Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

Reverência à   Condessa européia   que nasceu em Mossoró

 

--- Walter Medeiros

 

Nesta noite enluarada,

Que causa tanta emoção,

Vou contar com gratidão

Uma história delicada

De vida, luta, aflição,

Amor e revolução,

A mais vibrante jornada.

 

Tudo um dia começou

Na terra de Mossoró,

Que de escravos teve dó

E Lampião expulsou,

Quando ainda era menor

Foi procurar outro sol

Para Natal se mudou.

 

Eu falo de uma menina

Conhecida por Laly

Que estudou por ali,

Mas carregava uma sina,

Ia se sobressair

Numa luta de zunir

E virou uma heroína.

 

No grupo Augusto Severo

Ela estudou o primário

Em outros educandários

Estudava com esmero,

No curso universitário

Teve um tempo bem precário

Mesmo dançando bolero.

 

Ainda secundarista

Já era politizada

Logo estava entrosada

Tinha uma meta em vista

E terminou enrascada

Pois foi um dia acusada

Até de ser comunista.

 

Ela pertenceu à JEC

Juventude Estudantil

Católica e varonil

Que não agradava ao MEC

E no golpe de abril

Logo o que o povo viu

Foi um desmando sem breque.

 

No curso de Medicina

Sem alarde nem batuque

Ele se mudou prá JUC

Com seu jeito, sempre fina,

Queriam até no muque

Sem adotar nenhum truque

Mudar o mal da rotina

 

Foi militante de AP

Numa perigosa fase

Amplas reformas de base

Ela queria fazer

Ninguém era kami kase

Mas diziam numa frase

“Se precisar, vou morrer!”. 

 

E no golpe de abril

ano de sessenta e quatro

só vendo o seu relato

prá saber o que sentiu

diziam-lhe “eu te mato!”

esse foi um triste fato

que a imprensa não cobriu.

 

Ninguém podia informar

O que estava acontecendo

Os homens iam prendendo

Prá matar e humilhar

Mas foram logo dizendo

Que aquele fato horrendo

A censura ia cortar.

 

Antes de ir prá cadeia,

Laly já desconfiava

Que alguém lhe procurava

E diante da sala cheia

Sem dizer uma palavra

Àquele que lhe levava

Sentia a coisa feia.

 

No Dezesseis RI

Ela foi encarcerada

Dois meses ficou trancada

Refletindo no porvir

Até que foi liberada

Numa medida impetrada

Que teve de discutir.

 

Foi o Doutor Otto Guerra

Que conseguiu a façanha

E num belo dia ganha

Forte causa em sua terra

Numa tortura medonha

Laly saiu bem tristonha,

Mas bom cabrito não berra.

 

Quiseram até lhe matar,

Levaram ao pé do morro

Ela pensou “eu não corro!”

Pois só ia piorar

Não tinha nenhum socorro,

Só via homem de gorro

A toda hora chegar.

 

Perseguida e vigiada

Ela passou a viver

Tudo queriam saber

Vivia incomodada

Mas não deixou de fazer

O que era seu dever

De militante engajada.

 

Aos amigos ela falava

Como foi triste a prisão

Muito medo e solidão

Ninguém nada explicava

Não há mais triste emoção

Que se ver sem proteção

Onde tudo ameaçava.

 

O futuro era incerto

Podia voltar detida

E o sonho da sua vida

Parecia um deserto

Sentiu-se até perdida,

Mas encontrou acolhida

Num ambiente esperto.

 

Do jeito que ela estava

Disseram vai embarcar

Não interessa o lugar

Só sabia que escapava

Das buscas de torturar

Que vivia a enfrentar

Por onde ala passava.

 

Com a roupa que estava

Ela pegou o avião

Depois lá no Geleão

Um amigo encontrava

Um passaporte na mão

Dava toda condição

Pois o seu nome mudava.

 

Foi embora prá Paris,

Viver uma nova vida,

Sem direito a despedida

Como seu destino quis.

Exilada e destemida,

Nunca mais se viu detida

Nem a vida por um triz.

 

Até hoje é impressionada

Com gente que lhe ajudou

Dinheiro lhe arranjou

Para não chegar sem nada

Na França se confirmou

O apoio de um doutor

Que deu uma mão dobrada.

 

Logo em um hospital

Começou a trabalhar

Tinha que se ambientar

Senão seria fatal

De tanto se dedicar

Depois ganhou um lugar

De valor fenomenal.

 

Sozinha apesar de tudo

Falou o francês na marra

Mais uma mostra da garra

Que tinha para o estudo

Nunca foi de fazer farra

Mas admirava parra

Em algum momento mudo.

 

Pensava em sua gente

Sofria mas agüentava

Até nem adiantava

Querer algo diferente

O informe que chegava

Cada vez mais afastava

Do “país que vai prá frente”. 

Certo dia ofereceram

Um bom lugar prá morar

Mesmo sem pestanejar

Os dados lhe convenceram

Um homem foi lhe buscar

Ajudou a se instalar

E assim se conheceram.

 

O dono do apartamento

Era solteiro e elegante

Procurando ser galante

Logo criou um intento

Com pouco tempo adiante

Namoravam o bastante

Prá pensar em casamento.

 

Resolveram se casar

Os amigos apoiaram

Logo se acomodaram

Fazendo um novo lar

Cada um tinha o amparo

De um sentimento claro

Pro mundo abençoar.

 

Há mais de quarenta anos

Vivendo em sua Paris

Hoje o que ela diz

Sem medo de ser engano

Que a realidade quis

Mantê-la em nova matriz

Pelos direitos humanos.

 

O seu belo casamento

Conteve um algo mais

Simplesmente o rapaz

Com beleza e com talento

Tinha ligações reais

Trazidas de ancestrais

Veja só que novo alento.

 

Essa história tão espessa

Tem detalhes prá valer

Todo mundo foi saber

Que ela virou Condessa.

Mesmo sem se converter

Ela mudou seu viver

Mas não virou a cabeça.

 

Antes mesmo de casar

Para não haver engano

O ideal republicano

Fez questão de ressaltar

Entra ano e sai ano

Nada lhe muda o plano

De viver e trabalhar.

 

Depois de anos passados

A ditadura acabou

Ela também festejou

O fim dos anos malvados

Que tanta gente matou

Perseguiu e torturou

Fazendo ficar calados.

 

Depois de anistiada

Ela teve outra emoção

Ao pisar o belo chão

Da sua pátria amada

Mas seu forte coração

Mostra que não foi em vão

Sua vida exilada.

 

No hospital Saint Anne

Chefia um departamento

Com seu grande pensamento

Nenhum perigo ela teme

Foi-se o tempo de tormento

Agora a brisa e o vento

Parece o ar de um convento.

 

Vez por outra ela vem

Visitar sua família

É sempre uma vigília

De gente que lhe quer bem

Agora é uma maravilha

Porque sempre compartilha

Com todo o povo também.

 

Aquela forte mulher

De olhar tão delicado

Traz no rosto o passado

De luta e muita fé

Exércitos e soldados

É que estavam errados

Pois ela ficou de pé.

 

O seu nome por inteiro

Até agora eu não disse

Seria uma esquisitice

Um lapso verdadeiro

Se dessa estrofe partisse

Sem que aqui eu referisse:

Chamava Laly Carneiro.

 

Agora, gente, termino

Esses versos de emoção

Feitos com o coração

Sobre coisas do destino

Viva Laly, meu irmão

Pois é o melhor padrão

Com razão eu me fascino.

 

FIM

 

  

LEIA TAMBÉM

Poemas de Walter Medeiros

e-mail 

Poemas de CORDEL

(*) O conteúdo deste site pode ser reproduzido, desde que citada a fonte e o uso não seja para fins comerciais.

VISITANTES