22. A
história do Marquês de Clement, em Paris
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Muita
coisa nesta vida
A
mim já surpreendeu;
Mas
um dia algo se deu,
Numa
manhã colorida,
Que
remexeu bem ligeiro
Um
auditório inteiro
De
gente desinibida.
Falavam
sobre hospital,
Tratamento
humanizado,
Todo
mundo concentrado,
Pelo
bem e contra o mal;
Pra
melhorar a saúde,
Discutiam
amiúde
O
que saiu no jornal.
Buscavam,
na realidade,
Um
jeito de atender
Qualquer
um que aparecer,
Com
solidariedade;
Todos
hão de merecer,
Na
hora que aparecer,
Do
campo ou da cidade.
De
repente aquela sala
Se
viu voltando no tempo:
Fundiram
o pensamento,
Quase
ficaram sem fala,
Voltaram
duzentos anos
Talvez
mais, se não me engano,
Pareciam
uma bala.
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Quando
menos esperavam
Todos
se viram em Paris
Arrebitaram
o nariz
Grupo
importante formavam;
Um
membro da burguesia
Um
cortejo conduzia
E
a cidade acompanhava.
Com
uma nobre vestimenta,
Era
o marquês de Clement,
Em
busca de gente sã,
E
da doença, que atormenta;
Eles
seguiam pelas ruas
Olhando
feito umas gruas
Aos
trezentos e sessenta.
Peruca
longa, branquinha,
Sobretudo
bem bordado,
Petrechos
por todo lado,
Estava
todo na linha,
Com
ar de preocupado,
Chamava
os subordinados
Pra
ver o que o povo tinha.
A
chegada do marquês
Tinha
um que anunciava
Uma
matraca ele tocava
Simbolizando
a vez
Que
cada casa esperava
De
ver o que se passava
Se
algum mal-feito não fez.
Outro
membro da equipe
Era
uma jovem senhora
Que
anotava a toda hora
Até
sintomas de gripe
Uma
tábua como escora
Para
o papel que outrora
Servia
a gente vip.
Como
o marquês não sabia
O
que vinha pela frente,
Trazia
sempre um tenente
E
um soldado, que servia
Para
ver se de repente
Vinha
algum inconseqüente
Atrapalhar
a romaria.
Outra
carroça, no fundo,
Representava
o hotel,
Que
era o caminho do Céu,
Pra
qualquer moribundo;
Se
achava alguém ao léu
Ou
um doente sem farnel,
Era
o melhor lugar do mundo.
Nada
era brincadeira
Naquela
cena diária,
Outra
carroça centenária
Cheirava
a carpideira,
Pertencia
ao cemitério
Um
aspecto muito sério
Levado
pela coveira.
Havia
mais, quem diria?
Uma
carroça seguindo
O
marques que ia subindo;
Um
carro da inspetoria,
Ia
logo inquirindo
E
o ambiente sentindo
Por
toda a serventia.
O
cortejo do marquês
Resolvia
os problemas
Sem
qualquer estratagema
Tanto
trejeito ele fez
Que
o povo sem diadema
Esperava
o seu sistema
Que
passava todo mês.
Naquela
operação
Nenhuma
casa escapava
Tudo
ela vasculhava
Descobria
até ladrão
Fugitivo,
gente brava,
Doente
que se alegrava
Com
um sinal de atenção.
Era
hora de partir
Para
nova caminhada
Com
a equipe formada
Confesso
a você que vi
Ele
com a voz embargada
Dar
a ordem perfilada:
“A
la maison, voici”.
Assim
seguem pelas ruas,
Às
margens do rio Sena,
Rua
grande e pequena,
O
trabalho continua;
Gente
clara e morena,
Era
uma grande cena,
Pois
ali tudo flutua.
Lá
pelos Champs Elisèes,
O
cortejo não passava
Pois
ali não precisava,
Era
tudo diferente,
Mas
lá pelo boulevard,
Ele
tinha que passar,
Pois
morava muita gente.
Percorria
os invalides,
A
Isle de la Cité,
Você
precisava ver,
Que
povo comprometido,
Ninguém
ficava à mercê
De
um dia adoecer,
Para
não ser atendido.
Quando
ia tomando gosto
Pelas
cenas que se via
Algo
novo acontecia,
Já
era quase sol posto;
Voltei
a dois mil e dois
Nem
antes e nem depois,
Corri
pra olhar meu rosto.
FIM
(2002) |
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