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O
abandono, esquecimento, desprezo e alienação da
coletividade potiguar sobre a história dos indígenas,
durante os últimos trezentos anos, estão muito bem
caracterizados na pessoa do cacique Janduí que teve a
decisão de resistir até o fim, à exploração dos
colonizadores que sabiam muito prometer, sem fazer o
cumprimento das suas propostas.
Outros
chefes tribais do Nordeste, também foram traídos, em
dezenas de oportunidades, pelos exploradores europeus
que pretendiam, inicialmente, ganhar a confiança dos índios
e, posteriormente tomar as terras e seus produtos, através
de ações amistosas ou violentas em que os nativos
sempre foram apontados como os responsáveis.
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Como pode alguém considerar os canibais e antropófagos
dos homens civilizados?
Esta
indagação ainda existe, com as indicações de que o
canibalismo e antropofagia1 jamais deixaram de ser
realizados em qualquer parte do mundo, segundo as
necessidades da sobrevivência humana e por motivos
culturais, a exemplo do que tem acontecido em toda a
história da humanidade, desde a Europa, além de outros
continentes.
As
maiores tribos do Brasil colonial, especialmente os
Potiguara do litoral e Tarairiú, do sertão, foram
canibais e, portanto condenadas pelos europeus que assim
manifestavam de maneira contraditória – os seus hábitos
e costumes de terem comido a carne humana2 quando não
tinham outros meios para matar a fome.
As
condenações feitas nesse sentido, geralmente partiram
de religiosos defensores do sentido humanitário, sem
olhar o passado recente das guerras religiosas em que os
homens e mulheres da Inquisição foram condenados à
morte3 nas fogueiras, sem direito à defesa, ao mesmo
tempo em que nas matas, os corpos humanos eram
pendurados nas árvores para serem comidos pelos
cachorros.
Além
de Janduí, outros chefes indígenas – ficaram na
desgraça da história contada e escrita pelos
vencedores que usaram todos os meios para a conquista
dos nativos como subordinados, serviçais e sujeitos aos
conquistadores, em troca de alguns favores, muitos dos
quais4 deixaram de ser cumpridos ou atendidos.
O
colonizador português deixou profundas marcas de
mentira e traição aos índios, considerando, talvez o
exemplo dos espanhóis, assim como de outros povos5 que
pretendiam ocupar as terras americanas quando a Europa
estava em decadência6 econômica, social e cultural
causada pelos conflitos internos.
As
traições7 foram adotadas sem maiores reservas, até
mesmo entre os próprios colonizadores, quando estes,
por motivos pessoais preferiam defender ou ficar ao lado
dos índios indefesos que não estivessem de acordo com
as atitudes dos pêros ou portugueses representantes do
reinado de Lisboa.
O
francês e holandês nas relações com os nativos8
nordestinos, também fizeram o desprezo e pouco caso,
quando seus interesses estavam em jogo ou sinal de prejuízos,
sem as vantagens materiais pretendidas pelos governos
dessas nações que procuravam recuperar-se das guerras
ocorridas entre os seus paises.
Depois
do incêndio das aldeias de Copaoba – 1587, o cacique
Ararambé foi preso e levado para Lisboa, onde ficou
exilado e faleceu, sem voltar à sua origem na aldeia
Iniguaçu, onde ele contava com 20 mil índios9
Potiguara produzindo milho, feijão, algodão, mel de
abelha e cortando pau-brasil para vender na Europa.
Os
europeus que porventura tiveram consideração e
respeito aos indígenas, como Rodolfo Baro e Jacó Rabe,
desde o Rio Grande,10
perderam a confiança de seus governos e,
consequentemente suas vidas em circunstancias
misteriosas no estilo “queima de arquivo”, a exemplo
do que ainda acontece atualmente.
Nas
denominadas “guerras justas” – jamais deixou de
haver os ataques de surpresa, em forma de boicote,
visando eliminar11os índios: nas suas caçadas, o
paulista Domingos Jorge Velho mandou trucidar cerca de 2
mil silvícolas refugiados nas cavernas
de pedra da serra Acauã, no Seridó
norte-rio-grandense.
Os
massacres de nativos – sempre foram constantes em toda
América, assim como
no Nordeste12 e Rio Grande, desde o início da
colonização, de acordo com as
instruções
recebidas e tomadas pelos exploradores europeus – para
que fossem superadas
as resistências.
Na
formação das tropas de combate feita pelos
colonizadores, normalmente havia mais de 50 por cento
dos homens, compostos de índios13 retirados das tribos
localizadas nas matas, depois de vencidos, presos,
escravizados e humilhados pelos estrangeiros que
invadiam e tomavam o território.
Como
e porque numerosos chefes de tribos foram desaparecidos
do mapa brasileiro, continua sendo uma das maiores questões,
sem resposta, escrita nos pequenos e grandes livros de
história, atendendo às recomendações das elites e
governantes que negaram, radicalmente, o direito de
justiça e liberdade dos primitivos brasileiros.
Janduí
foi um deles – morreu na velhice, sem haver indicações
de quando, nem onde, depois do imenso ostracismo
estabelecido pelos portugueses e holandeses, nos períodos
seguidos da tomada do espaço físico – terra de onde
foram expulsos os primeiros habitantes, deixando aí –
o suor, as lágrimas e o próprio sangue para as futuras
e atuais gerações.
Com
tais acontecimentos, a diversidade cultural entrou no âmbito
da história brasileira – fechando a porta para o
universo da indocultura que permanece, infelizmente no
mistério do passado.
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*O
autor é jornalista e sociólogo pela UFRN, sócio
efetivo do IHG-RN.
Notas:
01-
Canibais – documentário, do History Channel –
Brasil, divulgado em Julho-2006.
02-
O Canibal – Lestringant, Frank – 1997.
03-
Idem, idem.
04-
Studart Filho, Carlos – 1966: pp.64.
05-
Idem, idem: pp.109,110.
06-
Ribard, André – Vol. II: p.25 e outras sobre A
Reforma.
07-
Siqueira, Baptista – 1978: p.69 em se tratando da
proibição da Língua Geral em 1759, expulsão dos
Jesuitas
em 1758 e as revoltas
dos indígenas, em virtude da retomada de seus territórios
pelos colonos.
08-
Por Um da Companhia de Jesus – Anônimo – 2006.
Relato sobre a expulsão dos franceses sediados na
Copaoba – Paraíba,
1587 sob o comando do Ouvidor Geral Martim Leitão,
quando o incêndio arrazou mais
de 50 aldeias indígenas, na véspera do Natal
– 24 de dezembro.
- Lira, A. Tavares de -1982: p. 48 e seguintes
– governo holandês no Brasil.
09-
Idem, idem – 1530, Guerreiros indígenas de Copaoba
assaltam e incendeiam engenho de Diogo Dias,
próximo de Itamaracá – Pernambuco, em defesa
da jovem índia que estava na companhia do senhor de
enegenho, sem querer retornar à sua tribo.
10-
Teensma, B.N. – 2000, In Índios do Nordeste: Temas e
Problemas 2 – Edufal.
11-
Fausto, Boris – 1998, p. 50 sobre as “guerras
justas” adotadas pelos governos, visando combater os
indígenas que se
recusavam ao trabalho escravo.
12-
Idem, idem ponto 8, acima – acrescentando-se que a
Guerra dos Índios foi iniciada em 1530 – ponto 9,
Seguida pela de
Copaoba-Itamaracá, 1587 e, mais tarde, na construção
do forte Santos Reis, agtual Reis
Magos, para a fundação
de Natal.
13-
Na formação das tropas de combate organizadas pelos
portugueses, desde o início da colonização do Brasil,
mais de 80 por cento
dos homens foram constituídos de índios, os quais eram
chamados, normalmente de
flecheiros,
segundo a maioria dos autores.
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