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Saudade
daqueles rostos
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Thais Marques*
Dia
desses, ao chegar à Assembléia Legislativa, uma das
seguranças que fazem a recepção deu-me um recado:
pela manhã um rapaz estivera
à minha procura. Como o cidadão deixara de
identificar-se, não valorizei o fato.
Coincidência
ou não, no finalzinho da tarde dirigia-me ao
estacionamento e dei de cara com Pinheiro e Argemiro,
dois contemporâneos do tempo do falecido A República.
Passamos a conversar sobre filhos e o destino que lhes
reservou a idade adulta. Eis que percebo aproximar-se
uma figura esguia e de andar meio gingoso. Todo sorriso,
integrou-se ao grupo e foi generoso em salamaleques
comigo.
Era
Jóis Alberto e poucos segundos foram suficientes para
sacar que ele era o dono do recado. Ele queria um
depoimento meu sobre o Bar do Lourival, para um
livro que Racine Santos estava preparando. Não fiquei
propriamente surpresa, mas meio balançada.
Sem
buscar maiores esclarecimentos acerca da proposta, ao
chegar à casa pus-me numa viagem mental que começou
numa noite de abril de 1979, quando , no horário do
fechamento da edição, adentrei a
redação do Diário de Natal ladeada por
Paulo Tarcísio, que fora me buscar no aeroporto. Todos
alvoroçados concluindo suas matérias, João Neto
olhando por baixo dos óculos, e eu, muito espaçosa,
fui logo me instalando e sendo de imediato convocada ao
trabalho. Disse-me Paulo: Taizinha, vá lendo aí essas
matérias. Nesse exato momento começava minha história
em Natal.
Eram
passados 26 anos
(esse encontro foi em meados de 2005)e muitas imagens
pululavam em minha mente.
Pensei
que não fosse encontrar dificuldade. Mas é complicado
relembrar situações sem a tentação de reeditá-las.
Dar-lhes novas interpretações. Não que me
faltasse bagagem intelectual suficiente. Mas pela
coordenação mental que me exigiria a lembrança dos fatos na medida exata que precisavam ser registrados. Até
porque, creio, a finalidade do trabalho pretendido não
seria romancear. Mas relatar.
Acredito
que a proposta de Racine era a de fazer um resgate
emocional dos momentos de quase liberdade dos tempos
idos e vividos no Bar do Lourival.
Época
de liberdade, mas paradoxalmente de muito patrulhamento
e desconfiança.
Década
de 80.
Era
no Bar do Lourival que jornalistas, poetas e
outros que tais construíam sua visão a respeito
daquele momento político em que, dentre outras
conquistas, presidentes, governadores e prefeitos
voltariam a ser objeto de escolha popular, através do voto direto.
Movimento
das Diretas-Já frustrado pela maioria do Congresso
Nacional .Uma Assembléia Nacional Constituinte passa a
ser desenhada, com importantes reflexos nos estados, que
também se preparavam para votar uma nova Constituição.
Era imprescindível a retomada do Estado de Direito.
Enquanto
isso, um
Colégio Eleitoral escolheria o primeiro Presidente da
República após o negro período da ditadura militar
instalada no país em 1964. Também o Rio Grande do
Norte se preparava para
eleger, pelo voto democrático, o seu Governador
do Estado.
Esse
período teve seu ápice em 1988, com a edição da
Constituição Cidadã que o deputado Ulisses Guimarães
ergueu no Congresso Nacional, diante do país. Ele que,
tempos depois, desapareceria nas revoltas ondas do mar,
sem deixar vestígios de sua meiga e brava figura. Só
sua inteligência ficou entre nós.
Um
tempo coletivo e, por isso mesmo, alegre. A tarde do sábado
representava o momento do encontro. Íamos pipocando aos
poucos e logo estava formada a mesa mais cobiçada do
bar. Birino se desdobrava para atender a todos com
aquele seu jeito doce e risonho. Inesquecível o queijo
assado preparado por ele. E também o fígado acebolado.
Gargalhávamos
e a bebida servia de ponte entre a realidade e os
sonhos. Grandes porres, embates fenomenais. Ressacas cruéis.
Sentada
em sua cadeira de balanço, dona Liege acompanhava o
movimento com aquela calma tão própria dela. Nada
escapava aos seus olhos ligeiros que os
óculos não conseguiam esconder o brilho. Os
filhos e filhas gravitavam em torno do astro
maior - Lourival.
No comando geral, aqui e acolá
ele despontava na primeira entrada do bar
esfregando a barriga e sentava-se em sua cadeira cativa
ao pé do poste, dizendo: “Táis conversando? Meu nome
é Celso e sou cabo do Exélto (sic)”.
Quantas
conversas e algazarras. Decisões e encaminhamentos.
Maledicência à solta, pouquíssimos escapavam dos
sussurros mordazes. Eram bocas de falar, línguas de
malhar e ouvidos de ouvir.
Lembro-me
de Mr.
(Edson) Peres vendo
sua “... lua cagando no penico azul do mar” e
a tocar seu trompete imaginário. Esparramando sua
enorme barriga, Walter (Waltinho) não escondia a dor
que lhe avermelhava os olhos em tristeza pela brutal
morte do filho Zé Carlos.
Este fato marcou a todos profundamente. A mim, em
especial.
Era
o ano de 1984 e
em Brasília haveria eleição indireta para Presidente
da República. Na véspera, eu e o Zé Carlos nos
despedimos, combinando um porre para comemorar a vitória
de Tancredo Neves. No dia seguinte, chegando ao
Instituto Varela Barca, onde acompanharia a votação,
foi recepcionada por
Orione Barreto. Ele me chamou no canto e deu-me a
dolorosa e impactante
notícia do bárbaro assassinato. Em plena calçada
do bar, num gesto tresloucado, um dos freqüentadores
disparou um tiro de escopeta, deixando o frágil corpo
de Zé Carlos
espremido contra a parede contígua ao muro da rádio FM
Reis Magos, de Chico Sinedino.
Naquele
dia, ao invés
de comemoração, vivemos o velório e sepultamento do
jovem Zé Carlos.
Penso
que depois desse episódio, nunca mais o Bar do
Lourival foi o mesmo, por mais que
o tentássemos.
Vêm ainda à minha cabeça figuras folclóricas
e pitorescas.
O homem da rabeca, com suas melodias e letras indecifráveis.
Tota Zerôncio com suas piadas picantes. Dr. Mesquita e
os murros que desferia nas paredes. O professor Melquíades
e suas três cervejas que Nicodemos tornava hilárias.
Clóvis Santos e sua mesa regada a
tira-gosto e solidão. Bira (de Macedo) e sua
veemente defesa brizolista. Foi no Lourival que seus
encontros com Lourdinha (Pereira) amadureceram.
Gil,
cuja elegância
foi um dia foi por terra, ao topar uma brincadeira
com um desses espertalhões que sempre aparecem
nos bares, querendo
se dar bem.
A
aposta era: o desafiante tomaria uma cerveja a
colheradas, enquanto
o desafiado devoraria cem gramas de queijo. Gil, o
escolhido. Foi cômico. O cara saiu bêbado e mangando
de todo mundo porque tomara uma cerveja de graça, e a
torcida de Gil preocupada com o engasgo que o acometeu.
Não chegou a deglutir nem a metade da fatia de queijo.
Coisas de
bar.
Muitos
são os nomes e as situações. Nomes que despertam amor
e ódio. Situações que redundaram em atitudes
condenáveis. Momentos que despertaram alegria e
prazer.
Tantos
anos passados. Tancredo ganhou mas não levou. Não
assumiu. Viramos fiscais do Sarney e assim por diante.
Vivemos hoje o terceiro milênio, o século XXI.
Particularmente, não pensei que chegasse a tanto.
Naquele
tempo, o peso das teclas das máquinas manuais pareciam
comprimir as idéias que surgiam aos borbotões em busca
do texto
ideal. Hoje, o avanço da tecnologia me coloca diante de
um sensível teclado, tão leve e silencioso que parece
intimidar as emoções, tamanha a velocidade dos
caracteres concretizando o que vem da alma.
Nesse campo, crescemos. No relacionamento,
continuamos voltados para o nosso próprio umbigo.
Se
ontem vivia eu o viço da idade, hoje tento administrar
as angústias de ser uma avó com
responsabilidades de pai e mãe. Sinto que não me
preparei para o enfrentamento. Mesmo assim, percebo-me
madura o suficiente para admitir minha impotência
perante as emoções. Pedindo serenidade para aceitar
aquilo que não posso modificar; coragem para modificar
aquilo que posso; e sabedoria para discernir entre uma
coisa e outra.
O
Bar do Lourival se constituiu num espaço
democrático de grande
importância para o crescimento de uma geração de
profissionais, nos mais diversos campos. Sobretudo para
mim. Referência que o tempo não irá apagar. Sinto
saudade da impertinência, da loucura coletiva das
bandas e passeatas, do nosso movimento sindical, para os
quais o Bar do Lourival servia de apoio moral-etílico.
Saudade
daqueles rostos risonhos, jovens e brilhantes. Do papo
descontraído. Dos porres homéricos. Do encontro e
reencontro nas redações. Saudade de um tempo que se
foi, mas que faz vibrar meu coração quando dispara em
mim o gatilho da lembrança que amacia o peito.
Das
lembranças ruins não tenho saudade, é lógico. Mas não
quero e nem posso deixá-las
fora no meu novo quadro de vida. Servem de parâmetro.
Mostram que dor e crescimento caminham juntos.
Ambos formam a bagagem que forçosamente aprendemos a
arrumar.
Década
de 90.
O
quadro mundial e nacional era outro.
Assistimos a queda do vergonhoso
muro de Berlim. O Brasil vestiu seus jovens de
verde e amarelo, e estes, os “caras-pintadas”, foram
às ruas pedir a cabeça do Presidente da República.
Dessa vez, o Congresso não falhou.
Com
o passar inexorável do tempo, fui desenhando um estilo
que acabou por me afastar dos bares. E o do Lourival
entrou nessa rota. Nada lamento.Tudo acontece a seu
tempo e o que mais importa é a construção de uma
moral que nos mantém respeitados.
Século
XXI. Bin Laden tirando o sossego do Bush. Chegou a
explodir os miolos de Nova Iorque. No Brasil, documentos
do tempo negro da ditadura aparecem em cinzas. As
autoridades desfalecem. O mundo, sem
dúvida, não nos oferece a mesma alegria
A
“turma do Lourival”
está desfeita
do ponto de vista físico. Mas, laços afetivos e
fraternos continuam nos mantendo atados. Cada um definiu
suas metas e as perseguiu. Uns lograram; outros
sucumbiram; outros continuam tentando. O importante é
ninguém capitulou. O patrulhamento arrefeceu e a
cooptação pôde se dar sem maiores traumas.
A
luta foi e é enorme. E, com raras exceções, as armas
têm sido a moral e a ética, o que faz de nós seres humanos mais conscientes
da nossa real dimensão. Se hoje nos sentimos úteis,
então podemos dizer que tem valido a
pena construir
nossa história.
E
viva Lourival! Viva nós!
*Thaís
Marques é jornalista
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