Duas vezes por
engano
Foi preso e
encarcerado,
Nada ficando provado
No fórum
pernambucano;
Do Cabo ele foi
levado
E apareceu o culpado
Que estava se
esquivando.
O mecânico e
motorista
Era um homem
bondoso,
Bom filho e bom
esposo,
Não era
mercantilista;
Mas tido por
perigoso
Acabou todo seu gozo
Não pode mais ser
passita.
Na Aníbal Bruno
preso
E na Barreto Campelo
Não é o melhor
modelo,
Sofreu o maior
desprezo;
Nunca lhe tiveram
zelo,
Foi tempo de
desespero
Qualquer um ficava
teso.
Não tinha banho de
sol
E era violentado,
Sofria de todo lado
Querendo sair do
rol;
Como todo injustiçado,
De capitão a
soldado
Não davam nem
Bezerol.
Alguém que nunca
foi gênio
Tirou a sua visão
Em uma rebelião
Inda no outro milênio;
Na cela, sem compaixão,
Atacaram-lhe então
Com o gás lacrimogênio
O Marcos M. da Silva
Não recebeu
garantias,
Ninguém no mundo
ouvia
Sua constante
assertiva;
Em sua cela todo dia
A história repetia
Mas lhe deixaram à
deriva.
Acusado falsamente
Marcos viu
desmoronar
Tudo que tinha em
seu lar
Acabou bem de
repente;
Não conseguia falar
Com os chefes do
lugar
Mandavam sair da
frente.
Contraiu tuberculose
Quando estava na
prisão,
Também perdeu a visão
Me diga se não é
dose;
Isso não é ficção,
É história de uma
ação,
Com isso não há
quem prose.
Naquela cela, tão só,
Quase que ele
morreu,
Mas como sobreviveu
Lembra a história
de Jó,
Com a fé que Deus
lhe deu
Esse tempo ele
venceu
Nunca vi cousa pior.
Se um ser humano
erra,
Erra mais que julga
errado
Deixando encarcerado
Inocente dessa
terra;
E tem julgador
malvado
Que julga
precipitado
Nem olha se o réu
berra.
Marcos perdeu
liberdade,
Ficou na prisão
sofrendo,
Treze anos padecendo
Essa é que é a
verdade;
Um caso muito
horrendo
Que só merece
adendo
Da falta de
caridade.
Claro que alguém
falhou,
Cometeu grande
imprudência,
Pois não houve paciência
Pra ver o que
alegou;
Bradando sua inocência
Marcos não teve
clemência,
Cada vez mais se
afundou.
Foi o capitão
Galindo,
Novo chefe da prisão
Que fez a reparação
E deu seu sofrer por
findo;
Pelo menos desde então
Cumprindo a sua missão
Mandou que fosse
seguindo.
No presídio nada
havia,
No cartório também
não,
Nada contra o cidadão
Documento algum
dizia;
Na vara da execução,
Mais uma confirmação
Da própria
secretaria.
O juiz da transferência
Diz que não lembra
de nada;
Carreira imaculada,
Mas assinou a sentença;
Diz que não fez
coisa errada,
Mas lascou o
camarada
Ora tenha paciência!
No fim de todo esse
horror,
Despido de vaidade,
Para buscar a
verdade
Foi um
desembargador;
Com toda dignidade,
Por nossa sociedade
Pediu perdão e
falou.
Doutor Fernando é o
nome
Do homem que
levantou
Perto de Marcos
chegou,
Viu que o sofrer não
some;
A sua mão apertou,
O fórum todo chorou
Com o gesto daquele
homem.
Marcos terá 2 milhões,
Decidiu o tribunal,
Uma quantia legal,
Mas não paga emoções;
Não corrige todo o
mal,
Nem pune ação
ilegal
Dos julgadores errões.
Diz
um nobre advogado
Que
o Marcos teve sorte;
Se
fosse pena de morte,
Ela
já estava enterrado;
Justiça
precisa norte
E
isso é uma prova forte,
Verdadeiro
arrazoado.
Marcos
vai ter o dinheiro,
Mas
perdeu sua visão,
Sofreu
mais do que Sansão,
Pois
passou o tempo inteiro
Sem
ter dinheiro na mão,
Tudo
que ouvia era não
Do
povo interesseiro.
E
quem fez ele sofrer,
Será
que irão pagar?
O
estado vai deixar
Simplesmente
esquecer
Quem
achou de condenar
Sem
as provas confirmar
A
tamanho padecer?
Será
que é desse jeito,
Condena
e fica por isso?
Onde
está o compromisso
Que
algum dia foi feito,
De
nunca ser submisso
Cumprir
bem o seu ofício
Em
favor do bom direito?
Aquelas
“autoridades”
Que
condenaram ao calvário
Pelo
cárcere diário,
Dias
de atrocidades,
Não
vão virar réu primário
Têm
vultoso salário
Nem
gostam dessas verdades.
Não é um caso
isolado,
Com certeza temos
mais,
Vez por outra nos
jornais
Surge alguém
injustiçado;
E o Estado nada faz
Para garantir a paz
De um povo
desencantado.
Agora a gente
imagina
O homem perder a
pista
Sem ter nada que
assista,
Como foi a triste
sina,
Nesse mundo de
conquista
O que é perder a
vista
Deixar de usar a
retina.
Mas tem gente mais
injusta,
Que inda culpa o réu
Como se fosse um Céu,
Pois não sabe
quanto custa
Ficar tanto tempo ao
léu
Cumprindo triste
papel
Esse quer ser uma
“busta”.
Marcos diz que
procurou
Ajuda de muita
gente,
Dizia ser inocente,
Mas ninguém
acreditou;
Pois nunca é
diferente
Pode ser incoerente
Ninguém nunca lhe
ajudou.
Agora é tocar a
vida
Como Deus lhe
aprouver,
É isso que o povo
quer,
Mas é grande a
ferida;
Precisa de muita fé
Prá continuar em pé
Mesmo já tendo
guarida.
Que isso sirva de lição
Aos senhores da
Justiça
Continuem nessa liça
Mas procurem a razão;
Sem moleza nem
preguiça,
Pois quem erra só
atiça
O mal em muita ação.
Termino emocionado,
Pois não é fácil
saber
Que alguém teve de
viver
Um tempo tão
assombrado;
Um abraço prá você
Que conseguiu tudo
ler
Pois é muito abençoado.
Até qualquer outro
dia
Nas rimas do meu
cordel
Rogando ao grande Céu
Uma bela fantasia
Para algum menestrel
Trazer histórias de
mel
Repletas de alegria.
FIM