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HISTÓRIA
Esta
página reúne informações sobre Mata Grande, a cidade onde morei na
minha infância, bem como crônicas e poemas por mim dedicados a este
belo pedaço do sertão nordestino. Mata Grande está situada na
Microrregião do sertão alagoano, tendo limites com Água Branca,
Inhapi, Canapi, Pariconha e Pernambuco. Tem uma altitude de 635 metros
acima do nível do mar. Sua Área: 253 km2. Seu Clima: Temperado.
Temperatura Máxima de 33° C e mínima de 15° C. População: 24.409
habitantes. Eleitorado: 13.257 eleitores. Economia: Agricultura. Educação:
6.129 vagas (redes estadual e municipal). Saúde: 1 posto de
atendimento e 1 Unidade Mista de Saúde (44 leitos). Acesso: AL-105.
A serra de terras férteis onde o povoado se formou deu nome ao
município de Mata Grande. Os primeiros donos de terras foram Antonio
de Souto Macedo, Sebastião de Sá (ambos considerados pioneiros na
região), Francisco de Braz, Teodósio da Rocha, Nicolau Aranha,
Baltazar Farias, Damião da Rocha, Antonio de Farias e Diogo de
Campos. Os pioneiros na região, porém, foram mesmo Sebastião de Sá
e Antonio Macedo.
Os
latifúndios eram constituídos por sesmarias doadas pelo governador
da Capitania de Pernambuco, Francisco Barreto, em nome do Rei de
Portugal, como recompensa pelo trabalho na guerra da restauração
pernambucana. Os dois pioneiros passaram a desenvolver a região através
da criação de gado em seis fazendas. As terras deles acabaram doadas
aos padres jesuítas, que logo depois foram expulsos do país e
tiveram os bens sequestrados pela Coroa, vendidos, em seguida, em leilão.
A
população começou a se formar em 1791, quando João Gonçalves
Teixeira doou parte de suas terras para a construção de uma capela
em homenagem a Nossa Senhora da Conceição. A propriedade tinha o
nome de Cumbe, por conta da existência de uma pequena fonte que
abastecia o povoado. Em 1837, o povoado foi elevado à categoria de
vila. Em 1902, se transformou em município autônomo com o nome de
Paulo Afonso. Em 1929, voltou a ser chamado de Mata Grande. As
festividades comemorativas à padroeira e à Emancipação Política são
os dois grandes eventos que movimentam a cidade.
Conforme dados do Governo do Estado de Alagoas sua denominação
passou a ser Mata Grande em l835, quando foi anexada, como termo, à
comarca de Penedo. Em 18 de março de 1837, por
Resolução provincial nº 18, foi a povoação de Mata Grande
elevada à categoria de vila e freguesia. Mata Grande perdeu, todavia,
pela Lei nº 43, de 4 de maio de 1846, as prerrogativas de vila que
lhe foram outorgadas pela Resolução de 18 de março de 1837, sendo
incorporada a Traipu, vindo a readquiri-las seis anos depois, em
virtude da Lei nº 197, de 28 de julho de 1852. Tomou o nome de Paulo
Afonso pela Lei nº 516, de 30 de abril de 1870, sancionada pelo
Presidente José Bento da Cunha Figueiredo, quando ainda o seu território
abrangia a famosa cachoeira.
A
Lei nº 328, de 5 junho de 1902, assinada pelo seu ilustre filho, Dr.
Euclides Vieira Malta, então Governador do Estado, elevou-a à
categoria de cidade, conservando-lhe o nome de Paulo Afonso, até que,
em 25 de maio de 1929, voltou ao de Mata Grande, por terem cessado,
com a criação do município de Água Branca, os motivos de ordem
histórica e geográfica que lhe deram o nome de Paulo
Afonso. Do seu território foram desmembrados os municípios de
Pão de Açúcar, em 1854, e Água Branca, em 1875.
HISTÓRIA
CAMINHOS
DE MATA GRANDE AS
ALAMEDAS PEDRAS
DA SERRA A FONTE
SOBRE
O AUTOR FALE
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CAMINHOS DE MATA GRANDE
--- Walter Medeiros Numa
dessas noites pensei insistentemente em sentir o perfume de uma rosa. E
ao sentí-lo, soltar meu pensamento pelos caminhos de todos os meus
sonhos infinitos. Lembrar o cheiro das alamedas coloridas de Mata
Grande. E as pedras da Serra da Onça, onde fazia as incursões de minha
infância. Reviver comigo o tempo ingênuo e puro da fonte, próximo da
qual encontrava o mel das abelhas e onde o silêncio só era quebrado
pelo canto dos pássaros. Quis voltar a Mata
Grande do Grupo Escolar Professor Demócrito Gracindo, onde me realizava
ao receber a professora Josefina Canuto. Dos filmes de Lampião. Do bar
de Noca. Do alambique. Da padaria. Da rua de cima e da rua de baixo. Do
armazém de seo Odilon. E da loja de "Priminho", onde
"Priminha" cantava cedinho na calçada sua música de amor:
"que alegria aqui nesse sobrado/Priminho é meu, oh! que
felicidade/ e as crianças brincam na calçada..." Não
sei porque, mas tenho certeza de que o perfume da flor me lembra Mata
Grande, como se lembra da mulher amada. Traz à minha mente a figura de
Pastora, preta sem rumo, bebendo cachaça. Traz a mim Dona Maria Sabiá,
chegando a minha casa com o café torrado no caco. O carro de cocão de
Etinho. A despedida de Clemilda. Os bigus nos carros de boi. A
felicidade da roupa nova que a minha mãe fazia. Mata
Grande é como esta rosa que pensei procurar. Perdida no alto sertão
das Alagoas. Não manda mais notícias. Mas eu não esqueço. E hei de
vê-la novamente, para retomar o caminho dos meus sonhos. (N.R.
O autor saiu de Mata Grande em 1962. Esteve lá em 1993)
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AS ALAMEDAS
--- Walter Medeiros Voltar
àquelas alamedas coloridas seria retornar a um passado sem igual. Por
elas andava e sonhava sonhos pouco ambiciosos, porém justos. Como os
que ainda hoje sonho, que a vida haverá de concretizar. Observava,
pequeno, as frondosas árvores, com suas flores vermelhas e amarelas, e
as folhas caídas ao chão, levadas pelo vendo da ladeira da Matriz.
Não
era de ficar observando muito, porque morava distante, mas aproveitava o
máximo quando era mandado
à rua ou ia, aos domingos, engraxar os sapatos no centro. E não
comentava com ninguém, pois ao juntar-me aos outros aquilo não entrava
nas conversas.
Sei
que estas lembranças belas guardadas não vêm agora pelo fato de ter
saído de lá. Aliás, elas sempre estiveram presentes, e agora apenas
se reavivam, trazendo à imaginação o aspecto que teriam atualmente,
muitos anos depois.
Não
quero acreditar que tenham mudado nada, porque não havia necessidade.
Mas ao redor deve estar tudo diferente. A cidade cresceu, as coisas de
hoje devem estar postas em todos os lugares. Antenas de TV, vitrines,
caros novos, devem ter tomado o lugar das pouquíssimas antenas de rádio,
das portas duplas e altas de madeira, das lojas e dos jeeps Willys de
então.
Deve
ser grande o movimento de pessoas. Rostos que, na maioria não conheço.
Mas entre eles devem estar os semblantes daqueles vizinhos e colegas de
infância, hoje adultos, se não mudaram de cidade – como Valdeci,
Helena e Valderez, ou se não se passaram, como dona Francina e outros.
Pensei,
criança, voltar um dia e ver tudo igual. Hoje sei que tenho de
enfrentar a mudança. Mas a vida só me dá direito a isto.
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PEDRAS DA SERRA
--- Walter Medeiros No
sertão onde eu vivi, o homem não deixa nada sem conhecer de perto. É
curioso e procura os mínimos detalhes sobre sua vida e o ambiente que
habita. E isso o leva a se acostumar com as cobras, as rochas e os
espinhos. Ali pouco importa muita coisa que o desenvolvimento traz,
principalmente quando leva vida simples.
Foi
por isso que subi a Serra da Onça, num convescote em certo domingo. Era
muita gente. Quem já conhecia, ia mostrando os caminhos aparentemente
impossíveis de seguir. Perigosos, porém não intransponíveis. A
recomendação menor era com as coroas de frade. O maior cuidado, não
escorregar.
A
pe se foi até a serra. Muita disposição exigia-se para poder subir,
mas todo preparo era pouco para evitar o cansaço. Todo ânimo
ressurgia, ao sentirmos que estava próximo o cume, com seus segredos,
suas lendas e rochas até hoje não visitadas.
A
beleza da paisagem era muito grande. Todos ficavam a apreciá-la.
Seguiam, porém, aos poucos, até se juntarem para comentar o medo de
alguns, o desajeitamento de outros, as plantas nascidas das pedras. Soltávamos
a imaginação, esquecendo até a quentura das rochas sob o calor do
começo da tarde.
Conhecemos
a Serra, nos divertimos e depois chegou, para muitos, a maior apreensão:
descer de volta! Foi muita aflição junta, mas todos conseguiram. E a
serra ficou lá, indiferente à visita, como representante dos poderes
da natureza. Imortal, hoje talvez sem se abalar sequer com os anos de
seca na região, que trazem penúria ao povo nordestino.
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A FONTE
--- Walter Medeiros Uma
das lembranças que guardo de Mata Grande é da fonte, onde diariamente
muitos iam buscar água e da qual se falava como se ela fosse uma pessoa
integrada ao nosso convívio. Ali, as cenas mais comuns eram formadas
por pessoas transportando galões ou burros, como seus barris, tangidos
calmamente pelos caminhos feitos aos poucos pelas pisadas cotidianas.
Era
a fonte que, arrodiada pela tranquilidade dos avelozes e plantas
rasteiras, garantia a sobrevivência de muitos, até em certos períodos
críticos de seca, e que tinha uma beleza ímpar, já que o sol quase não
chegava perto e vivia como que protegida pela vegetação.
Naquele
local se misturavam os pássaros, com seu canto sinfônico, que nos
davam uma tenra tranqüilidade, a qual motivava remorso, quando
quebrada, como fez numa daquelas manhãs um menino, ao atingir
fortemente um canário com uma “bala” de barro. Ao vê-lo batendo
asas, sem poder voar, lutando contra a morte, foi tomado de
arrependimento e tentou salvá-lo a qualquer custo. Mas era tarde.
Tinha
dessas coisas a fonte, que eu posso comparar hoje à melhor alvorada que
desejaria ter. Cedo, pisava suas bordas molhadas e seguia o ritual
comum, jogando as latas, naquela espera paciente pelo afastar das
folhas. E saída respirando o ar puro, ao seu redor, deixando-a algumas
vezes solitária, como que se embalando, para dormir um sono justo.
Mas
todo esse aspecto pareceu mudar quando contaram-me as chocantes cenas
ocorridas ali perto, décadas atrás, quando não pôde servir muito.
Ano seco, muita fome e, o pior, muitos tombando mortos.
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O
AR DE MATA GRANDE
--- Walter Medeiros
Mata Grande no meu tempo teve coisas que ninguém esquecerá
jamais. Ouvia-se no ar “Alguém me disse”, “Quero beijar-te as mãos”
e todas as outras faixas do LP de Anísio Silva, seguidas daquelas
outras músicas na voz de Carlos Gonzaga – “Diana” e “Oh!
Carol”, Luís Gonzaga com “Forró no escuro” e as previsões de
“Marcianita (branca ou negra)” de que “nos anos setenta felizes
seremos os dois”.
Enquanto isto, na rua passava Zé Praxedes com aquela escada
grande para completar a instalação da energia de Paulo Afonso. Foi
naquele tempo que meu pai recebeu um rádio vindo de São Paulo. Nele
escutávamos os jogos da Copa do Mundo e a apreensão sobre o açude de
Orós, que estava para romper a qualquer momento.
As notícias chegavam como que molhadas pela chuva e debaixo
daquele frio que fazia pularem os cururus no meio da rua. A mesma rua
por onde vinha aquela mulher com um balaio de imbu na cabeça e a gente
comprava um caldeirão inteiro para chupar.
Mais de trinta anos depois voltei à cidade. Graça - minha
mulher, Clemilda, minha irmã e dois dos meus filhos – Firmino Neto e
Waltinho. Cada passo era uma emoção, em cada esquina matava uma
saudade, em cada rosto via os dias da infância. Inclusive no rosto de
Dona Josefina, com quem nos encontramos, embora rapidamente; Dona
Luizinha, Valderez e Germano.
Aquela volta a Mata Grande foi como uma espécie de desincumbência.
Parecia que existia no ar uma obrigação assumida em percorrer
novamente aquelas ruas, andar novamente naquela feira, tocar mais uma
vez nos carros-de-boi, olhar a fonte, o Almeida, a Igreja.
O tempo passou novamente. Faz tantos anos que não vejo Mata
Grande. E parece que aquela vontade de voltar aumenta. Em cada mensagem
que agora recebemos pela internet, em cada fato que a natureza coloca em
nosso caminho. Parece que tudo leva a fazer real aquela frase de pára-choque
que nosso vizinho João Leobino tinha no seu caminhão: “A saudade me
fez voltar”.
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SOBRE
O AUTOR
Walter
Medeiros
- Nasceu no dia 17 de julho de 1953, em Natal-RN. É escritor, poeta,
Jornalista Profissional e Bacharel em Direito. Trabalhou em diversos veículos
de comunicação do país, entre eles a Folha de S. Paulo, o Estado de
S. Paulo, Rádios Cabugi e Planalto, TV Cabugi, Tribuna do Norte e Dois
Pontos, tendo colaborado no jornal Movimento. Foi um dos fundadores do
jornal cultural "O Galo", da Fundação José Augusto.
Participou do jornal "O Letreiro", do curso de Letras da UFRN
(1976) e do fanzine poético "A Margem". Publicou em 1990, o
livro ABELARDO, O ALCOÓLATRA, trabalho que mostra o dia-a-dia de uma clínica
de recuperação de dependentes químicos. Exerceu a Presidência da
CERN, hoje Departamento Estadual de Imprensa
e a Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Natal. No
Movimento Estudantil, foi presidente do Diretório Acadêmico do Centro
de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN, em 1976. Exerceu também vários
atividades sindicais, entre elas os cargos de vice-presidente do
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RN e Diretor da Federação
Nacional dos Jornalistas – FENAJ. Trabalha atualmente na Secretaria da
Saúde do RN.
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