O
homem era rigoroso
Castigava
prá valer
Coisa
de estremecer
Aquele
pai horroroso
Fazia
os filhos gemer
Sem
saber o que dizer
Para
um homem tão raivoso.
Os
meninos apanhavam
Eram
surras de chicote
Tinham
que ser muito forte
Prá
tudo aquilo agüentar
Sonhavam
com outra sorte
Talvez
até ir pro Norte
Para
a vida melhorar.
Teodorico
sonhava
Com
a sua liberdade
Queria
ter mais idade
Prá
mandar tudo às favas
Mas
enquanto era menor
Não
podia seguir só
Pois
o pai jamais deixava
Enquanto
o tempo passava
Ele
ia matutando
Um
plano arquitetando
Pois
a coisa tava brava
Sofrendo
ia esperando
Em
onde, como e quando
Saía
e se libertava.
Mas
um dia foi demais
Ele
nunca esqueceu
Pois
a coisa assim se deu
Com
o tristonho rapaz
Obedecendo
a Zaqueu
Quase
que ele morreu
Porque
demorou demais
Ele
saiu do roçado
E
foi até o barreiro
Teria
que ir ligeiro
E
dar água para o gado
Porém
desobedeceram
E
na água se meteram
Demorando
um bocado
Quando
chegaram de volta
Zaqueu
estava bufando
E
logo ele foi pegando
Um
pau que nem se entorta
Perguntou
o que sabia
E
ouviu o que queria
O
resto não lhe importa
Os
meninos só culparam
O
irmão Teodorico
O
pai não fez nenhum bico
Logo
todos escutaram
Cada
paulada um grito
Daquele
jovem aflito
Que
os irmãos acusaram
Depois
de quinze minutos
Prostrado
lá no terreiro
Só
se via o sangueiro
Parecia
um bicho bruto
Cortes
pelo corpo inteiro
Levado
para o celeiro
Era
um verdadeiro luto
O
tratamento que havia
Era
o mais natural
Lavar
com água de sal
Era
tudo que podia
Não
existe nada igual
Àquele
gesto animal
Uma
grande covardia
Mas
era assim que era
O
costume do sertão
Gestos
de humilhação
Aconteciam
de vera
Sem
qualquer contemplação
Era
a lei do bordão
Parecia
uma galera
No
outro dia, quebrado
Sem
poder nem se mexer
O
pai inda foi querer
Que
fosse para o roçado
Mas
a mãe foi convencer
Que
não havia porquê
Ser
ainda mais malvado
Mas
lá no seu pensamento
Teodorico
almejava
Para
o dia que chegava
Um
outro discernimento
A
coisa era muito brava
Mas
uma fuga preparava
Nem
que fosse num jumento
Passaram-se
alguns dias
Tudo
voltava ao normal
Mas
numa questão moral
O
rapaz se prevenia
Arrumou
mala e bornal
Fugiria
prá Natal
Ninguém
mais o deteria
Só
que quando ia fugir
Preferiu
peitar a fera
Parecia
uma quimera
Mas
resolveu lhe pedir
Que
de forma bem sincera
Resolvesse
como era
Que
deveria partir
Aí
teve uma surpresa
Na
dureza de Zaqueu
Pois
ele estremeceu
Olhando
para Tereza
Escutou
e entendeu
A
fala do filho seu
Com
uma cara de tristeza
Nunca
ninguém no sertão
Tinha
visto coisa assim
O
homem cor de carmim
Parecia
um pimentão
Olhou
pro filho e enfim
Disse
pois se é assim
E
não vou impedir não.
Faça
lá da sua vida
O
que você bem quiser
De
jumento ou a pé
Procure
sua guarida
Você
sabe como é
Mas
quando a gente quer
Procura
a melhor lida
Naquele
exato momento
Ele
se surpreendeu
Pois
nos olhos de Zaqueu
Num
toque singelo e lento
Uma
lágrima rompeu
E
um abraço se deu
Ante
tão vasto relento.
O
filho foi lhe dizendo
-
Tava de mala arrumada
e
hoje a minha parada
eu
posso até não tá vendo
mas
nesse mundo mais nada
nem
a ponta de uma espada
brecava
o que to querendo.
Dali ele foi embora
E a mãe ficou chorando
Os irmãos se lamentando
Mas tinha chegado a hora
Pela estrada andando
Sua história foi contando
Todo dia, mundo afora.
O que dali se passou
Eu só vou contar depois
Só sei que cuidar de bois
Ele nunca mais cuidou
Despeço-me aqui, pois
Dizendo que aqueles dois
A vida não mais juntou.