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MATA GRANDE Wellington Medeiros
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Quem
acessar na internet o endereço rnsites.com.br/MataGrande.htm vai
conhecer a cidade alagoana onde, menino, vivi durante dois anos –
1956 a 1958 - e de onde voltei para estudar em Natal, morando com avós.
Foi Mata Grande que abrigou grande parte da infância dos meus irmãos
Clemilda e Walter Medeiros - ele por ser o mais novo e lá ter
residido dos três aos nove anos, 1956 a 1962 - tem por ela uma afeição
toda especial, materializada através desse site-documento. Mesmo
assim, recordo os passeios em carros-de-boi, as montarias em cavalos e
burros, os engenhos de cana-de-açúcar, as casas de farinha, o
carro-de-cocão ou a subida da Serra da Onça. Também lembro os galões
de água que carregava nos ombros, ainda escuro, entre a nossa casa e
a fonte – distante cerca de 300 metros – e os pássaros que criava
e cuidava, entre eles um canário, que me servia de despertador. Não
tive tempo de me apegar a nenhuma das dezenas de cidades onde morei até
os 12 anos, por força da atividade nômade do nosso pai, José
Firmino de Medeiros naquela época guarda do então Departamento
Nacional de Endemias Rurais - DNERu. Este
fato sempre me chamou atenção, uma vez que ele saíra de uma farda e
vestira outra. Serviu ao Exército, na época da guerra, quando nasci
- o que lhe valeu depois a condição de ex-combatente com todas as
vantagens – e, em seguida, dedicou-se profissionalmente a uma outra
batalha igualmente de heróis, esta no combate à malária, febre
amarela, bouba e outras endemias rurais. Ainda recordo alguns municípios
do Nordeste onde morei até os 12 anos, começando pela cidade de
Araruna, na Paraíba; Arcoverde, Agrestina, Buíque, Catende, Custódia,
Jaqueira, Ouricuri, Pesqueira, Salgueiro, Serra Talhada, Serrita,
Triunfo, Lagoa dos Gatos, Panelas e Pilar, em Pernambuco e,
finalmente, Alagoas, onde moramos em Maceió e Mata Grande. Foi de lá
que me trouxe em 1958 também para a farda: a da Escola Industrial. Nesses
últimos dias, Mata Grande vem sendo notícia na imprensa local, por
conta de um senhor de 71 que chegou à cidade de Upanema ( 250 quilômetros
de Natal), há algumas semanas, informando chamar-se Otacílio Alves
Ferreira Filho e dizendo-se natural da cidade alagoana de Mata Grande.
O jornalista Anaximandro Eudson, que atua em Upanema, começou a
enviar e-mails e procurar pistas pela Internet. Eis que encontrou o
site montado por Walter dedicado a Mata Grande. Construiu a ponte que
já conseguiu localizar os parentes do seu Otacílio, contando com a
participação de um internauta de Mata Grande, bancário aposentado
Germano Alves, que fora nosso vizinho e estabelecer contato entre os
prefeitos de Upanema (RN), Jorge Luiz Costa de Oliveira e Fernando José
de Araújo Lou, de Mata Grande (AL). Agora, providenciam a
re-estadualização de seu Otacílio que vinha sendo abrigado pelo
Delegado Jota Pereira e Prefeitura sendo há 15 anos dado como morto
pelo irmão Antônio Alves Ferreira. Se o fato coloca Mata Grande na mídia, é o gancho que surgiu para hoje digitar algumas linhas sobre esta fase da nossa infância na “terra dos marechais”, como diziam os locutores esportivos. Período em que desde cedo pude ver de perto a importância da água encanada e hoje sentir, mesmo à distância, a alegria das pessoas quando as adutoras chegam com água às suas casas, como ocorreu com toda intensidade no governo do senador Garibaldi Filho. Quem carregou galões de água nas costas sabe lhe dar o devido valor. Também senti na pele a necessidade da disseminação do ensino nos seus diferentes níveis, evitando-se a separação dos jovens das suas famílias para poder estudar. Esse drama ainda é enfrentado por muitos que nesta época estão percebendo na mídia a “prioridade” prometida para a educação. Enfim, mostrou que a Internet – como antigamente ocorria com os radioamadores – é um forte instrumento a serviço do cidadão. Como está sendo para seu Otacílio e familiares, bem como todos que se envolvem no reencontro e, conseqüentemente para nós que estamos, através dos internautas que se interessaram pelo assunto, tendo a oportunidade de reencontrar familiares de colegas do nosso pai, como Remi Bastos Silva, filho de Plácido Reis da Silva, 93 anos, autor de um artigo “Mata Grande – pedacinho de saudade”, que retrata fielmente, com atos e fatos, a cidade naquela época. Como diria o poeta Fernando Pessoa, numa frase também lembrada num e-mail: “O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. Seu Plácido, por exemplo, que continua contando a história e era um dos grandes amigos do meu pai José Firmino (25.09.1918 – 02.07.1995) que ao visitá-lo muitas vezes me dava notícia do falecimento de ex-companheiros de jornada, Lira, Floriano, Roque, entre tantos. Não esqueço o dia – ele já ultrapassando os 7.0 - em que recebendo uma dessas informações indaguei: “Qual a idade dele?”. A resposta – “Era moço, assim como eu”...
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