Cordel
urbano e elitista
Quando
o cordel é estudado, ele é visto sempre como algo do alto da
caatinga, para lembrar o saudoso Henfil. O que seriam os poetas
urbanos e elitistas? Veja bem. Um bacharel em direito, jornalista
profissional, mora numa capital – Natal. Sabem onde ficou o seu
passado? Sua infância foi vivida no município de Mata Grande,
alto sertão de Alagoas, entre quatro serras. Ali conviveu com
carros de boi, assistiu a casamentos na roça, presenciou velórios
com inselença, lamparina, candeeiro, fumo de rolo, forró, tudo
que tem a ver com maturo ele viveu. Aliado a isso, sempre gostou
de fazer rima e até repentes. Mas cresceu e a profissão do seu
pai, funcionário do Ministério da Saúde, levou-o de caminhão
até Arco-Verde – Pernambuco e de trem para Natal. Nunca perdeu
contato com o interior. No seu site tem uma página dedicada a
Mata Grande. Será que ele só teria direito de ser cordelista até
enquanto morava em Mata Grande, já que foi para um centro urbano?
Será que deixou de ser poeta obrigatoriamente por ter escolhido a
profissão de jornalista e ter estudado Direito?
Poeta
popular é aquele que faz poesia popular, independente do seu grau
de instrução. O que não é recomendável é pessoas de nível
cultural elevado tentarem transmitir mensagens brejeiras forçando
a sua própria natureza. Aí soa meio hipócrita.
Perspectiva
para o cordel
O
cordel estará presente no futuro. Não acreditamos que será mais
ou menos lido. Porém uma variação da sua influência estará
relacionada diretamente com a utilização de novas mídias,
principalmente a internet, shows e eventos.
É
possível divulgar informações jornalísticas de forma mais
criativa através de cordéis, sem que estes percam suas características
fundamentais para continuar sendo literatura popular. E também
para que não vire jornalismo grotesco e sensacionalista. Trata-se
de um forma particular de apresentar a mensagem, que pode ser
utilizada. Porém o seu valor estará sempre ligado à inspiração,
por mais que seja baseado em informações postas à disposição
do autor. Todos os poemas que escrevemos nasceram em momentos
determinados pela inspiração, por mais que estivéssemos
informados. Acho que na construção do cordel não se pode forçar
a barra, pois finda perceptível. Ademais, não é qualquer notícia
que deve virar cordel.
Como vender
o cordel
Indagado
sobre qual a sua opinião sobre outras formas de vender e divulgar
o cordel (pela internet ou através de livros, por exemplo) e se a
cultura popular neste ponto é ferida, dizemos que as formas são
o folheto individualizado, mesmo que através da internet. Não
vemos como ferir a cultura popular, pois o terminal do computador
já chegou àquela cerca lá do sertão. Chico Buarque cantava
numa de suas músicas, que já tinha fliperama em Macau. Agora
Macau tem também computador.
Achamos
que se consegue atratividade e interatividade na internet, mesmo
considerando que ela sempre terá lixo. A questão é de método
para selecionarmos e ganharmos tempo acessando e interagindo
apenas com o que tiver importância e valor.
O
jornalismo popular pode contribuir para uma melhor interação
entre a cultura popular e nossa sociedade. A idéia de Aldeia
Global parece ter se concretizado com a internet, a globalização
e outros instrumentos. Mas ao mesmo tempo essa evolução e esse
boom parece ter aberto novo campo de trabalho para os antropólogos.
Da mesma forma que podemos estar diante do computador sentindo-nos
cidadãos do mundo, no momento seguinte podemos nos sentir cidadãos
da nossa aldeia comunitária, ao freqüentarmos a quermesse da
nossa paróquia. São duas realidades que vivemos simultaneamente.
Aí entra o jornalismo popular. Ele tem sua área delimitada e
cumpre papel importantíssimo. Sem necessidade de atrito com a
grande imprensa, pois cada um tem sua missão.
Cultura
popular pode ser definida como o conjunto de manifestações artísticas,
literárias e artesanais das comunidades. Quanto a julgar o que é
ou não popular dentro da literatura de cordel, é possível,
sim. Aqui voltamos à primeira apreciação: a
simplicidade, o relato e a rima caracterizam o cordel. Qualquer
tentativa de forjar poemas denuncia-se por si mesmo, por melhor
que seja a intenção de quem o faz.