Foi
por isso que Lobato,
Denotando
mais sufoco,
Teve
que alfinetar
O
Jeca e seu mundo louco,
Abrir
seu livro da vida
E
conhecer mais um pouco.
E
começou a investigar
Sua
rude indiferença
Sua
maneira de agir
De
ditar sua sentença
Relatando
com minúcias
Onde
marcara presença.
E
disse: quando D. Pedro
Anuncia
o fim do estorvo
No
grito de independência
Para
o Brasil e seu povo
Jeca
Tatu só espia
E
se acocora de novo;
Quando
a princesa Izabel
A
abolição assinala
Sonorizando
os tambores
Pelo
quilombo e senzala,
Jeca
Tatu só “magina”,
Coça
a cabeça e não fala;
Quando
Floriano Peixoto
Fez
estourar sua granada,
Levando
o pavor aos lares
Com
uma gente assassinada,
De
cócoras Jeca Tatu
Não
liga nada-com-nada.
Com
sua língua travada
Senta
sobre os calcanhares,
Se
se levanta não deixa
Fugir
a voz pelos ares,
Não
se interessa por fatos
Do
Brasil, nem de além-mares.
Acocora-se
para tudo
Que
deseja ou não fazer,
Se
vai triturar o fumo,
Cortar
a palha, acender,
Amolar
enxada, a foice,
Tomar
café ou comer.
Se
acaso encontra algum
Amigo
íntimo, é quando,
Mesmo
apressado, ele pára
E,
enquanto está conversando,
Pra
conservar o seu hábito
Vai
logo se acocorando.
Sua
índole de acrobata
Traduz-se
em atos fiéis,
Com
todo peso se agacha
Impecável
e sem revés
Se
equilibrando por horas
Sobre
os dois dedãos dos pés
Jeca
Tatu só produz
Aquilo
que necessita
E
todo o seu excedente
É
para a troca restrita
Qual
roupa de arranca-toco
E
algum vestido de chita.
Ele
traz para a cidade,
Com
o fito de permutar,
Guaribolas,
coco verde,
Banana,
manga, cajá,
Farinha
de mandioca,
Batata,
maracujá.
Traz
ainda um caititu,
Galinha
de capoeira,
Ovos
bem novos, gostosos,
Que
são vendidos na feira,
E
mais...para quem quiser,
Tem
uma égua parideira
E
quando instado a falar
De
forma lúcida, serena,
No
incentivo ao aumento
Da
produção tão pequena,
Jeca
Tatu se limita
A
dizer: “não paga a pena”.
Da
terra só a mandioca
Com
o milho pra fazer pão
E
a cana que dá garapa
E
rapadura ao montão...
Dum
rolete tem-se o açúcar
Para
o ponche de limão.
No
lar do Jeca Tatu
A
mobília é uma asneira,
A
munheca é a colher
Por
ser prática e ligeira,
Um
só banco de três pernas
E
uma cama de esteira.
Segundo
o Jeca, a munheca
É
faca, é garfo, é colher,
Bem
pode ser ela usada
Ao
tempo que se quiser,
Torna
a comida gostosa,
Não
dá trabalho à mulher.
No
mais se pode ali ver
De
súbito, com precisão,
Cuia,
cabaça, gamela,
Marmita
lenha, fogão,
Pote
de barro, um caneco
E
a panela de feijão.
Eis
num gancho à cumeeira
O
toucinho pendurado,
O
polvarinho de chifre
Está
na parede ao lado
E
a espingarda pica-pau
Presa
a um osso de gado.
A
casa é toda de taipa,
Feita
de vara e estaca
A
pique e barro pastoso
Nessa
armação se ensaca
Tornando
a parede sólida,
Nem
tão forte, nem tão fraca.
Todo
o seu teto é de palha
E
o piso é barro batido,
O
fogão fora de casa
Com
três pedras construído,
Só
pedra grande, e se chove
Para
dentro é removido.
Na
casa desse caboclo
Se
algum defeito aparece
Não
se conserta, mantém-se
E
o problema engrandece,
É
quando Jeca Tatu
Seu
todo restabelece.
Se
aparece uma goteira
Na
palhoça avariada
O
maior trabalho e ação
Na
iniciativa tomada
É
por ali, pra aparar,
Uma
gamela e mais nada.
A
lei do menor esforço
É
por demais respeitada,
Se
cai a massa da casa
Jamais
é recolocada,
Sequer
a mata que nasce
Pelo
terreiro é roçada.
Até
as árvores frutíferas
Tão
vitais ao ser humano
Só
há aquelas que nascem
Do
poder do soberano,
Não
há jardim, não há horta
Pra
um melhor cotidiano.
Porém,
por Jeca Tatu
.E
em mais alguma ribeira
Tem
o caboclo a mezinha,
Na
sua ação curadeira,
Um
farto material
De
medicina caseira.
Tem
ervas, casca de pau,
Sementes
as mais variadas,
Muitas
espécies de grãos,
Folhas
de mato afamadas
E
as tradições caboclas
Que
são por lá cultuadas.
Água
de beiço-de-pote
Pra
brotoeja é um estouro,
Pra
curar a dor de peito
Chá
de jasmim-de-cachorro,
Parto
difícil... se engole
Um
pouco de feijão mouro.
Facada
ou carga de chumbo
Basta
encontrar e comer
Uma
flor de samambaia
Que
irá sobreviver,
Saindo
da fila da rede
Que
é usada após morrer.
Para
quebranto de ossos
Muita
erva é misturada,
Já
a cura pra bronquite
É
feita por cusparada
Na
boca de um peixe vivo
Que
volta à água parada.
Se
nada disso resolve
Dentro
do tempo esperado
Se
busca o São Benedito,
O
seu poder defumado,
As
águas bentas e o rabo
De
tatu tão consagrado.
Fica
o enfermo angustiado
Naquele
estado de perda...
Mas
se usar bem do artifício
A
cura o santo não veda,
Se
seguir as instruções,
Com
certeza, é tiro e queda.
Jeca
Tatu vai às feiras,
Bem
como, à missa constante,
Lá
se ajoelha, confessa,
É
católico praticante...
Porém,
votar no governo
Pra
ele é o mais importante.
Com
a roupa do casamento
E
os sapatos já sem cor
Sai
mancando pra pegar,
Com
o mais ingênuo fervor
Junto
a seu chefe político,
Seu
diploma de eleitor.
Votando,
não sabe em quem,
Encerra
a destinação,
Devolve
o diploma ao chefe,
Recebe
um aperto de mão
E
a lembrança da promessa
Pra
bem depois da eleição.
Porém,
todo sentimento
De
pátria é desconhecido,
Nação,
povo solidário,
Pra
Jeca não faz sentido...
E
se atacado o país
Não
toma nenhum partido.
Guerra?...
“te esconjuro!...”
Teme
o recrutamento,
E
pra dele se livrar
Seria,
no insano senso,
Capaz
de cortar um dedo
Como
fez seu tio Lourenço.
É
esse o Jeca Tatu
Que
se imbuiu no urupê,
Na
festa dos tangarás,
Dançando
o cateretê
Onde
há abelhas de sol
E
coisas que só ele vê.
É
esse o Jeca Tatu
Cheio
de idas e voltas
Que
vai, ao canto estridente
Das
cigarras e gaivotas
Modorrando
silencioso
Pelo
recesso das grotas.
É
esse o Jeca Tatu
Que
de face enternecida
Não
canta, não ri, não ama,
Não
fala de voz erguida,
Nem
consegue viver bem
No
meio de tanta vida.
Mas,
pra Monteiro Lobato,
Jeca
Tatu foi, então,
O
resultado grotesco
Do
modelo de gestão
Que
se implantou no país
Mas,
jamais, por opção.
Conhecendo
todo efeito
Pelas
ações passageiras
A
demência, a ignorância
E
as doenças corriqueiras,
Chegou
ele à conclusão
Das
suas causas verdadeiras
E
o Instituto Oswaldo Cruz
Mostrou
com maior clareza
Milhões
com chaga, malária,
Ankilostomose,
fraqueza,
Que
só levaram ao povo
Miséria,
atraso, pobreza.
Então
o grande escritor
Compenetrado,
por fim,
Ao
analisar os dois lados
Do
Jeca, o bom e o ruim,
Concluiu
que o caboclo
“Não
é assim, está assim.”
Sem
ter receios de errar
Sob
este teto de anil,
Digo
com convicção
Que,
retratado o perfil,
O
infeliz Jeca Tatu
Tem
a cara do Brasil.
Brasil
que grassa apático
Pelo
seu braço cruzado,
Brasil
caboclo onde sofre
Um
povo hospitalizado,
Brasil
análfa que vota
Subserviente
e errado.
Esse
imenso contingente
De
jecas, sempre atuais,
Encurralados,
sofrendo,
As
mazelas sociais
Estão
nas filas de emprego
Ou
nos leitos de hospitais.