Poemas de CORDEL

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Poemas de Cordel de autoria de Walter Medeiros - Natal - Rio Grande do Norte

3. A despedida de Teodorico, o filho mais velho de Zaqueu

 

Aquela luz que ilumina

Aqui no meu pensamento

Sempre tem o seu momento

Que começa e termina

Pois agora eu me sento

Prá escrever rápido ou lento

Um caso que me fascina.  

 

É um fato verdadeiro

Que aqui eu vou narrar

Pois quero compartilhar

Esse caso por inteiro

Onde o sertão virou mar

Existia um lugar

Que criava cangaceiro.

 

Pois foi num tempo antigo

Que a história sucedeu

O filho de seu Zaqueu

Tinha o irmão por amigo

Mas foi um engano seu

Um momento ele viveu

Correndo sério perigo  

 

Chamava-se Teodorico

Aquele jovem rapaz

Que não suportava mais

Dizia que nenhum tico

O regime dos seus pais

Com castigos colossais

Era de pedir penico.  

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O homem era rigoroso

Castigava prá valer

Coisa de estremecer

Aquele pai horroroso

Fazia os filhos gemer

Sem saber o que dizer

Para um homem tão raivoso.

 

Os meninos apanhavam

Eram surras de chicote

Tinham que ser muito forte

Prá tudo aquilo agüentar

Sonhavam com outra sorte

Talvez até ir pro Norte

Para a vida melhorar.

 

Teodorico sonhava

Com a sua liberdade

Queria ter mais idade

Prá mandar tudo às favas

Mas enquanto era menor

Não podia seguir só

Pois o pai jamais deixava

 

Enquanto o tempo passava

Ele ia matutando

Um plano arquitetando

Pois a coisa tava brava

Sofrendo ia esperando

Em onde, como e quando

Saía e se libertava.

 

Mas um dia foi demais

Ele nunca esqueceu

Pois a coisa assim se deu

Com o tristonho rapaz

Obedecendo a Zaqueu

Quase que ele morreu

Porque demorou demais

 

Ele saiu do roçado

E foi até o barreiro

Teria que ir ligeiro

E dar água para o gado

Porém desobedeceram

E na água se meteram

Demorando um bocado

 

Quando chegaram de volta

Zaqueu estava bufando

E logo ele foi pegando

Um pau que nem se entorta

Perguntou o que sabia

E ouviu o que queria

O resto não lhe importa

 

Os meninos só culparam

O irmão Teodorico

O pai não fez nenhum bico

Logo todos escutaram

Cada paulada um grito

Daquele jovem aflito

Que os irmãos acusaram

 

Depois de quinze minutos

Prostrado lá no terreiro

Só se via o sangueiro

Parecia um bicho bruto

Cortes pelo corpo inteiro

Levado para o celeiro

Era um verdadeiro luto

 

O tratamento que havia

Era o mais natural

Lavar com água de sal

Era tudo que podia

Não existe nada igual

Àquele gesto animal

Uma grande covardia

 

Mas era assim que era

O costume do sertão

Gestos de humilhação

Aconteciam de vera 

Sem qualquer contemplação

Era a lei do bordão

Parecia uma galera

 

No outro dia, quebrado

Sem poder nem se mexer

O pai inda foi querer

Que fosse para o roçado

Mas a mãe foi convencer

Que não havia porquê

Ser ainda mais malvado

 

Mas lá no seu pensamento

Teodorico almejava

Para o dia que chegava

Um outro discernimento

A coisa era muito brava

Mas uma fuga preparava

Nem que fosse num jumento

 

Passaram-se alguns dias

Tudo voltava ao normal

Mas numa questão moral

O rapaz se prevenia

Arrumou mala e bornal

Fugiria prá Natal

Ninguém mais o deteria

 

Só que quando ia fugir

Preferiu peitar a fera

Parecia uma quimera

Mas resolveu lhe pedir

Que de forma bem sincera

Resolvesse como era

Que deveria partir

 

Aí teve uma surpresa

Na dureza de Zaqueu

Pois ele estremeceu

Olhando para Tereza

Escutou e entendeu

A fala do filho seu

Com uma cara de tristeza

 

Nunca ninguém no sertão

Tinha visto coisa assim

O homem cor de carmim

Parecia um pimentão

Olhou pro filho e enfim

Disse pois se é assim

E não vou impedir não.

 

Faça lá da sua vida

O que você bem quiser

De jumento ou a pé

Procure sua guarida

Você sabe como é

Mas quando a gente quer

Procura a melhor lida

 

Naquele exato momento

Ele se surpreendeu

Pois nos olhos de Zaqueu

Num toque singelo e lento

Uma lágrima rompeu

E um abraço se deu

Ante tão vasto relento.

 

O filho foi lhe dizendo

- Tava de mala arrumada

e hoje a minha parada

eu posso até não tá vendo

mas nesse mundo mais nada

nem a ponta de uma espada

brecava o que to querendo.

 

Dali ele foi embora

E a mãe ficou chorando

Os irmãos se lamentando

Mas tinha chegado a hora

Pela estrada andando

Sua história foi contando

Todo dia, mundo afora.

 

O que dali se passou

Eu só vou contar depois

Só sei que cuidar de bois

Ele nunca mais cuidou

Despeço-me aqui, pois

Dizendo que aqueles dois

A vida não mais juntou.  

 

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