Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

A história do espelho que mostrava as pessoas nuas

 

--- Walter Medeiros

 

Vou contar para vocês

algo bem interessante:

a história de um instante

que sonhei uma certa vez;

falo sobre um espelho

diferente dos que temos,

que eu não sei quem o fez.

 

Estava eu no meu sonho

andando pela cidade,

isso é a pura verdade,

mas pode ficar bisonho;

de repente vi um padre

chamando prá um salão,

que tinha algo de estranho.

 

Confesso que eu fiquei

um tanto até cismado,

fui olhando pelos lados

mas no salão adentrei;

foi aí que aconteceu

de ver a coisa estranha

e logo eu me assustei.

 

O padre ria e mandava

que eu chegasse mais perto,

podia ser muito esperto

mas qualquer um se chocava;  

ele olhava e sorria

do meu aspecto surpreso,

mas eu não me conformava. 

 

Na minha mente eu tinha

muita interrogação:

aquela situação

seria uma pegadinha?

Não era, era bem real;

uma coisa colossal,

estava tudo na linha.

 

Mas eu fui  me aproximando,

cada vez me convencendo

daquilo que estava vendo,

do que ele estava mostrando;

era algo misterioso,

que me deixou curioso,

fiquei impressionado.

 

Prá encurtar a história

vou lhe dizer o que vi

e o que logo senti

vivendo aquela hora:

era um espelho estranho,

que mesmo a gente vestido

deixava nu sem demora.

 

A gente estava com roupa

e aparecia despido;

fiquei todo inibido

mas o espelho não poupa:

apresenta a nudez,

foi isso que ele fez,

a mim ele não deu sopa.

 

Quando parei em sua frente

e o espelho contemplei,

confesso que me assutei

embananou minha mente;

pois eu nunca imaginei

encontrar em minha vida

imagem tão diferente.

 

A primeira reação

que tive ao ver a imagem,

foi procurar a coragem

de enfrentar a situação;

mas fiquei estupefato

que não consegui sequer

mexer com nenhuma mão.

 

Que estaria acontecendo?

Perguntava a mim mesmo;

eu indagava a esmo,

se todos estavam vendo;

pois me senti sem poderes

para mudar o ambiente

e o que estava a contecendo.

 

Sentado lá no seu canto

aquele padre me olhava;

sorria e sem palavras

me confundia um tanto; 

e tudo que eu almejava

naquela estranha hora

era cobrir-me com um manto.

 

Depois, uma multidão

pelo espelho passou

e cada um que olhou

vestiu-se só com a mão;

todo mundo bem confuso

entrava em parafuso

na estranha situação.

 

Subitamente o problema

findou sendo resolvido;

senti que tinha partido

sem nenhum estratagema.

Se ali estava despido,

apareci bem vestido:

acordei, saí de cena.

 

FIM

 

  

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