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Mas quem no campo
ficou,
Coisa de trinta por
cento,
Inda tira seu
sustento
Das coisas do
interior;
De carro ou de
jumento,
Abrigado ou no
relento,
A tarefa continuou.
Aqui, da minha
cidade,
Fico pensando na roça:
Na casa e na palhoça,
Salatiel, Piedade,
Vez por outra alvoroça,
Corro sem medo e sem
bossa
Prá ver a
calamidade.
Foi assim um certo
dia,
No primeiro de abril,
Que a barragem ruiu,
Levando tudo que
havia;
O povo todo sentiu,
Pois para todo o
Brasil
A informação
seguia.
Como o tempo é engraçado,
Pode ser até cruel,
Outra mudança no Céu,
Logo ali do outro
lado;
Anos depois o papel
Que já falava de mel
Era de novo malvado.
Naquela linda fazenda
Que ficava bem no
alto,
Onde a onça dava
salto,
Se eu mentir Deus me
defenda,
Logo ao lado do
asfalto,
Segundo outro arauto,
Mandava nova legenda.
Nem parece que faz
anos,
Sentava lá no terraço,
Chovia pelo regaço,
Tinha até uns
bichanos;
E nem apressava o
passo
Naquele belo espaço
De modo interiorano.
Mas a vida continua
E o tempo se passou;
Longe do interior,
Vivendo as coisas da
rua,
Ninguém a mim
informou
Um sentimento de dor
Que matou até perua.
Eu vim saber por
acaso,
Pois tive de viajar
E pela estrada
passar,
Foi quando vi algo
raso;
Nada mais vai arrasar
A gente lá do lugar
Do que aquele triste
caso.
O açude tão bonito
Cheio de água
limpinha
Perdeu a água que
tinha,
Quase que não
acredito;
Pois eu vi pela
tardinha
Aquela terra sequinha
E não segurei meu
grito.
Oh! Deus, que imagem
triste!
Eu nunca ia pensar
De um dia enxergar,
Mas agora sei que
existe;
A terra desse lugar
Agora poder pegar
Por quê não me
advertiste?
Açude seco, terreno,
Só mesmo quem te
conhece
Pensa em fazer uma
prece
Prá que o sol fique
ameno;
E a chuva que
abastece
Ver se logo em ti
desce
Este é o melhor
aceno.
Aquele cena chocante
Ficou em meu
pensamento,
Não esqueço o
momento
Em que olhei
delirante
Um homem com um
jumento
Passar com seu passo
lento
Açude adentro,
adiante.
Ali não me
conformei:
Fui ver o povo da
terra
Onde o bode tanto
berra
E de Rosa indaguei;
Ela disse - Nem na
guerra
Tanta coisa se
emperra
E passa o que eu
passei.
Sem água nem prá
beber
Ela conseguiu passar
Trazendo num caçuá
Pouco para se manter;
E me chamou prá
olhar
Coisa de arrepiar
Uma vida de sofrer.
Como dizia um Ramos,
Que nordestino é
forte,
Acreditamos na sorte
E da seca nos
salvamos;
Sem ir pro sul nem
pro norte
Fazemos até esporte
E hoje nos
destacamos.
Paro com essas
lembranças,
Mesmo que sejam
recentes,
Pois agora em minha
mente
Só quero ter esperanças;
De que esse povo
decente
Tenha um tempo
diferente
De prazer e de bonança.
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