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ARTIGOS |
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Dr. Alberto Duringer - Médico |
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A recuperação em alcoolismo |
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Parar de beber é acontecimento marcante na vida de qualquer alcoólico em recuperação. Quando associado ao dia em que ingressou em um grupo de Alcoólicos Anônimos, é muitas vezes data citada com regularidade nos seus depoimentos. Aniversários deste dia são motivos para comemoração, com troca de fichas e festividades variadas, mas o fato em si pertence ao passado. Já a recuperação do alcoolismo, ou de qualquer outra doença crônica, não é apenas um episódio limitado no tempo, mas sim um processo, mais ou menos lento, em constante evolução no dia a dia, que exige reformulação interior, sem data marcada para terminar e que pode ser modificado ou interrompido a qualquer momento. Há quem compare um alcoólico em recuperação a uma pessoa que sobe uma escada rolante que está descendo: se ele parar de subir, inevitavelmente descerá junto com a escada. Assim sendo, é engano imaginar que uma recaída comece no primeiro gole: ela é, na realidade um processo de perda de recuperação que pode terminar nele, a menos que seja detido a tempo. Em qualquer doença crônica acontece a mesma coisa: diabéticos que interrompem a dieta, hipertensos que voltam a abusar de sal, reumáticos que deixam de fazer fisioterapia, são exemplos de doentes crônicos que interrompem o processo de recuperação e iniciam assim um processo de recaída, o que vai levá-los de volta à situação anterior. Entendemos alcoolismo como enfer-midade que se inicia primariamente como dependência química, conseqüência de muitos fatores que possam ter levado o indivíduo a beber intensa e/ou abusivamente. Atingida a área física, continua o gradual processo de adoecimento, agora alcançando também seu comportamento e atitudes, até que em um último estágio, o alcoólico perde seus valores ético-morais. Nesta última fase, a doença é então física, psíquica e espiritual. Em qualquer doença crônica, não existe uma cura propriamente dita, isto é, não é possível reverter um dependente químico de álcool etílico em consumidor moderado ou “social” desta substância, já que seu organismo sofreu modificações que impedem o seu uso controlado. No entanto, é possível ao doente um retorno a uma vida plenamente normal, desde que se disponha a agir dentro de um processo de recuperação, o qual deve seguir as três fases do rumo natural de adoecimento: 1a fase (recuperação física) -- abstenção completa de uso de álcool. 2a fase (recuperação emocional) -- modificação de comportamentos e atitudes, visando encontrar um equilíbrio psíquico que o liberte da tentação de achar que o álcool possa ser solução para seus problemas. 3ª fase (recuperação espiritual) -- recuperar ou criar novos valores éticos, morais e espirituais, com o objetivo de se reconciliar consigo mesmo e com o mundo que o cerca, passando a ter um modo de vida sóbrio. O sucesso que Alcoólicos Anônimos vem tendo desde 1935 na recuperação de alcoolismo deve-se a um programa de 12 Passos que segue esta seqüência natural de ações, com a consciência de que elas só podem ser executadas pelo próprio doente, já que são todas processos interiores. Isto não significa, porém, não precisar ele de ajuda externa. já que existem alguns obstáculos importantes a serem vencidos, a começar pela negação da doença e/ou manipulações variadas, alem da própria crise aguda de abstinência. Passada essa fase inicial, que dura em média 10 – 20 dias, surge outra menos conhecida, mas nem por isso mais fácil, a que se convencionou chamar de síndrome de abstinência pós-aguda, de duração mais longa, caracterizada por pensamento confuso, as vezes caótico, enfraquecimento de memória, dificuldade de concentração e instabilidade emocional, que pode perdurar ainda por muitos meses após o início da abstinência. Em salas de AA encontram-se sempre novatos nesta situação, sofrendo ainda conseqüências do efeito tóxico do álcool etílico sobre o cérebro e sistema nervoso. Estas pessoas, bastante confusas, costumam apresentar um padrão rígido e repetitivo, muito centrado em apenas certos aspectos de suas vidas, geralmente ligados ao seu passado recente, cheio de culpas, vergonhas, autopiedade, raivas e ressentimentos. Elas têm grande dificuldade para se concentrar na leitura ou para memorizar alguma coisa do que lêem; suas emoções parecem adormecidas, ou pelo contrário, estão à flor da pele; seus afetos costumam ser pequenos, estão ainda muito voltadas ao seu próprio egocentrismo. Alguns parecem estar com suas emoções anestesiadas, não prestam atenção a quase nada em sua volta; outros estão inquietos, ansiosos, irritados, reagem com raiva a qualquer contrariedade menor ou comentário ligeiro sobre elas. Felizmente, na maioria das vezes esta situação não costuma durar mais do que dois ou três meses, tempo necessário para uma recuperação física do sistema nervoso, mas neste período inicial estas pessoas precisam de muita ajuda externa para conseguir evoluir na sua recuperação. Entendendo isto, surgiram dentro de AA as reuniões para novos, nas quais é possível ajudá-los de forma mais eficiente e ao mesmo tempo explicar o que é a irmandade e como funciona. Também nesta fase, podem os profissionais de saúde ser muito úteis, ela acaba sendo de forma ideal, um amplo espaço aberto para que surja uma íntima colaboração entre AA e os profissionais da área. Passada esta fase crítica, surge outra barreira no caminho do alcoólico em busca de sobriedade: tendo aceito os três primeiros passos, ele agora deve entrar em ação, para fazer seu inventário moral. Isto significa mexer nos fantasmas arquivados em algum velho baú da sua mente, confrontar-se com a realidade do seu Eu verdadeiro, descobrir virtudes e defeitos não suspeitados, enfim iniciar uma mudança no seu comportamento, atitudes e valores. Tudo isto desencadeia sempre uma reação muito humana e natural: medo e insegurança. Não há quem não se sinta temeroso antes de fazer mudanças importantes: o organismo reage de forma típica, apresentando um conjunto de sinais e sintomas que os médicos chamam de stress, ao qual o alcoólico, em fase de abstinência pós-aguda, ainda é particularmente sensível. Por isso, nem sempre é útil um quarto passo precoce, é necessário que exista uma estrutura emocional minimamente já equilibrada, para que ele atenda seus objetivos. Por outro lado, este medo não deve impedir indefinidamente o início do inventário. A melhor forma de enfrentá-lo é reconhecer sua existência e que sua presença é natural e até saudável; em seguida avaliar se ele tem fundamentos reais ou se está ancorado apenas nas fantasias da mente; finalmente, enfrentá-lo e iniciar uma ação efetiva. Em alcoolismo existe sempre o perigo de ressurgimento da velha negação, sendo que desta vez trata-se da negação do medo. Pensamentos do tipo “está tudo ótimo”, “parei de beber e isto é o principal” ou “eu já me conheço e não preciso fazer nenhum inventário” são perigosos porque induzem o alcoólico a não fazer o 4º passo ou a ficar adiando-o indefinidamente, procedimentos aliás muito parecidos com os que ele tinha em relação ao álcool, no tempo em que bebia. Por vezes, ele regride na programação, percebe estar com vontade de beber, volta a se agarrar aos primeiros passos, aumenta a freqüência de reunião, volta a se recuperar, até chegar novamente à barreira do inventário moral com as suas duas opções: enfrentar o medo e entrar em ação ou ver tudo se repetir mais uma vez. Muitos alcoólicos ficam, até sem saber direito o que está acontecendo, bastante tempo nesta gangorra emocional. Vencido este grande obstáculo, a recuperação fica mais fácil e entra em fase de estabilidade. Agora existe um norte, um rumo a seguir, o alcoólico consegue ver a sua vida e o mundo que o cerca de modo mais equilibrado. Aos poucos, o álcool deixa de ser visto como possível solução para enfrentar problemas e passa a não ter mais muita importância – é um estado a que muitos chamam de sobriedade. Ancorado na programação de AA o alcoólico encontra valores éticos e morais que lhe permitem levar existência emocionalmente muito mais tranqüila, da qual a bebida está excluída. Só que isto não é um fato isolado de sua vida, como foi dito no início deste artigo, mas sim um processo, que se materializa de 24 em 24 horas, portanto, só por hoje. Não existe diploma de aprovação e um fim de curso em 12 Passos. O equilíbrio emocional depende de atividade e vigilância, pois como em qualquer outra doença crônica, recuperação é programa para toda vida. * Conselheiro no
Conselho Estadual de Entorpecentes - Ex-Diretor do Hospital Central da
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