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O
Alcoolismo vem sendo estudado, abordado, discutido e
tratado em muitos lugares e de variadas formas. Porém
ainda há muito a ser feito para enfrentar este problema
que afeta, direta ou indiretamente, milhões de pessoas.
Durante o século passado, esse problema apareceu com várias
faces, sendo visto inicialmente como algo incontrolável
e de solução difícil. Decorreria, a princípio, de um
problema de caráter. Depois, de algo que poderia ser
enfrentado através da mútua ajuda. Até que a ciência
e os órgãos oficiais (associações médicas) a partir
da década de 50 e
finalmente a Organização Mundial de Saúde, assumiram
a responsabilidade de declarar o alcoolismo como uma
doença. Acrescentavam tratar-se de uma doença
progressiva, incurável e fatal.
Aos
poucos os vários aspectos da doença alcoolismo foram
sendo catalogados e a classificação internacional de
doenças já apresenta vários códigos através dos
quais os médicos podem diagnostica-la. Trata-se de doença
progressiva, porque ela vai se instalando lentamente no
indivíduo durante fases. Incurável, pelo fato de não
ter sido descoberta nenhuma cura; ela é tratável, pois
existem formas de enfrenta-la. E é fatal, pois leva à
morte de várias formas. Enquanto doença progressiva, o
alcoolismo tem três fase: a da adaptação, a tolerância
e a dependência.
Os
estudiosos do assunto são praticamente unânimes sobre
isso. Dizem que a adaptação é aquela fase na qual o
indivíduo tem os primeiros contatos com a bebida alcoólica,
gosta do seu efeito, principalmente porque desinibe, e
passa a usar com freqüência. Em seguida vem a fase da
tolerância, na qual o organismo “tolera” muito álcool.
A pessoa bebe muito e quase não se embriaga. São os
casos daqueles chamados “esponjas”. Nesse período o
organismo realmente consegue absorver muita bebida sem
que os efeitos sejam tão rápidos. Por fim, a fase da
dependência é aquela na qual o bebedor não consegue
viver sem a bebida e passa a usa-la compulsivamente.
CONSEQUÊNCIAS
Até
aqui vimos que o alcoolismo é uma doença. Enquanto
doença, ela tem conseqüências para indivíduo, que vão
desde as doenças físicas às mentais. Levam o alcoólatra
a internações e tratamentos dos mais variados, desde a
desintoxicação até à conscientização de que têm
um problema para além da embriaguez. São formas de
enfrentar alguns aspectos da doença, a começar pela
chamada “Negação”, que é a forma mais comum a
todos os alcoólatras de tentarem esconder o problema.
Eles tentam sempre justificar a bebida imoderada,
enquanto podem e até quando não têm mais como
esconde-la.
Um
alcoólatra na ativa cria constrangimentos, problemas e
desentendimentos no ambiente de trabalho, pois o
alcoolismo é responsável por alto índice de absenteísmo,
já que a falta ao trabalho decorrente das bebedeiras é
muito comum. Da mesma forma que os acidentes de trabalho
têm forte ligação em alto percentual com o beber
imoderado dos empregados. Até o final do século
passado, havia uma tendência do Poder Judiciário a
proteger o alcoólatra, determinando que as empresas
dessem pelo menos uma chance de tratamento, para poder
demitir por justa causa. Mas agora percebe-se uma tendência
da Justiça do Trabalho a confirmar o direito das
empresas de demitir o empregado por causa de embriaguez
eventual ou em serviço.
Mas
a doença alcoolismo tem um alcance tão grande, que
leva o indivíduo a enfrentar também problemas graves
na sociedade, a partir de situações de violência,
acidentes e até ações criminosas. Também aí as
estatísticas são fortes e demonstram quão grande é a
freqüência de casamentos desfeitos, homicídios,
brigas, depredações e acidentes de todos os portes,
provocados por pessoas embriagadas. O resultado é que a
sociedade finda tendo de pagar a conta, pois cabe a ela
garantir o hospital para atender às vítimas, o judiciário
para dirimir as querelas, a polícia para agir em muitas
ocasiões e a previdência social para fazer também a
sua parte.
ESTRAGOS
Um
levantamento realizado pelo Grupo Interdisciplinar de
Estudos de Álcool e Drogas (Grea) do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo
constatou que cerca de 15% da população brasileira é
alcoólatra. O coordenador do grupo, Arthur Guerra de
Andrade, afirma que o Brasil gasta 7,3% do Produto
Interno Bruto (PIB) por ano para tratar de problemas
relacionados ao álcool, que variam desde o tratamento
de um dependente até a perda da produtividade por causa
da bebida. Já a indústria do álcool no País
movimenta 3,5% do PIB. "O País gasta, para tratar
problemas provocados pelo álcool, o dobro do que recebe
pela produção da bebida", segundo Andrade.
"Não há nenhum país onde essa avaliação foi
feita que ganhe mais do que perde com o álcool, mesmo
considerando os grandes exportadores mundiais de
bebida."
Por
outro lado, a mais recente estatística da Secretaria
Nacional Antidrogas (Senad) mostra que aumentou o número
de estudantes brasileiros que consomem álcool na
adolescência. Em todo o país foram entrevistados
48.155 jovens na faixa etária até os 18 anos, e 81%
deles respondeu já ter experimentado algum tipo de
bebida alcoólica. Existe ainda um documento da Associação
Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)
revelando que nos anos 70 a iniciação alcoólica se
dava entre jovens de 14 e 15 anos. Hoje, a faixa etária
para os primeiros goles teria caído para 12 e 13 anos.
A
OMS e o Banco Mundial alertam sobre a necessidade de
abordar os problemas relacionados ao consumo de álcool
através de uma perspectiva de saúde publica. Os dados
indicaram que o impacto do consumo de álcool não pode
ser medido apenas através das estatísticas de
mortalidade por dependência do álcool ou cirrose alcoólica.
O álcool é fator contribuinte para doenças e mortes
por mais de 60 condições listadas no CID (Código
Internacional de Doenças). Explicam que o consumo
excessivo de álcool está relacionado a mortes e
internações por lesões intencionais e não
intencionais: violência, quer seja doméstica, contra
terceiros, em acidentes de transito, e afogamentos, suicídios,
queimaduras e outros. Tais problemas vitimam jovens e
adultos jovens, principalmente.
Outras
estatísticas da ABEAD relatam que a associação álcool
e alcoolismo é responsável por 75% dos acidentes de trânsito
com mortes; 39% das ocorrências policiais, e
constitui-se na 3ª causa de absenteísmo, respondendo
por 40% das consultas psiquiátricas no Brasil.
Além
disso tudo, dados do Ministério da Saúde do Brasil,
apresentados pelo Datasus, demonstram que no período
(1993-1998) os Transtornos Mentais foram a 4ª causa de
internação hospitalar, sendo suplantada apenas pelas
internações por problemas respiratórios, circulatórios
e dos partos. Dentre as 426.602 internações do ano de
1998, a proporção de pessoas com Transtornos Mentais
devido ao álcool foi de 20,6%.
TRATAMENTO
O
tratamento do alcoolismo tem sido feito em clínicas,
hospitais psiquiátricos, centros de atenção
psico-social e unidades de tratamento de alcoolismo.
Para lá os alcoólatras são encaminhados e passam por
desintoxicação e tratamento terapêutico que abrem o
caminho para a abstinência. Mas não basta este período
para garantir que o cliente fique afastado do álcool.
Além disso, falta ao poder público uma política que
realmente assegure oportunidade de tratamento e
acompanhamento a todos os que necessitam, na medida em
que o problema vem se agravando devido à disseminação
cada vez maior do hábito de beber em nossa sociedade.
Apesar
de todos os avanços da ciência, a única forma
eficiente de enfrentar o alcoolismo praticada nos dias
atuais é a abstinência; mesmo que ela esteja revestida
das mais variadas formas: hospitalização, convivência
em comunidades, grupos de mútua ajuda, conversão
religiosa ou qualquer outra. A suspensão do uso do álcool
como forma de resolver o problema teve muitos momentos
históricos. Mas esta forma só veio a obter sucesso
mesmo quando Alcoólicos Anônimos, a partir de 1935,
começou a prática de compartilhar os problemas, através
das suas reuniões. Tanto que tenho ouvido vários médicos
confessarem que existe um momento em que a medicina não
tem mais o que fazer e não sabem muito bem por quê,
mas têm convicção de que a solução é encaminhar o
cliente para o A.A.
MÚTUA
AJUDA
Alcoólicos
Anônimos utiliza um método chamado de 12 Passos para a
recuperação, através do qual o alcoólatra aprende a
conviver com a sua doença, sem beber. Tudo começa com
o primeiro passo, sem o qual nada é possível na
recuperação do dependente. Diz o Primeiro Passo:
“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool;
que havíamos perdido o domínio de nossas vidas”.
Como se sabe, ninguém gosta de perder. Mas para
ingressar no A.A. tem de admitir que foi derrotado pelo
álcool. Dali em diante passa a ficar vigilante para não
beber, lembrando sempre do lema “Evite o primeiro
gole”. Em A.A. nada é obrigado; até evitar o
primeiro gole é uma recomendação e não uma imposição.
Quem não evitar vai voltar a beber e enfrentar
novamente os mesmos problemas que todo alcoólatra
enfrenta na ativa.
Os
doze passos são vivenciados através de reuniões e ali
os membros de A.A. afirmam que a freqüência às reuniões
é fundamental para a recuperação. Por outro lado, o
funcionamento dos grupos de A.A. é possível graças à
aplicação de outros doze princípios denominados
“Doze Tradições”, pelas quais os grupos conseguem
viver em harmonia. Utilizam também outros princípios
chamados “Doze Conceitos para os Serviços”, através
dos quais os membros da irmandade passam a ajudar em
todas as tarefas de manutenção, e condução dos
trabalhos, como forma de demonstrar a gratidão pelo
organismo que lhes abriu as portas e proporcionou a
sobriedade. Esses 36 princípios, divididos em três
grupos, são chamados de Três Legados, pelo fato de
terem sido deixados pelos membros fundadores da
Irmandade – Bill Wilson e Bob Schmidt.
A
literatura de Alcoólicos Anônimos é muito vasta e
aqueles Doze Passos foram tornados de domínio público,
o que possibilitou o seu uso por outras entidades de mútua
ajuda, como Narcóticos Anônimos, Comedores Compulsivos
Anônimos, Fumantes Anônimos e muitos outros. Além
desses documentos, o A.A. tem o chamado Livro Azul, que
foi sua primeira publicação e continua atual, disponível
no mundo inteiro e Viver Sóbrio, livro que mostra de
forma prática como se manter abstêmio.
Uma
coisa interessante no A.A. é que a entidade não recebe
nenhuma ajuda de fora. Somente os membros podem
contribuir para manutenção da irmandade, através de
coletas que são feitas a cada reunião e que se
destinam ao pagamento de despesas com aluguel,
cafezinho, água, luz, telefone e demais gastos. A.A. não
é ligado a nenhuma seita ou religião, não tem ligações
políticas, não participa de nenhuma controvérsia.
Cumpre apenas o que chamam de propósito primordial:
ajudar outros alcoólatras a atingir a sobriedade. Toda
essa literatura e esse trabalho de recuperação tem
algo determinante e sine qua non: o desejo
sincero do alcoólatra de parar de beber. Enquanto ele não
tomar essa decisão, nada pode ser feito. Tomada a decisão,
entretanto, a recuperação é possível.
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Walter Medeiros é jornalista e autor do
livro “Abelardo, o alcoólatra”, disponível para
download no site http://www.rnsites.com.br/abelardo.pdf
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