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Se houvesse compromisso e responsabilidade sobre
a cultura e a história das raízes em que nasceram as
inúmeras famílias do Rio Grande do Norte, o ano 2007
poderia ser motivo de fabulosas comemorações para a
maior grandeza da população, em todos os sentidos, de
forma legítima, verdadeira e festiva. |

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Isto ainda poderá acontecer, desde que os
homens e mulheres de consciência representativa –
intelectuais, universitários, estudantes e líderes
classistas, assim como de outros setores, tenham a
disposição e vontade de pensar e agir neste assunto,
de maneira impessoal, olhando apenas para o coletivo
social.
- Quais os motivos para estas afirmações?
Para o bom entendimento, temos de fazer uma
viagem com 201 km, desde Natal ao Acarí, com escala em
Santana do Matos, os olhos e a mente nos vales, serras,
riachos e rios, onde viveram os indígenas de 16471
– sob as garras dos colonizadores sedentos de terras e
das riquezas naturais.
O conhecimento das razões dessa viagem, requer a
presença e participação imaginária ou real de quem
revela o interesse sobre o estudo e pesquisa acerca dos
índios2 – o holandês Benjamim Nicolau
Teensma, Olavo de Medeiros Filho, Luis da Câmara
Cascudo, Pierre Moreau, Nássero Nasser, José de
Azevedo Dantas, Walner Barros Spencer, Rosáfico
Saldanha Dantas, Rodolfo Baro, Emanuel Amaral,
Crispiniano Neto, Enélio Lima Petrovich, Jerônimo
Rafael de Medeiros, Edgard Ramalho Dantas, Vandeberg
Medeiros e outros.
Serra
Monumento
Naquele mundo cheio de pedras, serras semi-áridas,
garranchos, vales e rios secos ou sazonais, habitado por
gente de grande resistência, alegre, feliz, amiga e
hospitaleira – tivemos um acontecimento que se
projetou em toda a Europa: a festa ou ritual3
da passagem, realizada pelos índios Tarairiú, em junho
de 1647, ali reunidos pelos seus caciques chefiados pelo
maioral Janduí.
No “seu altar para os céus”4 –
a serra Macaguá, atual Serra de Santana, os indígenas
reuniram-se numa “aresta estreita e comprida, que
mede, aproximadamente, 10 quilômetros por 1.500
metros”5 – onde estavam preparando as
suas festas, no final de junho, sob todo o rito
selvagem, através da bebida, comida e também da
antropofagia com respeito e admiração pelos seus
valores humanos vivos e mortos.
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Aquele local não pode ser outro, a não ser
onde, atualmente, localiza-se o açude Marechal Dutra
– ex-Gargalheiras, município do Acarí, desmembrado
de Caicó, da antiga região do Seridó6 –
por onde viviam os índios chamados Tapuia ou nômades
chefiados por Janduí e outros caciques valentes,
poderosos, corredores e destemidos. |

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As estimativas são de que 3 a 5 mil índios –
mulheres, homens e crianças tapuias foram participar
daquela festa7 ou Toré, em nome do deus Taúba,
com atos e cerimônias de partos, mudança de idade, união
conjugal, danças, cantos, corridas do tronco, bebidas e
alimentos durante várias noites, queima de fogueiras,
morte e nascimento de crianças, cura de doentes, além
do canibalismo próprio dos índios Tarairiú.
Naquela oportunidade, certamente o rio Acauã –
já estava com muita água pluviométrica, a qual fazia
um espelho sob a claridade da lua, enquanto o clima era
frio, levado pelo vento norte que assanhava os cabelos
longos8 dos índios e levantava as folhas que
cobriam o corpo das mulheres.
- A beleza deste cenário já foi pintada por
algum artista do Nordeste?
Parece que nada foi feito neste sentido, pelo
menos, no Rio Grande do Norte, menos ainda na região
Nordeste ou no Brasil – considerando o valor9
cultural, antropológico, histórico e, também sociológico
para todo o país, como fator de reconhecimento em torno
de nossas origens.
Os indígenas do Rio Grande, com sua beleza
natural e seus feitos culturais – continuam esquecidos
e abandonados, desde o período colonial, pelos artistas
da terra, a exemplo10 do que tem ocorrido com
as demais categorias sociais, em decorrência da ação
separatista de uso e abuso comuns.
O monumento da Serra Macaguá foi publicado em
Paris - 1651, pelo filósofo e historiador francês
Pierre Moreau, depois de haver consultado o original das
Relações de Viagem, escrito com falhas e erros, em
1647 pelo representante dos holandeses junto aos índios,
Rodolfo Baro. 11
Moreau ganhou fama e prestígio em toda Europa iluminista com
a divulgação do seu trabalho referente às festas dos
índios Tarairiú na Serra Macaguá, vez que naquela época
a cultura européia estava voltada para os
acontecimentos das viagens pelo Novo Mundo,
especialmente no tocante aos povos indígenas que
causavam admiração12 aos civilizados.
Naquele mesmo ano – 1647, o holandês Gaspar
Barléo, ao publicar o livro da história do governo
flamengo no Brasil, com Maurício de Nassau, deixa de
mencionar os relatos da viagem de Baro aos Tarairiú,
exceto as palavras “um certo Baro” que prestava
serviços ao governo da Holanda no Brasil.
Menino
Abandonado
Durante o século 17, os países europeus
estavam em guerras constantes de 80 a 100 anos
consecutivos, quando a fome,doença, desemprego,
abandono e miséria rondavam as casas, famílias e
pessoas vivendo na escuridão do Iluminismo em formação.
Foi naquela condição que nasceu em 1610, um dos
meninos, mais tarde chamado de Baro, o qual deve ter
perdido mãe e pai, a exemplo do que houve com outros
milhares de órfãos – filhos da guerra, sem casa,
comida e família.
Na situação de Menino Abandonado, 13
a exemplo do que ainda acontece em muitos paises,
inclusive Brasil e outros, aquele vivia no porto da província
de Zelândia – sul dos Paises Baixos, quando foi
chamado para embarcar no navio Blauwe Zee – Mar Azul
com destino ao Brasil, no início de 1617.
O professor e pesquisador holandês B.N. Teensma,
da Rijksuniversiteit, Leiden, Paises Baixos , é quem
nos faz este relato sobre Baro, acrescentando que ele
chegou ao Brasil em 1617, na companhia
do capitão Dierick Ruiters, quando o navio foi
destroçado na praia da Ilha Grande e mortos os seus
tripulantes, exceto o capitão, juntamente com seu
“grumete” – marinheiro de primeira viagem.
Ao ser preso pela força portuguesa, o comandante
do Mar Azul foi enviado para a prisão na sede do
governo lusitano no Brasil, Salvador-Bahia, juntamente
com o menino14 que, mais tarde, por meios
desconhecidos, passou a morar com os índios no interior
do Rio Grande, ao lado dos Tarairiú de Janduí.
Naquele meio selvagem, o menino de Zelândia
aprendeu a respeitar os costumes e liberdade dos indígenas,
ao lado dos curumins,
comendo as frutas e caças, banhando-se nos riachos,
rios e brincando nas matas habitadas pelos índios nômades
que lhes faziam companhia.
Entre os Tarairiú – o Menino Abandonado sempre
teve o seu pai adotivo ou de criação, o chefe Janduí
tratando a esse estrangeiro de Meu Filho, enquanto este
chamava o cacique de Meu Pai, no decorrer dos l3 anos14
vividos na tribo janduina, até 1630, quando saiu de
Macaguá15 com destino ao Rio Grande –
Natal e Recife, afim de se apresentar ao governo holandês.
Na cidade de Olinda – sede do governo flamengo
no Brasil, o ex-marinheiro do capitão Ruiters,
certamente teve, pela segunda vez, o apoio deste para
chegar ao Conde Maurício de Nassau, pois como fugitivo
da cadeia de Salvador, o capitão do Mar Azul regressou
a Holanda, daí retornando na companhia de Nassau16
para a tomada do território brasileiro.
Nos entendimentos feitos entre Nassau, Ruiters e
o Menino Abandonado, certamente entrou a pessoa de Jacob
Rabe, aventureiro e mercenário, auxiliar das
autoridades holandesas, então indicado para a companhia
do jovem holandês, ambos como representantes do novo
governo, junto aos índios Tarairiú.
O nome próprio17 em Tupi, no dialeto
Tarairiú, do Menino Abandonado, ficou sem registro pela
história, concluindo-se, logicamente, que foi Rabe quem
criou o nome de Rodolfo Baro para o mesmo, considerando
o fato de ele ser de estatura alta e fisionomia respeitável,
bem como baro
significar no alemão antigo, o tipo do homem alto,
poderoso e de projeção, daí surgindo o barão
– senhor rico de muitas terras, simplesmente Baro.
Avanço
e Retrocesso
Após os 15 anos do governo Nassau, surge a
revolta dos proprietários de engenhos da cana de açúcar
em Pernambuco e outras capitanias, inclusive a do Rio
Grande, sob a liderança do ex-auixiliar da administração
holandesa no Recife, o açoriano João Fernandes Vieira,
18 com a finalidade de recusar o aumento de
impostos adotado pelos governantes.
Nos preparativos da guerra, Vieira lançou um
bando ou panfleto para comprar a cabeça de Nassau por
elevado valor, enquanto este respondeu em condições
superiores, sem mostrar suas armas e tampouco as tropas
que dispunham para que o conflito fosse iniciado.
O
rompimento de Vieira com os holandeses teve
prosseguimento com o reforço de tropas e armas,
inclusive a média de 8019 por cento sobre o
total, constituída pelos índios de Potí – Felipe
Camarão, além dos negros de Henrique Dias, para a
defesa dos colonizadores oriundos de Portugal e outros
paises europeus do reino luso-espanhol.
Naquela altura da Guerra dos 100 Anos, a Holanda20
estava à sombra da força espanhola, sem mais o
anterior domínio do mar-terra, motivo pelo qual seu
maior objetivo era a obtenção de capital para
fortalecer o império de Orange sediado em Amsterdã.
Na Serra Macaguá, do Rio Grande, Rabe e Baro
estimulavam os índios janduinos para que fossem
guerrear os portugueses, através de assaltos aos
rebanhos de gado e às plantações, fazendo a morte dos
colonos, até a expulsão dos ocupantes das terras
ocupadas.
Janduí e seus caciques aliados estavam de acordo
com os planos de Rabe, desde que o reino de Orange lhes
fornecesse as armas de fogo, cavalos e demais utensílios
bélicos, além da ração necessária, para atender aos
seus guerreiros.
Baro,
por sua vez, recusava-se em fazer assaltos aos roçados
ou plantações, a exemplo do que aconteceu em Macaguá,
quando um grupo de índios arrancou o milho de outros,
sob alegação mentirosa de que tinham feito isso sob a
recomendação dele.
Foi sem a presença de Baro que Rabe em 1645,21
trouxe uma tropa de índios do sertão, sob o comando do
cacique Paraupaba, para atacar com fogo e morte, o
engenho Cunhaú, mais os seus colonos, segundo os
relatos históricos, pelos quais foi queimado um dos vários
estopins que deram seqüência à guerra dita infinita.
Agora mesmo, não pretendemos desviar para outro
assunto, pois no momento o importante e fundamental é a
grande festa indígena dos Tarairiú, onde, hoje em dia,
está a bacia do açude Gargalheiras, com altitude
aproximada de 270 metros, recebendo as águas do rio
Piranhas.
A viagem de Baro, desde Natal até a Serra Macaguá,
mais precisamente à lagoa Acauã, onde os índios
preparavam suas festas anuais, durou cerca de 80 dias de
caminhadas e descanso, em companhia de dois auxiliares,
levando os presentes para Janduí – tecidos e
ferramentas. 22
Com essa providência ou gesto de amizade, os
representantes holandeses queriam fazer com que os indígenas
revoltosos não insistissem com os propósitos de fazer
a guerra contra os portugueses, considerando, também as
recomendações feitas pelo governo central da Holanda.
Janduí, por sua vez, continuava reclamando23
dos holandeses a falta de atenção destes, demonstrada
em diversas ocasiões, entre as quais, depois da morte
de Rabe, no ano anterior – 1646, por decisão do
coronel Garstman, efetuada em Natal, como decorrência
da chacina de Cunhaú.
- O que Janduí tinha com isso?
Recorde-se que Rabe viveu, também, vários anos,
com os índios janduinos nas terras do sertão, 24
como representante dos holandeses, procurando
estabelecer as boas relações destes com os nativos, até
o ponto de haver casado com uma das índias daquela
aldeia.
Havia, portanto, estreitos laços de amizade
entre Janduí e Rabe, reforçados pela sua mulher do
povo janduino que, certamente podia fazer com que o seu
cacique aplicasse no meio daquela comunidade, o devido
castigo a Garstman por ter sido o mandante do
assassinato de Rabe.
A negação dos holandeses sobre esse pedido –
foi mais um motivo para a revolta janduina que se vinha
acumulando, de modo lento e progressivo, sem haver a
decisão final para a expulsão dos portugueses e seus
colonos.
Apesar de tudo isso, Baro ouviu e guardou silêncio
sobre as reclamações de Janduí, sem esquecer que
deveria enviar dois mensageiros a Natal – levando ao
conhecimento dos governantes flamengos, uma série de ações
indígenas visando à guerra.
Após haver tomado essa medida – Baro continuou
às margens daquela lagoa, em companhia de Janduí, seus
familiares, outros caciques e pajés, com mulheres e
crianças vindos de todo sertão – para a grande festa
que se tornou conhecida no mundo, depois de ser
publicada pelo historiador francês.
Fogo de
Monturo
O trabalho ou relatório de Baro, contendo tudo o
que ele viu e fez naquela viagem determinada pelas
autoridades holandesas de Pernambuco, foi escrito ao seu
modo, com falhas nas palavras legítimas, logo que
voltou daquela missão, quando a 14 de julho de 1647
chegou ao forte ou quartel em Natal, apresentando-se ao
comandante interino, Cornélio Bayaert.
Nos papéis fornecidos aos governantes, constava
a descrição de todos os passos da viagem, desde Natal
à Serra Macaguá, inclusive onde ele dormiu na
companhia de seu auxiliar, o polonês João Strass, mais
dois carregadores índios que compunham o grupo formado
anteriormente para a missão.
No lado oriental da Serra Macaguá, os emissários
do governo holandês no Rio Grande, encontraram a 19 de
maio – 1647, uma aldeia Tupi semi-abandonada, na qual
conseguiram obter as informações que desejavam, quanto
ao restante do caminho que deveriam percorrer.
Na desembocadura do rio Picuí, dia 22 de maio,
foi descida a mencionada serra, em direção ao sul,
quando houve o encontro24 dos viajantes com
quatro índios Tarairiú, montados em seus cavalos, os
quais levaram Baro e comitiva até a lagoa Macaguá,
onde estava o rei Janduí, com suas mulheres e crianças.
Naquele local, isto é, onde atualmente, está
situada a Barragem Marechal Dutra, segundo as indicações
do seu diário, Baro esteve mais de trinta dias, de 22-5
a 7 de julho, vendo, ouvindo e falando da movimentação
dos índios e assistindo, com seus companheiros, ao que
era programado para a grande concentração indígena.
Na comunicação com os Tarairiú, certamente
Baro tinha um bom conhecimento das palavras na língua
Tupi, levando em conta a sua experiência de na convivência
com eles, sem o fato de saber um pouco do Português,
bem como do Holandês – línguas que usava nas relações
extra-índios.
O monumento cultural dos Tarairiú – foi
construído ou realizado, dia 25 de junho, 1647 - na
lagoa da Serra Macaguá, atual Barragem Marechal Dutra,
quando e onde Baro, inicialmente assistiu ao Rito de
Passagem das Crianças em que os garotos de pouca idade
eram levados à presença do pajé, para que este lhes
fizesse a perfuração das orelhas e lábios inferiores,
em que eram introduzidas as pontas de madeira, pedra ou
osso.
Em seguida, conforme a tradição Tarairiú, cada
criança recebia o seu nome da língua nativa, além da
bênção do seu deus Tauba, representado, naquele
momento, pelo pajé da cerimônia que se repetiam todos
os anos, tendo Janduí, geralmente como chefe supremo na
presença do seu povo ali reunido.
No contorno da lagoa, sob as árvores e outros
locais, as mulheres grávidas tinham o parto, sem
qualquer inibição, antes do Rito de Passagem para que
então os seus filhos fossem abençoados por Tauba e
recebessem os nomes pessoais diante da coletividade.
As crianças natimortas das índias presentes
naquela festa, serviram de alimento para os seus pais e
outros familiares, conforme o canibalismo adotado pelos
Tarairiú, em que isso era um gesto de amor e respeito
à criatura do filho que não merecia, portanto, ser
enterrado.
Naquele momento, mães lambiam e comiam as
placentas de seus filhos, sem qualquer repugnância, a
exemplo dos animais irracionais, sob a grande admiração
de Baro e Strass, sem comentários em cima dessa
atitude.
O fogo de
monturo a que aludimos, não foi a grande festa em
questão, mas o diário de Baro que mesmo depois de
extraviado em circunstâncias inexplicadas, no Recife ou
Amsterdam, está passível de ter ficado com Pierre
Moreau, na França, após as suas consultas como fonte
das informações que foram publicadas no seu livro.
Sobre este assunto, o registro histórico
assinala ainda, que depois de ter feito o encaminhamento
administrativo do seu documento, Baro saiu de Natal, à
noite da mesma data de chegada, com destino à sua casa
na fazenda Jacaré-Mirim, próxima do rio Potengí,
atual município de São Gonçalo do Amarante.
Com o desaparecimento do Diário de Baro, este
perdeu o valor cultural e histórico, no Rio Grande do
Norte, Nordeste e até mesmo Brasil, ao contrário do
que vem sendo feito nos centros de estudo e pesquisa
livres de preconceitos e alienação.
Na continuação das festas – 25.06.1647 –
houve o casamento coletivo, naquele local, depois que os
casais passaram um longo tempo, até 3 horas da tarde,
vestindo os seus enfeites de longas penas
multicoloridas, extraídas das grandes aves que ainda
viviam nas matas próximas dos rios.
Nas
suas notas, Baro adianta que essa cerimônia foi
acrescida do sacrifício feito pelos pajés, com o
sangue caído dos ferimentos em suas faces – para que
os casais fossem abençoados com as nuvens de fumaça
que tomavam conta de todo ambiente.
O jantar nupcial foi servido ao ar-livre, às
margens da lagoa, durante as danças indígenas e seus
cantos numerosos, constituído de milho cozido, talvez o
manguzá primitivo, na água de cor amarelada pelo
barro.
Em dias anteriores, os jovens indígenas, com
idade para a união conjugal, fizeram diante de seus
grupos, nas aldeias da Serra Macaguá, as corridas
desportivas, diante das moças, levando em seus ombros
fortes troncos de madeira, visando conquistar a mulher
pretendida.
O auge daquela festa noturna, conforme a narração
de Baro, foi a comida de uma criança morta, depois de
curada pelo pajé, sob a invocação de Tauba que por
esse motivo foi expulso do local, sem haver saído dali,
enquanto era feito o corte da cabeça dela e cozido o
seu corpo em pedaços.
Os familiares, inclusive pai e mãe, seguindo os
costumes nativos, comeram toda a carne do recém-nascido,
assim como os flácidos ossos ainda em formação,
inclusive os dedos das mãos e pés – como gesto de
respeito e amor ao filho e parente que perdeu a vida
naquela noite de alegrias.
Segredo
da Morte
No final da viagem de regresso a Natal, Baro
esteve durante a tarde inteira na sede do governo,
prestando as informações orais e escritas em torno de
suas atividades, sem que tivesse tratado das mesmas no
seu relatório, daí podendo-se admitir que houve
segredos de estado.
Esta conclusão tem por base o fato de que em
agosto de 1648, esse homem de confiança do governo
holandês, como representante da WIC – Cia. das Índias
Ocidentais, junto aos índios do Rio Grande, apresentou
o seu pedido de demissão, 29 sem fazer
qualquer explicação.
Poucos dias mais tarde, o segredo termina:
a morte de Baro, em “qualquer sítio sobre o rio
Potengí” – sem esclarecimento de causa e efeito,
tampouco a data e circunstancias em que fora praticado o
possível assassinato.
- A quem interessava o fim de Baro?
Por causa dos acontecimentos de 1645 – chacina
de Cunhaú, o coronel Joris Garstman, comandante do
forte Ceulen, atual Reis Magos, foi quem mandou um dos
seus subordinados, matarem Jacob Rabe, após reunião e
jantar na residência dessa autoridade.
Na condição de subordinado ao coronel Garstman,
Baro soube atender às determinações recebidas dele,
ou seja, fazer em diversas oportunidades, o trabalho de
aproximação e entendimento dos índios com o governo
Nassau, como ninguém sabia, porque desde menino viveu
no meio indígena.
Tanto Rabe quanto Baro sempre estiveram mais ao
lado dos índios, do que dos holandeses, sobretudo na
fase posterior ao afastamento de Nassau do governo
flamengo no Brasil, quando tudo caminhava para a guerra.
Portanto, a queima de arquivo30
no crime político não é apenas de hoje – vem
sendo praticada desde a colonização, sendo que naquele
período, era mais ou menos como na atualidade, salvo
engano.
Se os 15 mil holandeses que, anualmente passam
por Natal31 – fazendo turismo, tivessem sua
atenção para esses acontecimentos, especialmente os
relacionados com Baro, certamente poderiam ser criados
os meios para a recuperação da memória bariana e
janduina, de modo solidário – Natal-Amsterdã.
No lixo da colonização – Baro e Janduí
plantaram a semente que produz uma rosa em cada ano,
mesmo que seja considerado o sangue que resultou dos
seus problemas causados pelas circunstâncias em que
viveram.
A rosa em questão é nada mais – nada menos,
do que os acontecimentos históricos, culturais,
antropológicos e sociológicos ocorridos às margens da
extinta lagoa Macaguá ou Acauã, com mais de quatro séculos,
no mesmo local da Barragem Marechal Dutra – Acarí-RN.
O complemento com maior fundamento pela comprovação
daquele acontecimento, infelizmente é um problema que
ainda está na dependência da arqueologia, mediante,
certamente, a futura realização de pesquisas que poderão
trazer novas revelações em torno do assunto.
O trabalho de busca, investigação sobre os índios
que viveram no Acarí deveria ser efetuado pelos
habitantes daquele município, 32 de preferência
os estudantes, mediante o apoio disciplinar e organizado
dos diretores e professores das escolas, para que desse
modo, outras instituições abrissem os olhos para ver a
imaginária rosa acariense.
Quando houver trabalhos assim, então será possível
o entendimento de que o atual canibalismo, feito de
outras maneiras – crime, doença, fome, desemprego,
abandono, miséria e ignorância – ainda é uma das
conseqüências do passado ou, simplesmente a raiz da árvore
sem a copa que não produz frutos.
..................................................................
N o t a s:
01.
Isto é apenas uma proposta do autor – visando fazer
com que a questão indígena no RN-NE seja preservada e
mantida pelas novas gerações para efeito de ampliação
sócio-cultural.
02.
A viagem sugerida poderia ser organizada, com a
devida permissão, pelo Governo do Estado e UFRN, com as
pessoas indicadas que por si só, vivos e mortos, têm
manifestado grande interesse pelo estudo e pesquisa
sobre os indígenas. Os mortos relacionados para a
viagem – Olavo Medeiros Filho, Luis da Câmara Cascudo
e Pierre Moreau – seriam representados pelos seus
livros. Os vivos – B.N Teensma, autor do estudo sobre
Rodolfo Baro; Nássero Nasser, antropólogo,
pesquisador, aposentado da UFRN; Walner Barros Spencer,
historiador-UFRN; Rosáfico Saldanha Dantas, geógrafo,
pesquisador – UFRN; Emanuel Amaral, artista plástico
e pesquisador; Crispiniano Neto, jornalista, presidente
da Fundação José Augusto; Enélio Lima Petrovich,
presidente do IHG-RN; Jerônimo Rafael de Medeiros,
diretor do Museu Câmara Cascudo da UFRN; Edgard Ramalho
Dantas, geólogo, professor da UFRN e Vandeberg
Medeiros, artista plástico – UFRN porque têm
revelado dedicação e estudo sobre os indígenas.
03.
Teensma, B.N – 2000, In Índios do Nordeste: Temas e
Problemas 2, Organizadores Luiz Sávio de Almeida,
Marcos Galindo e Juliana Lopes Elias – EDUFAL, 2000
pp. 90 a 99.
O4.
Teensma, B.N – 2000, Idem – p. 94.
05.
Idem, p.94.
06.
A bacia do açude Marechal Dutra – situado no Acarí
– deveria ser a lagoa Acauã ou Macaguá, considerando
que no confronto das informações de Teensma ,B.N –
p. 94 com as do mapa do Rio Grande do Norte – 1997, o
rio Acauã – braço do Piranhas-Seridó, deságua
naquele mesmo local do Acarí-RN.
07.
Melo – Antonio Gonsalves de, 1987 – p.215 indica que
Janduí em 1639 arregimentou dois mil índios do sertão
para o então Rio Grande, atual Natal – para
manifestar o apoio ao governo Nassau no combate aos
portugueses, motivo pelo qual este recomendou o retorno
dos revoltosos às suas origens.
Idem, Martins – Fátima, 2003 – p.80 trata da
mesma questão, adiantando que o governo holandês em
Pernambuco, sempre recusou a presença dos Tapuia nas
proximidades dos centros populacionais.
Idem, Barléu – Oscar, 2005 – p.214 afirma
que em 1640 Janduí reuniu três mil índios –
adultos, mulheres e crianças para demonstrar seu apoio
à guerra contra espanhóis e portugueses, daí
resultando o alistamento de 2 mil índios nas tropas
militares sob o comando de Nassau.
Com base nesses números – é que fazemos a
estimativa de 3 a 5 mil índios na festa Rito da
Passagem, na lagoa Macaguá.
08.1647
foi de boas chuvas para todo o Rio Grande, do litoral ao
sertão, conforme o relato de Baro considerando que no
decorrer de sua viagem, entre Rio Grande e Serra Macaguá,
ele atravessou vários rios e riachos com muita
dificuldade, para chegar ao destino, após 80 dias de
caminhadas, na companhia de três auxiliares.
09.
No meio da produção de artes plásticas, pouco ou
quase nada temos oportunidade de conhecer, admirar e
valoriza, em relação com a população indígena do
Rio Grande, apesar do grande potencial existente, assim
como das experiências feitas por artistas estrangeiros,
durante a colonização, quando eles tiveram em foco os
aspectos negativos – canibalismo, revoltas e
comportamentos animalescos, segundo eles.
10.
A pintura mais conhecida e admirada – sobre os
índios Tarairiú foi realizada pelo holandês Albert
Eckhout, no período de 1641-43, depois de sua chegada
ao Brasil, na companhia do Conde Maurício de Nassau,
quando ele esteve no Rio Grande onde pintou um índio
Tarairiú, a provável pessoa de Janduí, além de uma
mulher indígena do Assú e uma dança ou luta desses
nativos. Raminelli, Ronald – 1996, p.85.
11.As
sessenta palavras do pomposo título da obra de Pierre
Moreau, publicada em Paris – 1651: “Relation du
Voyage de Roulox Baro, Interprète et Ambassadeur
Ordinaire de la Compagnie dês Indes, de la
Part des Ilustrissimes Seigneurs des Provinces
Unies, au pays des Tapuies dans l aterre firme du Brésil
Commencé lê troisiesme
Avril 1647, & finy de quartorzièsme Juillet de la même
année. Traduict d´Hollandois em François par pierre
Moreau, de Paray em Charolois.”
Teensma - B.N, 2000 – Idem, Nota 3.
12.
Barléu, 1647 – edição 2006 publica o relatório de
Jacob Rabe, na íntegra, como um dos mais valiosos
documentos do
governo holandês no Brasil, sem fazer o mesmo com o
relatório Baro, assim como o fato deste ter sido uma
ponte ou instrumento de comunicação para que o alemão
Rabe tivesse a consideração e apoio dos índios
janduinos.
13.
A história não especifica Baro como Menino Abandonado.
Esta denominação foi criada pelo autor, conforme as
indicações históricas de que ele, aos 7 anos de
idade, vivia no cais do porto, da província de Zelândia,
sem a necessária proteção familiar.
14.
Teensma e os demais historiadores que tratam com
detalhes documentais das ocorrências relacionadas com
Baro – deixam de mencionar o que aconteceu durante a
sua juventude na convivência com os indígenas,
tampouco o que houve nas relações destes com Baro,
naquele período. Nota do autor.
15.
Serra de Macaguá – este topônimo indígena fora
adotado, certamente pelos nativos, em consideração às
aves de rapina existentes naquela área. No tempo da
colonização e expulsão dos índios, esta denominação
foi extinta ou substituída por Serra de Santana, sem
haver na história da região qualquer explicação
neste sentido. Teensma – 2000, p.96. Idem.
16.
O capitão holandês Dierick Ruiters, desde 1617 –
quando foi derrotado no Brasil mudou o seu nome para
Francisco de Lucena, alcunha de Mãozinha, pelo fato de
ter sido decepada a sua mão esquerda no com combate em
que perdeu o seu navio. Na prisão de Salvador – Bahia
fez grande amizade com vários judeus, vindos de
Portugal, inclusive, como seu grande amigo, Manuel
Rodrigues Sanches que teria facilitado à fuga de
Ruiters da prisão. Teensma – 2000, pp. 81,82. Idem.
17.
Ficou sem registro, o nome próprio do menino holandês,
não somente da sua língua de origem, como também em
Tupi-Tarairiú por motivos inexplicados. O seu nome de
Rouloef Baro, após os 20 anos de idade teria sido em
decorrência de dois fatos: plano de servir ao governo
holandês e com o salário adquirido – comprar uma
fazenda no Rio Grande. Em decorrência desse sonho, Rabe
então, criou para o jovem companheiro o nome de Baro ou
barão. Nota do autor.
18.
Depois de haver rompido com o governo holandês em
Pernambuco, o comerciante e senhor de engenho, João
Fernandes Vieira – açoriano, retornou ao seu círculo
de amizade com os portugueses – aliando-se a outros
que estavam preparando o movimento de resistência ao
governo de Nassau, desde 1645, sob alegação de que
este havia aumentado os impostos sobre a produção de açúcar
exportada para a Europa. Sem maiores dificuldades esse
movimento obteve o apoio da maioria dos interessados, de
forma pessoal e com recursos financeiros para a contratação
de índios e escravos que constituíam mais de 80 por
cento das tropas para a guerra. Lira, A. Tavares de
-1982, pp. 74, 75.
19.
Idem, idem. Nota 18.
20.
Ribard, André – 1964, pp..51 a 56, Vol.. II.
21.
Lira, A. Tavares –
Idem., pp. 77 a 80.
22.
Os motivos dos presentes não foram explicados, mas,
presume-se que os holandeses pretendiam fazer com que os
Tarairiú não provocassem a guerra, nem deixassem de
continuar seus aliados. Cascudo, Luis da Câmara -1957,
p. 70.
23.
Após a morte de Rabe – 1646, Janduí manifestou o seu
protesto ao governo flamengo, acrescentando que esperava
receber em sua aldeia, a pessoa do coronel Garstman –
para vingar ou fazer a sua justiça ao que aconteceu com
Rabe. Porque não houve o atendimento a esse pedido,
Janduí esteve em vias de romper com os holandeses.
Lira, A. Tavares de – Idem, p. 84.
24.
O rio Picuí despeja e faz a bacia
da Barragem Marechal Dutra, antiga Gargalheiras,
ex-lagoa Macaguá, seguida pelo rio Acauã, no município
do Acari. Mapa Político e Rodoviário do Rio Grande do
Norte, 1997.
25.
Idem, Nota 24, idem.
26.
O diário de Rodolfo Baro {1647} como monumento aos índios
Tarairiú do Rio Grande do Norte,
este é o título do artigo escrito pelo prof. B.N.
Teensma – 2000 – pp.81 a 99. Idem, Nota 3.
27.
”Provavelmente jaz enterrado em qualquer sítio sobre
o rio Potengí” – afirma B.N. Teensma, 2000, p.96,
sobre a morte de Baro, sem adiantar outras considerações
acerca deste assunto que faz parte, não somente da história
do Brasil, como da Holanda, França e toda Europa.
28.
A queima de
arquivo ou morte de Baro era do interesse do coronel
Garstman, a exemplo
do que verificou-se com Rabe, pois ambos viveram mais em
defesa dos indígenas, segundo as suas ações, ao contrário
do que foi comprovado na política
confusa dos colonizadores europeus. Nota do
autor.
29.O
pedido de demissão feito por Baro, sem apresentar
justificativa aos diretores da WIC em Pernambuco, teria
por base a negação de uma solicitação para que ele
pudesse iniciar a criação de gado em 1648 na fazenda
Jacaré-Mirim, próxima do rio Potengí, atual município
de São Gonçalo do Amarante, onde atualmente a figura
do seu primeiro dono, é totalmente desconhecida. Mello,
José Antonio Gonsalves de – 1987, p..213. Nota do
autor.
30.O
crime do coronel Joris Garstman, comandante do forte
Santos Reis, contra dois auxiliares do governo holandês
no Rio Grande, pode ter sido efetuado, sem efeitos
judiciais para este, a exemplo do que verificou-se no caso de Rabe, razão
pela qual, mesmo não estando na função militar de
comandante da unidade em questão, ele teria combinado
com o seu sucessor, em mandar alguém assassinar Baro,
enquanto ele – Garstman estivesse no Recife, fazendo
esclarecimentos sobre Rabe, após ter sido chamado –
1647, com
essa finalidade, depois do que viajou à Holanda.
Cascudo, Luis da Câmara – 1955, p. 70. Nota do autor.
31.Em
cima dessa estimativa do meio turístico - pode-se
Ademir a necessidade para que os norte-rio-grandenses e
s reconheçam os valores dos povos indígenas extintos
do RN e todo o Nordeste, mediante, pelo menos, o
trabalho de estudo e pesquisa, visando ampliar os
conhecimentos sobre a cultura dos Tarairiú, assim como
do que foi realizado por Baro, durante os 38 vividos no
Nordeste, mais precisamente no RN. Nota do autor.
32.Isto
é o apelo que fazemos aos habitantes do Acarí,
especialmente aos seus professores e estudantes,
inclusive aos que vivem e trabalham em Natal, outras
capitais, pois somente com a participação social –
será possível criar e fazer a mudança dos hábitos e
costumes em que vivemos. Nota do autor.
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