram um remédio para o alcoolismo. Até agora é que não
existe nada que possa ser feito. Daí alertamos para o aspecto de incurável
que a doença tem. Encerraram-se as atividade do dia. Uns foram ler, outros ver televisão e Gustavo e Lauro fazer uma caminhada idêntica à que tinham feito pela manhã. Comentava-se que o dia seguinte teriam mais um colega chegando para tratamento.
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Conseqüências o alcoolismo Apesar de tudo
que havia procurado ler e ouvir sobre sua doença, Abelardo descobre que
sabia muito pouco sobre os efeitos do álcool. Antes mesmo do dia clarear Abelardo estava caminhando pelo pomar,
observando cada detalhe daquele ambiente privilegiado que lhe trazia
muita esperança de deixar de ser o homem problemático, que se via
impotente ante o álcool. Intimamente faria qualquer coisa para ganhar a
luta contra a doença. Lembrava das decepções que sofrera quando havia
quinze anos ficou na rua sem saber sequer o caminho da própria casa;
quando bateu com seu carro em alta velocidade, sem sofrer nenhum arranhão,
correndo, porém, um grande risco de vida; quando esbarrou também com o
carro em uma árvore e em outra ocasião em um poste, sofrendo cortes
profundos; quando um amigo estranhou-o por estar bebendo sozinho em
casa; quando os cheques deixavam de ser pagos pelo banco porque sua
assinatura estava ilegal, denunciando o estado no qual os havia
assinado. Recordava cada coisa observando o amanhecer que almejava se confundisse
com a chegada de um novo período da sua vida. Queria reavivar a memória,
abalada pela bebida, para mentalizar a sua vida sóbria antes de começar
a beber. Havia lido, mesmo antes de chegar àquele lugar, alguns livros
sobre alcoolismo, porém sem alcançar a profundidade dos temas que são
abordados no tratamento ou no trabalho das Associações de Alcoólicos
Anônimos. Tinha uma espécie de sede de informações novas sobre a
doença, cujo estudo pelos especialistas apresentam novidades com grande
rapidez. Estava adaptado ao ritmo de vida da clínica. Às oito horas
iniciaram-se as atividades do dia, com uma exposição em torno do
metabolismo do álcool. Atentamente ouviu e anotou as palavras do doutor
Duarte. -
A bebida alcoólica, depois de ingerida vai para o estômago, de
onde segue rapidamente para a corrente sangüínea, mesmo que a pessoa
esteja bem alimentada Vai para o fígado, onde é transformada em substância
tóxica – aldeído acético. O fígado pode neutralizar seus efeitos
para o organismo, produzindo uma enzima – desidrogenase. Quando o fígado
continua recebendo álcool, este mantém o indivíduo como que sedado,
pois atinge as veias, o cérebro e o sistema nervoso. O organismo do acoólatra
não produz a enzima em quantidade suficiente para metabolizar o álcool.
É aí que se dá o desgaste das células pela substância tóxica. O
organismo acostuma-se a fazer a circulação do álcool como se fosse
sua função normal e ressente-se na sua falta sempre que o indivíduo
suspende a bebida. Que é que vocês dizem disso? -
Precisávamos de uma explicação desse nível, pois o que tínhamos
visto a respeito era muito pouco, Aliás, nunca tínhamos visto uma
exposição desse tipo e achamos que muito pouca gente sabe como
acontece – interferiu Gustavo, olhando para o desenho que o médico
havia feito no quadro enquanto apresentava o assunto. Doutor Duarte fez desfilar um elenco de conseqüências do álcool no
organismo, dependendo do estágio de cada pessoa. -
As debilidades que o álcool provoca levam à sonolência,
fraqueza da memória, úlceras, inflamações no estômago, gordura no fígado,
fígado aumentado, deterioração dos tecidos do cérebro e dificuldades
cardíacas Explicou cada uma delas, alertando para o fato de serem todas elas
conseqüências orgânicas. -
Além dessas conseqüências, tem outras que m muitos casos não
são percebidos como provocados pelo alcoolismo: acidentes de trânsito,
acidentes do trabalho, crimes, destruição de carreiras, situações
que deixam as pessoas em condições lastimáveis. A cada momento eram esclarecidas diversas curiosidades, enquanto
multiplicavam-se os assuntos. Todos pareciam estudar o alcoolismo para
informar-se de tantos malefícios que ele causa, sem se sentirem
plenamente enquadrados a um padrão imaginário. Era como se quisessem
segurar-se a algum instrumento que os retirasse daquele mundo deprimente
de bebedeiras com uma saída mágica. Lembravam que para solucionar o
problema teriam de suspender a bebida, consumindo as informações qual
pessoas sãs, sonhando com um copo de bebida. Desencadeou-se, então, um
processo de trabalho que juntou a visão confessadamente leiga dos Alcoólicos
Anônimos, com as descobertas cientificamente, sem deixar margem para
interpretações diferentes. -
Nem eu, nem Fabiana, nem Edson, doutor Moacir ou doutora Nadine,
ninguém aqui vai dizer que você ou ele é alcoólatra. Aqui está para
vocês refletirem o primeiro dos doze passos defendidos pelo A.A. (Alcoólicos
Anônimos) para recuperação da sobriedade – disse doutor Duarte,
referindo-se ali ao psiquiatra e à psicóloga da clínica, que os
pacientes ainda iriam conhecer, passando a palavra a Fabiana. -
O primeiro passo para o alcoólatra se recuperar é reconhecer
sua condição. Ele é alcoólatra e tem convicção ao ponto de afirmar
“eu sou um alcoólatra?” Se tiver, ele pode estar abrindo a porta
para um mundo novo e melhor. É o começo da caminhada rumo a sua
libertação. Porque a afirmação de que é alcoólatra nasce de uma
simples resposta à pergunta “consigo beber controladamente?”
Aquele tom taxativo deixava Abelardo chocado, porém com uma espécie de
alívio, por estar descobrindo a cada momento coisas tão óbvias que não
era capaz de ver através dos próprios meios de que dispunha. Não
sabia nem mesmo que os A.A. tinham uma vasta bibliografia, resultado da
experiência de décadas de trabalho dedicado à recuperação de
pessoas que sofrem devido a sua impotência perante a bebida. Sentia uma
imensa vontade de pegar e ler todo aquele material, pois estava certo da
sua condição de alcoólatra. Fabiana continuava. -
Ser alcoólatra não é somente aquele indivíduo que perdeu tudo
que tinha e vive sujo, bêbado e sem dinheiro, na sarjeta. A sarjeta
pode ser também o tapete de uma mansão ou de uma casa onde seu
proprietário não está na miséria, mas não controla a bebida. Porque
a sarjeta é o estado físico, social e moral em que o homem se
encontra. Aos poucos os pacientes iam-se abrindo, identificando-se e descobrindo
que tinham praticamente todos os pontos em comum. Otávio, de 50 anos,
com seu corpo fino, seus óculos de grau e as mãos trêmulas, tinha
chegado pela manhã, integrara-se ao grupo, e era o único que destoava
ainda. Era muito comunicativo, brincalhão e sério ao mesmo tempo.
Trazia notícias de seu Patrício, que havia uma semana estava internado
no Hospital Psiquiátrico – de onde ele vinha – depois de ter
passado um dia na clínica e encontrava-se em tal estado de tensão que
não teve paciência para ficar com a turma e saiu pela estrada dizendo
que não tinha de que se tratar. No hospital estava sob efeito de fortes
medicamentos, desintoxicando-se para poder retornar. Todos levavam na esportiva e com interesse de mudar de vida. Apesar da
seriedade dos problemas, nunca faltava uma história engraçada para
contar. Elas serviam até para discussões sérias, para compreender
mais ainda a lógica dos bebedores problema. Como foi o caso de uma que
Seu Patrício contou. Um bêbado, respondendo a um colega porque bebia.
“Bebo para afogar minhas mágoas. O danado é que as bichinhas sabem
nadar.” Para tudo o alcoólatra tem uma explicação lógica. Tem muita perspicácia,
tanto para justificar as situações mais absurdas, como para
fundamentar o seu ato de beber. Os motivos aparentemente mais incríveis
são apresentados para encobrir suas falhas. Ele nega com a maior
naturalidade que se pode imaginar, ao ponto de encenar surpresa por
estar com um copo de bebida na mão: “o que este copo está fazendo na
minha mão?” Às dez da noite todos se recolhiam, após tomarem os medicamentos e sais minerais prescritos. Um dos remédios mais comuns naqueles dias era complexo B, receitado para recompor debilidades advindas dos efeitos do álcool.
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Erguer a cabeça Convictos de
que são doentes e não irresponsáveis, os alcoólatras encontram
motivos para erguer a cabeça na luta pela sobriedade Quinta-feira. Abelardo começava seu terceiro dia de tratamento
refletindo sobre a dormida tranqüila que vinha tendo desde que chegara
à clínica. Estava satisfeito porque queria se desligar do mundo, dos
problemas do seu dia-a-dia. Sonhava com a força capaz de promover a
mudança na sua vida, ao ponto de viver sóbrio. Lembrava até da sua
infância no interior, ao ouvir o cantar dos pássaros. Seu pensamento
viajou muito no momento em que viu um beija-flor bem próximo. Não se
recordava de quando tinha visto uma cena tão bela na sua vida.
Sentia-se renascendo redescobrindo coisas que não conseguiria sozinho,
por mais que se esforçasse em alguns momentos de abstinência. A
discussão daquela manhã era um desafio a cada um: recuperar o
autocontrole. Taxativa e se segura em suas palavras, Fabiana começara. -
É ilusão pensar ou querer provar que um dia se poderá beber
controladamente como os bebedores normais – advertia, acrescentando
que as recaídas são sempre piores. Por isso, devemos ter em mente o
lema dos A.A.: evite o primeiro gole. Paulatinamente o assunto ia envolvendo a todos. Falava-se sobre o tema
intitulado negação, fato muito evidente no alcoólico, que tenta
esconder sua condição das mais variadas formas, entre elas fazendo
comparações para mostrar que não estaria no estágio da dependência.
Eram dados exemplos de desculpas ou fugas comente usadas para tentar
enganar aos outros e a si próprios. Uns, procuram rodas social e
intelectualmente inferiores, porque sabem que ali não serão Alvo de críticas;
ao contrário, podem se sobressair e controlar o meio. Aparece a
necessidade de oferecer explicações e todos precisam construir uma
fachada para esconder a bebedeira e a ressaca. Veio a hora do ponto
chave da definição. -
Nenhum alcoólatra
se recupera sem atingir o fundo do poço – enfatizou Fabiana. A
afirmação banhou de dúvidas a todos. -
Fundo do poço – continuou – é o ponto no qual a criatura
conscientiza-se de que não pode nem deve continuar sendo tão inferior. Abelardo chocou-se com o termo inferior utilizado pela expositora,
interrogando baixinho o companheiro Júlio, que fez apenas um sinal com
os olhos de que também tinha suas dúvidas. Em seguida receberam a
explicação. -
O alcoólatra é uma criatura diferente, porque vai tendo seus órgãos,
sua mente e seu convívio social debilitados. Sua deficiência orgânica
o leva definitivamente a ser diferente dos outros, por não poder
consumir álcool. Seu raciocínio é débil podendo chegar ao ponte de
enfrentar amnésia. As situações constrangedoras por que passa quando
se encontra sob efeito da bebida levam-no a ser tratado de muitas formas
indesejáveis, até sob o tom de deboche ou ridicularização. -
Há condições de recuperação do cérebro? – interrogou dona
Irene. -
Recuperação para voltar ao potencial normal, não existe. Mas a
doença pode ser estacionada e a ausência do álcool ajuda a retomar a
vida sóbria e se desenvolver. O fundo do poço varia de pessoa a
pessoa, até porque é o alcoólico quem deve decidir o que fazer;
portanto, a decisão se dá ainda no estado da razão, ainda no limite
do raciocínio. É um momento em que ele passa a transformar
conhecimento em sentimento, preparando-se para enfrentar a tentação da
bebida, sendo forte para vencer a angústia, o nervosismo, a irritação
decorrentes da abstinência. Ele tem também de ser superior aos fatos,
enfrentando com seriedade, coragem e sabedoria o que os outros disseram. O tema deixava todos acessos, porque quase ninguém encarava esta forma
de enfrentar o problema e tinham a impressão de que o alcoólatra
deveria sentir-se humilhado e cabisbaixo, quando a forma de
comportamento defendida, e com a qual todos tendiam a concordar, era não
se curvar a nada, até porque a irresponsabilidade e os transtornos
resultantes da bebida tinham como causa a doença e não qualquer
imoralidade consciente. Gustavo foi mais empolgado, ao ponto de
solicitar mais exemplos. -
Você pode detalhar mais essa orientação? -
Posso, sim – respondeu Fabiana. Uma das providências que todos
devem adotar é o auto-policiamento, sempre que se sentir irritado.
Pense que enquanto você se controla está se auto-valorizando. Deve-se
ter em mente que nada, nenhuma desculpa justifica o primeiro gole. Este
gole é sempre antecedido de uma loucura momentânea, que pode passar,
apesar de qualquer nervosismo, qualquer acesso de cólera, qualquer
inquietação, qualquer depressão. Evita-se o primeiro gole refletindo
sobre as conseqüências daquele momento cego, pois é possível
construir uma defesa mental efetiva. É bom lembrar nesse momento de
todas as experiências tristes que se passou e que uma só dose muda
completamente a maneira de pensar e de agir das pessoas. Com sua voz empostada, Edson entrou também na discussão, para
aprofundar a questão do primeiro gole. -
Quando falamos em evitar o primeiro gole lembramos de certas
afirmações comuns da parte de bebedores que reforçam “nunca mais eu
vou beber”. Isso não ajuda. O importante, e que tem sido uma forma de
manter a mente preparada para enfrentar a compulsão, é evitar o
primeiro gole hoje. A cada dia fazer tudo para não beber. É uma reflexão
individual, que dá certo bastando que tenhamos capacidade de ser
honestos conosco mesmos. À medida que a discussão era feita no costumeiro círculo do auditório, um a um dos pacientes eram chamados para conversar com a psicóloga. À tarde seria a vez de comparecerem ao clínico, para se consultarem e realizarem os exames que fossem necessários. Cada experiência que ia acumulando, inclusive os diálogos com a psicóloga e o clínico ia fazendo mais sólida a vontade de Abelardo esclarecer tudo que pudesse a fim de se conscientizar do seu problema e preparar-se para enfrentá-lo quando saísse do tratamento. Durante a tarde foram apresentados slides sobre os efeitos do álcool no organismo, mostrando mais acuradamente o que todos haviam visto na visão geral apresentada pelo doutor Duarte. Cada momento que se passava era aproveitado com ansiedade, como se cada um tivesse resolvido correr em busca do tempo perdido na bebida.
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Vencendo obstáculos Trata dos obstáculos
que o alcoólatra tem de enfrentar pacientemente e das formas de vencê-los
Abelardo estava obtendo êxito na sua intenção de não se
preocupar com nada que estivesse acontecendo fora da clínica. Mesmo
quando Camila ia visitá-lo no final da tarde, limitava-se a conversar
sobre suas atividades e seu estado de espírito. Sabia que teria muita
dificuldade para enfrentar, quando voltasse ao seu convívio normal, mas
acreditava numa preparação psicológica capaz de deixá-lo sereno para
a nova vida que teria. Até porque, embora ainda não tivesse discutido
com profundidade questões relacionadas com o assunto, já havia tido
uma pincelada quando tratou da auto-avaliação, ocasião em que ficou
convicto de que deveria erguer a cabeça e agir conscientemente frente a
tudo que dissessem a seu respeito, baseado principalmente no fato de ter
descoberto que era um doente.
Adquirira desde aquele momento uma motivação forte para não
fugir da realidade, sabendo que ninguém volta jamais a ser bebedor
social, pois a deficiência orgânica, o metabolismo alterado torna a
dependência uma situação irreversível. Apegava-se a frases fortes,
como a que foi ditada por Edson de que não seria conveniente adiar os
problemas que viesse a enfrentar, o que constituiria um ato de fuga ou
de covardia. Não via e estava consciente, porque escapar do assunto,
depois de tantos anos – mais de dezessete – bebendo. Ao contrário,
em certo aspecto dizia que quando bebia era uma beleza, uma maravilha,
mas quando viu os males que o álcool estava lhe causando, sentiu que
teria de ser forte. A manhã da sexta-feira foi reservada para uma
assunto que tinha muita identificação com os seus pensamentos. -
Vamos falar agora sobre os obstáculos que surgem para a pessoa
que decide suspender a bebida – abriu o doutor Duarte, que continuou
com a palavra. Suspender a bebida é uma decisão muito importante na
vida de cada alcoólatra. Só que não se trata apenas de suspender,
pois ele ficará sobre muitos escombros que terá de remover
pacientemente, até poder considerar-se sóbrio. A sobriedade não
significa apenas estar sem beber, mas é construída aos poucos, na
medida em que ele vai vencendo uma série de barreiras. Ele tem de começar
pensando em si mesmo, para saber se deseja se cuidar e formar um novo
ser. veja bem: a primeira barreira é a presença do próprio álcool no
seu pensamento, provocada por tudo que ele já viveu. Vem a vontade de
beber, uma vontade compulsiva que decorre da alteração orgânica que
ele possui. Prá completar, ele verá álcool por onde passar. Em casa,
nos bares, restaurantes, supermercados, praias, em todo canto. Portanto,
se intimamente ele está preparado para não beber, saberá resistir.
Outra barreira é constituída de certas situações que fatalmente
enfrentará: sofrendo agressões, e aí terá de saber conduzir-se ou
por causa do próprio conflito que se instala dentro de si, que pode
levar até à raiva de si próprio. Mas não pode esquecer que seu
objetivo é parar de beber, portanto nada deve ser superior a este seu
pensamento, a esta sua convicção, que não é aleatória, mas nasce da
certeza de que existe motivos sérios dos quais não tem o direito de se
afastar. Cada interno recebera outras tarefas de estudo, entre elas uma das mais
difíceis, que era fazer um inventário de suas vidas. Não deviam fugir
da realidade nem do seu passado, durante aquele processo do conscientização.
Todos tinham ainda muita cautela em falar sobre as experiências tristes
que haviam tido. Falavam muito sobre momentos lamentáveis, mas
percebia-se que escondiam muitas coisas, cada um com seus motivos, até
mesmo por pura inibição que ainda tinham perante os companheiros de
tratamento. Aquela ocasião era certamente favorável a um desabafo
coletivo, tanto que findaram se abrindo quando doutor Duarte falou em
motivos sérios para se afastarem do álcool. Gustavo começou. -
Bebo muito em casa, sempre que chego do trabalho no supermercado,
onde sou gerente. Tornei-me dependente e problemático, ao ponte de
brigar feito um animal com minha mulher, na frente dos meus filhos. Não
é fácil convencer-me de que sou alcoólatra, mas reconheço que tenho
todas as características, tanto que estou aqui com vocês. Silenciosa e atentamente os colegas ouviam o depoimento emocionado
daquele moreno, magro, de um metro e sessenta centímetros de altura.
Helena, sua mulher, enchia os olhos de lágrimas e conteve-se, para
fazer também uma intervenção. -
São muitos problemas que temos. Sou filha de alcoólatras e
sofri demais vendo minha mãe sofrer a injustiça, a violência e a
vergonha das bebedeiras do meu pai. Casamos e Gustavo bebia normalmente,
sem criar maiores problemas. Depois, começaram os desentendimentos, o
descontrole e os conflitos. Uma vez tive tanta raiva dele que peguei
todas as garrafas de cerveja que estavam na geladeira e quebrei jogando
no meio da rua. -
Esse é um gesto que ninguém deve adotar com um alcoólatra –
retomou doutor Duarte. Um enfrentamento desse tipo fere seus interesses,
que no momento da bebedeira só valorizam a bebida. É melhor deixar que
beba e ele próprio veja depois e resultado dos seus atos
descontrolados. Gustavo aparentava um certo alívio por ver seu caso sendo discutido com
naturalidade entre desconhecido, mas dava para sentir que não estava
disposto a expor outras histórias. Ficaria inibido, bem diferente
daquele brincalhão que a cada momento contava uma nova piada e fazia
todos rirem ou daquele que relatava suas aventuras quando caminhava pela
manhã com Lauro e Abelardo. A palavra foi passada para Lauro. -
Minha vontade de deixar de beber é grande, tanto que já
suspendi o álcool três vezes e fiz parte de uma grupo de A.A. durante
três meses. Minhas bebedeiras são grandes e quando começo a beber
deixo de lado qualquer compromisso. Minha mulher se separou de mim
porque não agüentava as tapas que lhe dava. Penso em me casar com uma
colega de trabalho, uma mulher linda, que eu adoro e não quero fá-la
sofrer. Mas a última que fiz foi marcar um almoço com ela em uma
restaurante próximo ao banco onde trabalho e deixá-la esperando de uma
da tarde até meia noite, quando cheguei embriagado. Ela entendeu e
apoia o que estou fazendo para me libertar do alcoolismo. Essa é
somente uma das histórias que tenho, que dá para ter uma idéia de
como não me controlo. Aí, gasto o que posso e o que não poso com
bebida e tira-gosto. Não cheguei a ficar na miséria nem a cometer atos
imorais, mas o meu beber descontrolado e a minha embriaguez sempre
deixam uma ressaca moral daquelas de ter vontade de encarar mais ninguém.
-
Agora você, Júlio – pediu doutor Duarte, enquanto fazia um
sinal de aprovação com a cabeça em direção a Lauro, que respirava
fundo com a mão no coração para, com sua hipocondria, sentir se
estava com taquicardia. -
Minha história é simples. Trabalho numa repartição seis horas
por dia. Sou solteiro e moro com minha irmã desquitada, que tem duas
filhas menores. Ela se separou do marido porque bebia demais. De tarde e
de noite não tenho o que fazer, fico nos bares ou em casa bebendo e
escutando música. Agora, estão havendo muitos aborrecimentos com minha
irmã e os vizinhos, porque meu som é muito potente, até que tive de
admitir minha falta de controle e vi que havia algo errado quando
derramei uma xícara de cafezinho em cima de um monte de documentos no
meu birro, porque não consegui conter os nervos. O chefe me chamou de
alcoólatra e não tive como reagir, já que estava de ressaca. Naquele
dia não consegui mais trabalhar. Somente os gestos de uma e de outro naquele círculo diziam mais alguma coisa enquanto eram feitos os depoimentos. Os companheiros de Júlio entendiam perfeitamente a situação pela qual ele passou, tendo em vista que as histórias dos alcoólicos têm muita semelhança. Com breves palavras do professor os trabalhos foram suspensos para o almoço, ficando as intervenções dos demais para a tarde.
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Vencendo obstáculos – 2 Novas experiências
de alcoólatras e o reflexo dos seus descontroles para a família. Prejuízos
e riscos que enfrentam O círculo estava formado em baixo do cajueiro quando as discussões
foram retomadas por volta das duas horas. Doutor Duarte iniciou fazendo
uma digressão na qual apresentou alguns conselhos úteis aos que alcançam
um estágio que definia distante de bebida tantos anos, era motivo de
felicidade. -
Repito que podemos andar de cabeças erguidas. Não temos de nos
arrastar na frente de ninguém, ainda que com cuidado para não sermos
dominados pelo egoísmo, pelo medo ou por ressentimentos. Ouçamos agora
o relato de seu Otávio. Nervoso, trêmulo, porém não se furtando a discutir os problemas do
alcoolismo, ele contou sua história resumidamente. -
Eu bebo há mais de trinta anos e paro de beber quando quero. A frase não convencia nenhum dos presentes, que sabiam da necessidade
que o alcoólatra tem de negar sua dependência e lembravam que ele não
recebera ainda informações a respeito da resistência em reconhecer a
impotência ante o álcool. -
Estou aqui para atender ao pedido de minha família, mas não
preciso aprender a parar de beber, porque já sei – completou.
Trabalho em uma repartição onde não se tem o que fazer. Para vocês
terem uma idéia, estou juntando meu tempo de serviço para a
aposentadoria e uma assessorzinho veio questionar uma licença-prêmio
que quero juntar e eu disse: olha, deixa de besteira, que tudo que eu
diz aqui em vinte e nove anos e meio de serviço eu faria novamente em
uma tarde. Parei de beber até um ano inteiro, sem nunca procurar ajuda.
O que eu vim fazer mesmo foi tratar dessa tremedeira das minhas mãos. Na esperança de que Otávio rompesse depois a sua barreira de resistência,
doutor Duarte não comentou nada sobre o seu depoimento. Dirigiu-se a
Abelardo, solicitando sua participação. -
Eu sou filho de alcoólico. Meu pai fez tudo que se pode imaginar
em sua bebedeiras e está sem beber há vinte anos. Estranhamente,
enquanto muitas pessoas passam a beber mais depois da aposentadoria, ele
suspendeu a bebida exatamente no dia em que se aposentou. Passei muita
vergonha e sofri muito quando ele bebia. Acho que inconscientemente o
imitei, porque me lembro que quando era criança pensava em chegar o dia
de juntar os amigos em torno de uma mesa, no quintal da minha casa, para
tomarmos refrigerante. -
Interessante, interveio a doutora Nadine, comentando que
realmente acontece da criança procurar imitar os pais. Abelardo
prosseguiu. -
Meus primeiro contatos com bebida alcoólica se deram através de
cerveja, que tomava com amigos do colégio e da rua onde morava. Passei
a tomar gosto pelas festas, naquele tempo em que se chamava as reuniões
com música e bebida, de assustado. Provei o rum com coca e gelo, cachaça
e fui bebendo, até findar conhecendo praticamente todas as bebidas.
bebia muito, ao nível de tomar certa vez seis garrafas de aguardente
com um amigo, só nós dois, em cerca de dez horas de farra. Há uns
oito anos, comecei a sentir problemas quando bebia, principalmente diarréia.
Acho que estava instalada a minha dependência, quando fiquei
preocupado, insatisfeito e lamentando porque tinha de tomar medicamentos
durante dez dias sem beber, quando o médico apreciou todos os exames,
inclusive uma ultra-sonografia e diagnosticou ameba. Depois veio a
vontade de beber todos os fins de semana, veio uma bebedeira noturna
constante que me levou a perder o emprego devido às falta, vieram os
acidentes com carro e, finalmente, o descontrole que me levou a beber
todos os dias, inclusive no intervalo do almoço. Acho que a bebida está
me prejudicando e tenho e me convencer, embora não seja tão fácil, de
que sou alcoólatra. Digo que não é fácil, porque a gente sempre
procura uma explicação para nosso comportamento, sempre tentando
convencer a gente mesmo de que teria condições de parar de beber
quando quisesse, mas chega um ponto onde a coisa não é mais assim. Sem comentários, foi a vez de dona Irene contar sua história. Ela não
era alcoólica. Estava internada para receber orientações de como
lidar com seu marido, alcoólico, então internado no Hospital Psiquiátrico
porque não quis ficar na clínica, mas que já tinha informado que
voltaria para o tratamento quando fosse liberado. - Eu estou me sentindo muito bem aqui, entre vocês e tenho esperança de conseguir dias melhores para a minha vida. Porque Patrício tem oito meses que se descontrolou mais do que nunca de bebida, não come direito e vive na rua desde que se aposentou. Perdemos a maioria dos bens que tínhamos. Hoje mesmo acabamos de vender o telefone para pagar as dívidas de bebedeira que ele deixou. Se não tivéssemos conseguido bloquear suas contas bancárias, a situação poderia ser ainda pior. Somos uma família, eu e meus filhos, completamente desajustada, tensa e infeliz. Mas tenho fé de conseguir que ele se conscientize, para recomeçar tudo.
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Desajustes sexuais Como a bebida
leva o alcoólatra a mudar o seu comportamento e causa problemas
familiares, sociais e orgânicos Diante da televisão os internos haviam voltado do jantar e se divertiam
com a notícia de que o Governo determinara a transformação de bilhões
de litros de cachaça em álcool combustível, para enfrentar a falta
deste produto. -
Acabaram com os papudinhos! exclamou Gustavo. -
Agora vai ficar mais caro – comentou Abelardo. -
Era bom que decretassem a lei seca – gritou dona Irene, em tom
de brincadeira. Com um ar misterioso, doutor Duarte riu dos comentários e chamou o
grupo para o refeitório. Lá estava posta uma torta de chocolate
coberta por uma espirais desencontradas de fio de ovos, tendo em cima
umas velas que formavam o número 37. Era o aniversário de Gustavo.
Cantaram parabéns, comeram a torta e fizeram uma cantoria que durou até
onze da noite, quando o normal era dormirem às dez. No dia seguinte,
naturalmente as atividades começaram mesmo mais tarde, por ser sábado.
Em alguns momentos pareciam ébrios em serenata, recordando as músicas
mais cantadas pelos bares e festas. Desde Vicente Celestino até Tom
Jobim saiu. A brincadeira parece que era a melhor forma de esquecer que
normalmente na sexta-feira à noite estavam mais livres para festejar o
que fosse, desde que estivessem com um copo de bebida à mão. Enfim,
foram todos dormir tranqüilos. No sábado o ritmo dos trabalhos foi mais lento. Mais assim foram
abordados temas de alto interesse, sobre os sentimentos do alcoólico.
Doutor Duarte abriu a discussão dizendo que existe uma tendência a
utilizar o se, que deve ser enfrentada com atitudes afetivas,
acrescentando tratar-se de um esforço que vale à pena. -
Devemos procurar a dignidade, que se encontra no enfrentamento de
todos os desafios. Organizamos nossas vidas em função do álcool, daí
ser uma vitória recuperarmos amor próprio, sem lamentarmos nada e sim
utilizando as experiências tristes como base para valorizar o novo
comportamento que passamos a ter. Nada de pensamentos ou lamentações:
“Se não fosse assim...” -
É preciso antes de tudo ser honesto consigo mesmo. Nada de criar
uma nova fachada. Ajustar-se à realidade, pacientemente e não querer
ser o que não pode. Seria hipocrisia – interferiu Fabiana. Foi dado por doutor Duarte o exemplo de mudança de comportamento de um
alcoólico, cuja mulher ficava tensa, triste e inconformada nas relações
sexuais. Sem qualquer consideração, à mesa ele tentava provocá-la
apelidando-a diante dos filhos com marcas de geladeira: “Frigidaire! Cônsul!
Prosdócimo!”, exclamava, esbravejava, sem respeitar o estado de espírito
dela. -
Os desajustes sexuais do indivíduo, fazendo até com que demore
ou apresse a ejaculação ou o orgasmo. A demora, é vista como satisfação,
porque ele não sabe que aquele estado onde se diz que ele
“envernizou” é um sintoma de desequilíbrio. Ele demora a ejacular
e o membro fica ereto por muito tempo porque está anestesiado pela
bebida, que circula pela corrente sangüínea, passando pelas veias dos
órgãos sexuais. Aquela explicação foi bem assimilada. Ninguém naquele grupo esperava
que fosse aquela realidade. No entanto viam toda lógica pois sabiam
muito bem como se sentiam nos relacionamentos sexuais quando estavam sem
beber. Seguindo o programa estabelecido, à tarde foi exibido o filme “O
piloto”. Mais uma mostra de caso de alcoolismo, com uma diferença
para a platéia, devido à obrigação que foi ditada, acarretando maior
atenção que numa exibição normal. Era preciso cada um dar sua opinião
em seguida. O filme mostrava a vida do melhor piloto da aviação comercial
norte-americana, um alcoólico. Vítima de insônia, provocada pelo uso
incontrolado de bebida, bebia de madrugada. Tinha de beber também
durante o vôo. Cuidando para que ninguém soubessem escondia uma
garrafa pequena de uísque por dentro do porta-papel higiênico do
toalete. O costume de beber nos vôos sem ser notado diminuiu seus
cuidados em esconder. De forma descuidada porém menos trabalhosa, bebia
na copa. Surgiram desconfianças, denúncias e investigação. Ao mesmo
tempo ele lutava contra a dependência, com ajuda de um médico. Passou
maus momentos quando privado da bebida. Freqüentou ambientes de
categoria bastante inferior. Finalmente perdeu o emprego. Muito antes
havia perdido a mulher. Tinha uma vida desajustada. As imagens e os sentimentos transmitidos pela fita sensibilizaram o auditório. Não se escapa da experiência de imaginar os álibis mais estranhos para beber, de se sentir bem em lugares os quais talvez nem olhasse quando sóbrio nem dos conflitos que desestrutura a vida que organizara.
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Resistindo à tentação A opção entre
um guaraná e uísque com gelo, cerveja ou cachaça, acompanhados de
saboroso tira-gosto. A caminhada do domingo foi cancelada. Resolveram substituí-la por exercícios
na praia, já que era dia de lazer. Desembarcaram por volta de dez horas
num local cheio de banhistas. Encontravam-se arredados de barracas,
bares, garçons, bebidas, tira-gostos, frutas e ambulantes. Iam
desfrutar momentos inesquecíveis. Passearam, banharam-se, deliciaram-se
com saborosos tira-gostos acompanhados de refrigerantes, ao mesmo tempo
em que se encantavam com as belezas naturais. Sentiam satisfação em
compor o grupo. Perda de tempo acreditar que estavam tão livres. Um dos bares ostentava apreciável prateleira de bebidas. Todas as
marcas e tipos expostos, atingindo qual a pontada de cupido os corações
apressados. Quanto sabor naquelas garrafas!... Quantas lembranças do
passado, distante ou recente, tempo em que podia ou achava que podia
beber!... quanta vontade de fazer tilintar pedras de gelo num copo largo
de uísque, levando-o à boca, sentir o frio da cerveja pela garganta e
sua espuma nos lábios, derramar dois dedos de cachaça com o gesto
automático, seguidos de um pedacinho de carne coberto de farinha ou um
camarão com casa e tudo. Viravam copos com guaraná, amigo de tantas
ressacas, doravante companheiro da sonhada sobriedade. Amargo momento, superior a tantas desilusões da vida, quem sabe por
isso mesmo mais valioso, por despertar para a busca de novas emoções,
fato tão decantado pela poesia que crê no encontro de um novo amor,
depois que do amor proibido ficou só a saudade. Momento de ser forte,
de ter amor próprio e resistir à tentação, erguendo a cabeça para
seguir a vida deixando para trás o que não pode mais querer. Momento
de se sentir importante e amado sinceramente por aquele que lhes cercam.
Teste da fortaleza própria, ao vencer a vontade louca de correr para o
balcão e embriagar-se, ao encarar com naturalidade os que bebiam para
se divertir ou que ainda não tinham admitido a fraqueza perante o álcool,
ao sentir que estava sendo honesto consigo mesmo se estava certo de não
invejar, ao poder afirmar que na lucidez recém descoberta estava
nascendo para muito do que não valorizava. Que velocidade teriam suas idéias durante a volta e passando diante de
tantos bares, no conflito entre os copos e bebedores e a maioria
ofuscada pela sua visão ébria, esquecida de que os bebedores são a
minoria. Quanta força de vontade foi preciso para raciocinar fazendo
voltar à mente aquele dia bem próximo no qual faria qualquer coisa
para deixar de beber. Dizia a si mesmo que não podia sentir na
bebedeira ou do contrário sua vida certamente seria desastrada. Mirava-se no próprio exemplo antes de ingressar na vida de bebedor
problema, época na qual era organizado, caprichoso, responsável e
plenamente valorizado. Mirava-se também no exemplo de tantos abstêmios
que tinham vidas regradas e nunca precisaram da bebida. Terminou
sofrendo, mas superando pelo menos naquele momento o egoísmo de
questionar porque a natureza o havia feito diferente dos que podem beber
sem problema. Respirou fundo e pensou que ao invés de se lamentar por não
poder fazer como outros, deveria encontrar-se, valorizando o que possui,
a partir do gratificante fato de ter nascido. O grupo agia com naturalidade. Deixava a impressão de que nunca teriam sentido necessidade de beber. Os diálogos sobre suas histórias e as mãos trêmulas de Otávio é que poderiam denunciar o estado deles. Dali concluíram o dia de folga estudando, jogando baralho, assistindo televisão ou conversando no alpendre que circulava a casa grande regado a inúmeros copos d’água que matavam a sede instalada após horas de sol a trinta graus.
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Enfrentando o egoísmo Olhos voltados
para a tristeza do passado, é hora de enfrentar o remorso, o sentimento
de culpa, a amargura, a insegurança e o pânico O círculo, disposto e atento, voltou a se formar pela manhã, com um
tema que reforçava a idéia de abstenção da bebida. Foi detalhado que
a bebida, para as pessoas normais, significa liberação momentânea da
ansiedade, do desgosto, da angústia, enquanto para o alcoólico
representa solidão, terror, inquietação, frustração e desprezo.
Desfazer-se das ruínas do passado era a forma de seguir para os anos
diferentes, de paz. Enquanto ouvia a diferenciação Abelardo ia se distraindo, até
divagar, lembrando-se do conceito que tinha havia tantos anos, na sua
turma de universidade. Não que fosse um beberrão. Porque circulava bem
mais que os outros. Era a ele que perguntavam para onde iriam sempre que
saíam para conversar e beber. “Abelardo diz para onde vamos, que ele
conhece todos os bares”, diziam, ouvindo sempre em seguida o nome de
um bar, geralmente um ambiente desconhecido da maioria, nunca
decepcionada pela escolha. Reflita sobre as respostas que dera a algumas perguntas do livro “Os
doze passos”, dos Alcoólicos Anônimos. A situação à qual chegara
enquadrava-o completamente nas particularidades do primeiro passo,
inclusive no que se refere à impotência diante do álcool não ser
recente, mas de um tempo passado difícil de determinar com exatidão.
Tanto que fazia anos que tentara através de formas diversas enfrentar o
problema, porém sem sucesso, até porque naquelas formas não estava a
determinação de evitar o primeiro gole. Havia chegando ao fundo do poço,
mas não admitia a perda do domínio sobre a sua vida. Naquele dia estava disposto a adotar as atitudes e ações necessárias
à transformação da sua vida, o que significaria um inestimável
sacrifício. Esperava encontrar na natureza e na fé a compreensão pela
resignação decorrente do reconhecimento da sua doença, a qual sabia
que não tinha cura, masque poderia deixar de prejudicar a si e
a outros se conseguisse ser forte. Imaginava corretamente que as condições a respeito do segundo passo
sugeriam-lhe a busca da fé para superar o seu problema, que acreditava
poder conseguir através da humildade e da mente aberta. Reconhecida que jamais havia se examinado no sentido profundo e
significativo abordados pelo texto, ao ponto de convencer-se de que,
como alcoólico, era mentalmente doente. Sua aspiração para atingir o estado de espírito do segundo passo
poderia amparar-se na descoberta de formas para poder manter-se calmo. Delineava na mente o credo na conquista da natureza e no progresso científico,
considerando que o que se encontra além do alcance do homem era
exatamente o que ele ainda desconhecida, o que, porém, não lhe impedia
de procurar sua fé nela mesma, a natureza. Sempre que parava meditava. A abordagem que havia feito sobre o terceiro
passo relacionado com a sua situação no momento vinculava-se a sua
disposição de enfrentar seu próprio egoísmo, conforme propunha o
livro, fazendo o que chamava de primeira tentativa, com o desejo de
alcançar a boa vontade que poderá abrir a porta necessária ao seu êxito
na luta contra o álcool. Escrevera que daquela forma tinha de combater até conseguir o que não
podia substituir: o remorso, o sentimento de culpa, a amargura, a
insegurança financeira e o pânico, todos verificados de alguma forma
na sua vida de alcoólico. Para tanto, afirmava precisar ter sempre presente a reflexão na indecisão
ou nos momentos de distúrbio emocional sobre a necessidade de
serenidade para aceitar as coisas que não podia modificar e a coragem
para modificar aquelas que podia, com sabedoria para distinguir umas das
outras. Tinha consciência de que deveria enfrentar indecisão por conta de fatores como idade e meio social, a qual queria combater com as coisas boas que o viver sóbrio poderia lhe proporcionar, bem como da compreensão aos outros. Sabia também da ansiedade que deveria repetir-se, a qual queria enfrentar com sua fé e os olhos voltados para a tristeza do passado.
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Marcas inapagáveis Reforçando a
idéia de que dirigir e beber não se misturam sem que se obtenham
resultados trágicos Quase todos os internos ostentavam marcas inapagáveis de acidentes de
trânsito, recebidas em situações de bebedeira. Diferente do impulso
que tiveram para dirigir embriagados, o instinto de viver obrigava-os a
ficar sensibilizados reconhecendo que por muito pouco haviam escapado da
morte. A atividade que se seguia era sobre acidentes de trânsito. Um documentário
severo e alarmante, no qual era defendido que dirigir e beber não se
misturam. Tanto que houve quem declarasse que deveria haver uma opção:
ou álcool ou segurança nas estradas. Ao final, a informação de que o
Brasil é recordista mundial em acidentes de trânsito. Completando a apresentação de subsídios para uma discussão, foi
exibido um filme com trinta minutos de duração intitulado “Embalos
de sexta à noite”. Tratava-se da história de um rapaz de dezessete
anos que numa noite de sexta-feira, depois de beber e retornar à casa,
bebeu mais em casa e nos lugares por onde passou e encontrou amigos,
resolveu sair com oito deles na sua caminhonete. Os amigos
incentivaram-no insistentemente a correr mais claramente mesmo
provocando-o, até que sobrou em uma curva deu-se o desastre. Só ele escapou. Quase todo o filme foi
tomado pelo seu julgamento, no qual foi condenado a oito anos de prisão.
As discussões foram poucas, talvez porque o material exibido tivesse
esmiuçado suficientemente as questões. Surgiram apenas opiniões
acerca da irrealidade verificada da legislação brasileira que trata
dos delitos do trânsito, pois muitos motoristas matam pessoas
atropeladas e são praticamente premiados com penas insignificantes ou
sequer chegam a ser processados. Opinaram também sobre o julgamento do jovem americano. As posições
foram variadas. O fato de terem-no instigado a correr servia de forte
atenuante, capaz de gerar opiniões pela sua absolvição. Ao mesmo
tempo influía bastante as conseqüências do acidente para as famílias
dos que morreram, todas revoltadas e responsabilizando-o. Posição incômoda acabou sendo a do juiz, na solidão do seu gabinete,
procurando a dose racional, lógica e justa para apenar, sabendo que sua
decisão, qualquer que fosse, deixaria fatalmente alguém insatisfeito.
A maioria entendeu que o juiz estava certo. Desfez-se rapidamente o círculo assim que a turma foi liberada para
esperar o jantar. Logo estavam na passarela de pedras pequenas à
entrada da clínica os que sairiam para a caminhada vespertina de cinco
quilômetros: Otávio, Lauro, Gustavo e Abelardo. -
Vou aproveitar e comprar cigarros – repetia seu Otávio a frase
que pronunciava a cada vez que saía. -
Eu vou telefonar – informava Lauro, com seu ar impaciente e
movimentado. -
Também vou telefonar, para saber notícias das meninas – dizia
por sua vez Gustavo, referindo-se a suas três filhas que tinham ficado
em casa, no seu estado de origem. -
Vamos lá – completava Abelardo, como que somente para não
ficar calado, que acompanhava os outros pensativo e conversando. -
Essa vegetação é muito bonita – comentava Abelardo,
mostrando o verde que margeava a estrada desde a clínica até o
telefone e a mercearia, o primeiro sinal de perímetro urbano,
exatamente a dois quilômetros e meio. Contavam suas aventuras. Um era solteiro e tinha uma filha. Não pensava mais em casamento. Gostava de viajar país afora, fazendo compras. Outro tinha discutido com a mulher ao ponto de vê-la sair furiosa no carro para a casa dos pais, numa cidade distante, sem olhar sequer se o tanque estava abastecido, arriscando-se a ficar na estrada de noite e voltou arrependida contando que teve a sorte de ser alertada pelo pai sobre a gasolina no momento em que saía de volta. Ouviu-se a aventura do que passou um | |||