|
O AL-ANON como um recurso a mais para o trabalho do
profissional
O Comitê de Área do Al-Anon no Rio Grande do
Norte – COMARN me surpreende ao fazer o convite para
ser orador em uma reunião dirigida aos profissionais. O
tema é “O AL-ANON como um recurso a mais para o
trabalho do profissional”. Senti-me na obrigação
de aceitar, enxergando, ao mesmo tempo, nessa concordância,
que estava assumindo uma imensa responsabilidade. Mas a
vivência que fomos acumulando através dos anos seria
um bom suporte para qualquer situação difícil que
pudesse encontrar no desempenho dessa tarefa.
Primeiramente, a aproximação entre Al-Anon e os
profissionais decorre de um fato muito importante:
existe um problema em comum. Não podemos dizer que da
mesma forma que o alcoolismo atinge os familiares dos
alcoólatras atingiria as empresas, porque em cada
ambiente ele assume uma conotação e aspectos bastante
diferenciados e particularizados. Mas podemos afirmar
que guardadas essas diferenças, o problema atinge a
ambos de forma acentuada.
Conta a literatura que Lois, a mulher de Bill W.,
fundador de Alcoólicos Anônimos, apesar de toda sua
postura elegante, delicada, fina, teve seu momento de
rompimento com aquela sua paciência e, em determinado
dia, revidou a um argumento do marido jogando-lhe um
sapato em suas costas. Refletindo sobre aquele momento,
ela percebeu que era necessário algo mais. Nasceu em
seguida Al-Anon. Da mesma forma que podemos recordar que
a história do A.A. mostra que as relações de trabalho
eram bastante atribuladas.
Problema Social
Se
dermos uma olhada na estrutura social e legislativa de
hoje, encontraremos elementos muito preocupantes.
Primeiro, a pesquisa mais completa que temos – e o
Brasil é falho em suas estatísticas, diz que tudo que
o Brasil arrecada com impostos sobre fabrico e venda de
bebidas, significa 2,8% do PIB (Produto Interno Bruto).
Mas para reparar os estragos que a bebida provoca, gasta
5.4%. Ou seja, A União financia a bebedeira. Pois cabe
a ela manter os hospitais, as casas de saúde, corpos de
bombeiros, SAMU, Justiça, Previdência, tudo para
atender aos efeitos do alcoolismo, que gera doentes,
acidentados, criminosos e desajustados.
Ainda tem mais. Quando foram definir uma lei para
regulamentar a propaganda de bebidas no Brasil, apareceu
o maior absurdo. Declararam em lei que cerveja não é
bebida alcoólica, embora seja responsável por grande
parte desses problemas aludidos anteriormente. Da mesma
forma que corre descontrolado o consumo de bebidas alcoólicas
por menores de 18 anos e a fiscalização daquela lei não
funciona. Basta ligarmos o rádio de tarde, para ouvir
propaganda de cachaça. A lei diz que propaganda de
cachaça só pode ser veiculada depois das 21:00 horas.
Além dessas observações gerais, podemos
enxergar momentos que realçam a importância do
Al-Anon. Alcoólicos Anônimos tem um enunciado de Bill,
que diz: “Onde qualquer um, seja onde for, estender a
mão pedindo ajuda, quero que a mão do A.A. esteja
sempre ali; e por isto eu sou responsável”. Este
anunciado chega ao Al-Anon e aos profissionais – médicos,
psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, advogados,
juízes, promotores, religiosos, profissionais de
recursos humanos, que vivem o problema na prática do
dia-a-dia.
Lembro do caso de um funcionário alcoólatra,
que teve seu tratamento patrocinado pela empresa onde
trabalhava e suspendeu a bebida, pelo menos por algum
tempo. Hoje ele está bebendo. Existem outros que
fizeram o mesmo tratamento que ele e estão sóbrios.
Qual a diferença? 1. A mulher daquele que voltou a
beber estava acostumada com o dinheiro, que tomava conta
devido a questão judicial apresentada com apoio da
empresa. Quando ele deixou de beber, claro que voltou a
tomar conta do seu salário. 2. Tão logo terminou o
tratamento, a mulher promoveu uma festa de 15 anos da
filha, com farta bebida alcoólica. Ali ele não bebeu.
3. Numa visita que a assistente social fez em sua residência,
já abstêmio, percebeu o ressentimento latente na
mulher, ao ver alguém perguntar pelo seu marido: “tá
lá dentro cuidando do outro” (O outro era um belo
cachorro que ele resolvera criar).
Recurso a mais
Quando
pensamos em Al-Anon como um recurso a mais para o nosso
trabalho, temos de ver que a sua presença qualifica o
cuidado, haja vista que ele tem participação mais
direta no problema. Sabemos que muitos tratamentos são
frustrados por falta de clareza na sua compreensão,
abordagem e encaminhamentos. Por outro lado, é notório
que a educação dos profissionais não contempla o
alcoolismo como deveria, desde as escolas médicas a
todas as demais formações. Todas as categorias têm,
em algum momento, que tratar do problema alcoolismo.
Nesse
momento Al-Anon cumpre papel importante, ao mostrar aos
profissionais os seus princípios e seu funcionamento.
Por outro lado, é preciso que os profissionais
assimilem com profundidade essa mensagem, para estarem
certos do que estarão sugerindo nas suas empresas.
Trata-se de casos de stress, frustrações e muitos
outros sentimentos, exatamente aonde Al-Anon chega para
mostrar a forma de deixar de querer resolver os
problemas pelos outros.
Ocorre-me
o caso de um dirigente de uma empresa que tinha
problemas com álcool. Fez uma despesa imensa e sua
assinatura no cheque estava irreconhecível. O banco não
pagou. Uma representante do bar foi até a sua empresa
cobrar a dívida. Ele não se encontrava – com certeza
estava bebendo naquela hora – e dois amigos que o
esperavam resolveram rachar a conta, cada um dando a
metade, para serem reembolsados depois. A intenção visível
era evitar problemas para o alcoólatra. A mulher dele
soube e criticou. Até ele mesmo disse que não seria a
melhor forma de resolver a dívida. O fato é que
estivemos diante de um grande exemplo de facilitadores.
Amigos que procuram preservar o alcoólatra, mantendo
uma imagem falsa para o público. Os facilitadores podem
ser, e são predominantes, os familiares.
Doença
Os livros que tratam do alcoolismo – e temos muitas
obras competentes – mostram que ele é considerado
doença pela Organização Mundial de Saúde desde 1967
e pode ser diagnosticado em mais de dez situações da
Classificação Internacional de Doenças. Mostram também
que o alcoolismo tem três aspectos estudados: é
progressivo, incurável e fatal. Progressivo, porque vai
se instalando paulatinamente e cada vez mais
acentuando-se a sua face. Incurável, porque ninguém
descobriu uma forma de um alcoólatra beber moderada ou
socialmente. Fatal, porque provoca a morte do alcoólatra
e de outros, das mais variadas formas.
Esse
componente progressivo tem um desdobramento em três
fases: adaptação, tolerância e dependência. Na
adaptação, a pessoa tem os primeiros contatos com o álcool,
para criar coragem, sentir os efeitos, fazer gracejos,
etc. Nesse ponto, os familiares, namoradas ou namorados,
maridos ou mulheres, também acham engraçado o que
fazem naqueles momentos de desequilíbrio. Num segundo
momento, os cientistas afirmam que instala-se a tolerância,
que se apresenta através da forma como o alcoólatra
bebe. Muitos conseguem beber exageradamente e parece não
ter problema. Os outros se embriagam e o alcoólatra
continua bebendo. O organismo suporta muita bebida. Por
fim, vem a dependência: aquele estágio onde o indivíduo
não consegue viver mais sem o álcool.
Nessa
jornada, o excesso de álcool afeta o desempenho no
cargo. Por mais competentes que sejam os alcoólatras,
findam caindo em falta. Dependente do álcool, o indivíduo
não deve ser considerado alguém com “fraqueza de caráter”,
em “decadência moral”, “desprovido de força de
vontade” ou “irresponsável”.
Até porque, como diz a literatura, “o
alcoolismo é um segredo muito mal guardado”, pois
durante a embriaguez ele se manifesta completamente. E
é nesse ambiente onde atua Al-Anon, junto às famílias
e às empresas, para explicar como se enfrenta a chamada
negação e como agir perante os facilitadores.
Com
toda força que têm as palavras, entre tudo que já vi
referente ao alcoolismo, o mais forte foi o título de
um vídeo sobre o assunto. Ele reflete a vontade
sincera, honesta e verdadeira do alcoólatra para se
cuidar e deixar de beber: “Amanhã eu paro”.
Nesse ponto aparece a figura da negação, pois a
coisa é evidente para todos, mas o alcoólatra nega
totalmente que bebe em demasia ou que qualquer de seus
problemas se relacionam à bebida. Junto com esta
figura, vem também a do facilitador – aquele familiar
ou amigo que resolve os problemas para que as coisas
erradas feitas pelo alcoólatra não cheguem ao
conhecimento de ninguém. A mulher que telefone para o
trabalho dele, mentindo, para dizer que ele está
doente. Doente, ele está; só que não do que ela diz e
sim do alcoolismo. Ou o colega de trabalho que acoberta
seus erros para evitar punições, sem perceber que mais
tarde o quadro será mais grave e ao invés de punição
simples poderá vir a demissão.
O caminho
Algo
muito importante para se ter clareza na família e na
empresa. O quê se busca não é fazer simplesmente com
que o alcoólatra pare de beber. O mistério está em
fazer algo para ele querer parar de beber. Enquanto ele
não quiser, nada poderá ser feito por ele. Poderá ser
feito pela família, que aprende em Al-Anon a conviver
com o alcoólatra na ativa e fora dela e as empresas,
que também podem apreciar o assunto com as mais
variadas abordagens técnicas, inclusive patrocinando
tratamento. Nesse momento problemas financeiros,
conjugais, sociais, emocionais, psicológicos,
espirituais e físicos, entre outros, apresentam-se de
forma confusa. Mas é possível entender tudo nesse
campo. Al-Anon ensina para o caso que devemos sempre
“segurar o que amamos com a mão aberta”. Esse é o
segredo. Não adiantam as atitudes possessivas. O
caminho é a conscientização.
Os
profissionais encontram aliados no Al-Anon, que lhes
passam informações sobre o alcoolismo, que é acionado
no momento em que a maneira de beber de alguém está
incomodando. Daí é possível o profissional estender a
mão aos familiares, tirando-os do desânimo e da solidão,
quando se informam e se conscientizam da programação.
Tudo isso se dá num processo em que a chave da libertação
é “pensar em si em vez de pensar no alcoólatra”.
Aprendendo a conviver com o problema, encontra-se a
forma de enfrentá-lo.
O
alcoólatra afeta quem convive com ele através da
manifestação dos efeitos da doença. Aqui o
profissional passa a conviver com uma visão mais
completa, em vista dos problemas causados pelo álcool:
acidentes, absenteísmo, indisciplina, relacionamento
errado com colegas e público. Al-Anon surge como um
recurso a mais quando encoraja e compreende o familiar
do alcoólatra, acolhendo-o e proporcionando-lhe forte
alívio. Mostra que o alcoolismo é uma doença que
atinge a família. E que em muitos casos o alcoolismo
pode ser identificado através dos familiares. Esta
Irmandade pode não substituir o aconselhamento
profissional, mas pode reforçá-lo.
Recursos
Quais os recursos que podemos dizer que os
profissionais dispõem para enfrentar os problemas
relacionados com o consumo imoderado de bebidas alcoólicas
por parte dos funcionários? A lei e as normas da
empresa, Jurisprudência, Programa de Controle Médico
de Saúde Ocupacional e
Alcoólicos Anônimos.
A
CLT, no seu Art. 482 diz que constituem justa causa para
rescisão do contrato de trabalho pelo empregador
incontinência de conduta ou mau procedimento, desídia
no desempenho das respectivas funções; embriaguez
habitual ou em serviço; violação de segredo da
empresa; ato de indisciplina ou de insubordinação;
abandono de emprego; ato lesivo da honra ou da boa fama
praticado no serviço contra qualquer pessoa, ou ofensas
físicas, nas mesmas condições, salvo em caso de legítima
defesa, própria ou de outrem; ato lesivo da honra ou da
boa fama ou ofensas físicas praticadas contra o
empregador e superiores hierárquicos, salvo em caso de
legítima defesa, própria ou de outrem. Em todas essas
situações o alcoolismo pode ser o motor principal do
problema.
Até
quinze anos atrás, a Jurisprudência tendia para
assegurar direitos aos
alcoólatras, pois os tribunais
decidiam pela reintegração dos empregados demitidos
por justa causa, nos casos em que a empresa não tivesse
dado oportunidade de tratamento. Atualmente, a tendência
é confirmar a demissão. Não adianta nem argumentar
que se trata de pessoas preparadas e nas quais a empresa
investiu, nem que seria necessário tratar o alcoolismo
como doença.
O
Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional –
PCMSO é outro
instrumento que pode ajudar a
empresa a identificar, abordar e tratar casos de
alcoolismo. Lamentavelmente, o problema não é visto
com a qualidade que seria exigida, tendo em vista que a
maioria dos médicos desconhece o alcoolismo como doença
e as formas de enfrentar esse problema.
Alcoólicos
Anônimos é outro recurso, tão forte que já vimos médicos
dizerem
que depois que se esgotam todas as
possibilidades de tratamento pela medicina, a solução
é Alcoólicos Anônimos. Aqueles médicos até
confessam que não sabem direito o que acontece naquela
Irmandade, mas sabem que é um recurso que dá certo.
Como sabemos que o A.A. cuida do alcoólatra e o
alcoolismo afeta a vida da família, o problema
agravar-se-ia se o Al-Anon não tivesse participação
nesse processo. Costuma-se dizer que o alcoolismo é uma
doença reflexiva, vez que afeta não só o que bebe,
mas também seus familiares, amigos, vizinhos, patrões,
colegas de trabalho e muitos outros. Por tudo isso é
recomendável que o profissional tenha à mão todas as
informações sobre o escritório e os grupos de
Al-Anon: endereços e horários de funcionamento. Através
dos grupos familiares, muitos problemas com o funcionário
alcoólatra podem ser enfrentados resolvidos ou
evitados.
---
(*) Jornalista e Advogado. Membro
da Equipe da Política Estadual de Humanização da
Secretaria Estadual de Saúde Pública. walterm.nat@terra.com.br
www.rnsites.com.br/atendimento.htm
|