Sem ter notícia de
nada
Aquele jovem, Tadeu,
Por trinta anos
viveu
Com sua mente
isolada
De lá dos anos
setenta
Aonde a vida era tão
lenta
Até 2000 foi
parada.
De repente ele
tornou
Para surpresa
geral
Foi algo muito
legal
E todo mundo
vibrou
Mas não entendia
nada
Com a mente
perturbada
Quando um jornal
olhou.
A manchete era
chacina
Que ele achou
chocante
E uma notícia
adiante
Da morte de uma
menina
Deixava bem mais
chocado
Pois não era
acostumado
Com tanta
carnificina.
Tadeu tava curioso
Pela tecnologia
Pois inda não
conhecia
Algo prá si
estrondoso
Pois a tevê
colorida
Era nova em sua
vida
Olhava bem
cauteloso.
Mas na tv foi pior
A surpresa que
pegou
Pois quando alguém
ligou
Ficou que fazia dó
Ao ver o noticiário
Lembrava-se do
calvário
Pois sofria até
Popó.
E viu buraco de
bala,
Arsenal de arma
pesada
Gente morta na calçada
Quase ele fica sem
fala
Cena de troca de
tiro
Tudo num pequeno
giro
Que vida
desmantelada!
Procurava ser
discreto
Mesmo estando
chocado
Dizendo-se
admirado
Imaginava seu neto
Ao ver nova
reportagem
Que mostrava a
passagem
Do lixo que tinha
um feto.
Atônito com tudo
aquilo
Ele aguçava os
sentidos
E mais tarde teve
ouvidos
Prá um jogo de
futebol
Foi a surpresa
maior
Sorte é que não
tava só
Quando viu aquele
rol.
Era um rol de
palavras
Que o narrador
dizia
Como se o bem que
havia
Tivesse ido às
favas
Tudo era violento
Mesmo não tendo
intento
De deixar pessoas
bravas.
Tiro, canhão,
artilheiro
Atacar e agredir
Ofender, matar,
fugir,
Ele ouviu o jogo
inteiro
Parecia uma guerra
Mas bom cabrito não
berra
Ele inda tava
cabreiro.
Aos poucos em sua
mente
Lembrava do far
west
Revistas, filmes -
que teste!
Bang bang entre
valentes
Mas como era ficção
Não cortava o
coração
Era muito
diferente.
Agora, bem ao seu
lado
Violência e ameaça
Não podia ir à
praça
Para não ser
assaltado
Ou encontrar
traficantes
Que em questão de
instantes
Deixam tudo
arrasado.
Que tristeza se
abatia
Dentro do seu coração
Será que viveu em
vão
Um tempo sem
serventia?
Pedia a Deus prá
ter fé
Pois sabia como é
Muito duro o
dia-a-dia.
Dentro do seu coração
Palpitava um
alvoroço
Era o fundo do poço
Uma banalização
Da vida do ser
humano
Queria que fosse
engano
Ou só uma ficção.
Mas tudo ia mais
longe
Pois quando alguém
não matava
O doente não
escapava
Não tinha mais
atenção
E gente morrendo a
míngua
Inda dizem que é
a língua
De alguém da
televisão.
Pois foi lá mesmo
então
Que uma notícia
triste
De um fato que
persiste
Causou grande comoção
Uma pessoa morrer
Pelo fato de não
ter
Uma simples injeção.
É preciso ter
cuidado
Com o nosso idioma
Pois sinto forte
sintoma
Que é muito
arriscado
Usar palavras
pesadas
Violentas,
carregadas,
Para tudo que é
lado.
Disso tudo o pior
É que a ruindade
domina
No trabalho, na
esquina,
Filho, pai e até
avó,
Um triste
palavreado
Imoral, mal
educado,
É uma feiúra só.
Não fica só por
aí
Pois hoje em
qualquer escola
Nem o diretor
controla
Até eu mesmo já
vi
Meninos, jovens,
meninas,
Gritando coisas
ferinas,
Que não dá para
sorrir.
É uma mistura
feia
De traficante de
droga
Com um som que não
empolga
A quem preza a
vida alheia
Destruindo uma nação
Que anda na
contra-mão
Onde já falta
cadeia.
Nosso amigo
estatelado
Começou a reagir
Dizendo que ia
sair
Falando prá todo
lado
Contra essa situação
Mesmo parecendo em
vão
E até ficando
marcado.
Como tudo é difícil
Na nossa sociedade
Mesmo falando a
verdade
Acharam que era
indício
De alguma outra
doença
Pois é assim que
se pensa
Neste país de
suplício.
Arranjaram logo um
jeito
De diagnosticar
Que ele ia
precisar
De voltar para um
leito
Consideraram
anormal
Sua saúde mental
E tiraram seus
direitos.
Aquele homem já são
Que via a
realidade
Só por falar a
verdade
Provocava aversão
Foi prá novo
sacrifício
Internaram-lhe no
hospício
No mais grave
pavilhão.
Sumiu pelo
corredor
Numa camisa de força
E não tem ninguém
que torça
Por aquele
sofredor
Foi mais uma
conseqüência
Do mundo de violência
Que no Brasil se
instalou.
FIM