Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

O Susto e o medo do sobrinho do Cangaceiro Jararaca

 

--- Walter Medeiros 

 

As quebradas do sertão

Têm muita coisa guardada

Muita história engraçada

Do tempo de Lampião

Tem até gente assustada

Com as coisas reveladas

Mesmo longe do grotão.

 

Pois aqui nesse alpendre

Onde a coroa de frade

É um enfeite da saudade

Que só quem viveu entende

Noventa anos de idade

É o crédito da verdade

E não há quem lhe contende.

 

No tempo de Lampião

Ela inda era um menino

Mas assistiu ao destino

Prá grande má criação

Seu tio num desatino

Apanhou de cagar fino

E se mandou sem perdão.

 

Muito tempo se passou

Ninguém nem mais se lembrava

Mas nosso amigo escutava

Uma história de horror

O cangaço atacava

E muita gente matava

Em todo interior.

 

Sebastião, nosso amigo,

Ouvia tudo atento,

A pé ou no seu jumento

Ao relento ou no abrigo

Pois lá no seu firmamento

Os dias eram sangrentos

Pode crer no que eu digo.

 

Depois de anos seguidos

Seu tio não deu notícia

Tião não tinha malícia

Sobre os rapazes sumidos

Não havia nem polícia

Parecia fictícia

Saga do filho perdido.

 

Rodrigues todos chamavam

O jovem que foi embora

Todos sabiam agora

Como a coisa se passara

Sua mãe, bela senhora,

Com um grande par de esporas

Na caatinga desfilava.

 

Vez por outra se lembravam

Daquele menino forte

Que enfrentava até a morte

E a ninguém se dobrava

Não praticava esporte

Mas conhecia seu norte

E dele não arredava.

 

Um dia quis ser infante

Mas não era seu destino

Pois viu Antônio Silvino

Naquele quente quadrante

Não era um cabra fino

Mas sempre teve domínio

Acertava alvo distante.

 

Destemido feito aço,

Saiu então pela vida

E sua maior guarida

Findou sendo o cangaço

Lampião veio em seguida

E uma história dolorida

Findou sendo o seu espaço

 

Nas andanças que andou

Usava bem seu punhal

Protegia seu bornal

Nunca ninguém lhe tocou

Xaxava e comia sal

Não queria fazer mal

Mas disso não escapou.

 

Fez tudo que o bando quis

Tinha amigo e inimigo

Uns matava pelo umbigo

Ou sangrava no nariz

Tudo isso que eu digo

É apenas o que ligo

Sebastião quem me diz.

 

Nunca precisou de dó

Durante a sua vida

Que findou sendo perdida

Quando foi a Mossoró

Na cidade destemida

Ficou cheio de ferida

Sua sorte foi cotó.

 

Pois Rodrigues que eu falo

Quando entrou para o bando

Já chegava se chamando

Com um nome que é talo

Um forte cabra lutando

Tinha até certo comando

Para outros respeitá-lo.

 

Conhecido pela faca

Fez fama pelas estradas

Tinha gente apavorada

Se abriam a matraca

Pois aquele camarada

Que viveu tanta jornada

Era o cabra Jararaca.

 

Mas aquele cangaceiro

Que saiu lá do sertão

Era o tio de Tião

Lutava até por dinheiro

Protegia seu gibão

Sem qualquer contemplação

Passava até atoleiro.

 

Tião disse pros seus netos

Sobre aquele seu parente

Como era algo diferente

Muitos ficaram discretos

Mas às vezes sua gente

Até fica bem contente

Faltam dele com afeto.

 

Um dos netos, certo dia,

Numa aula de história

Sentiu uma certa glória

Quando o professor dizia

Que era uma forte memória

Não uma simples escória

Nem tudo que se dizia.

 

Falava sobre pataca

Essas coisas que eu rimo

E prá saber se Severino

Conhecia Jararaca

Num gesto de certo mimo

Ele disse “é meu primo”

E os colegas riram paca.

 

Mas o rapaz ficou sério

Todo mundo lhe olhando

E ele foi confirmando

Com certo ar de mistério

O professor foi falando

E os dados confirmando

Fazendo seu magistério.

 

Ao ver que era verdade

Os rostos foram mudando

E mais foram perguntando

Quanta curiosidade!

O jovem segue explicando

Muitas dúvidas tirando

Com toda simplicidade.

 

Depois daquele momento

Levaram na esportiva

Era uma turma viva

Queria ficar por dentro

Tinham sempre uma assertiva

E depois tudo deriva

Da força do pensamento.

 

Quando aparecia alguém

Que o jovem não conhecia

Alguém logo então dizia

Sem fazer qualquer desdém

O parentesco que havia

Era tudo uma alegria

Não escapava ninguém.

 

Sobrinho de Jararaca,

Era mesmo que dizer

Que ninguém pode mexer

Pois era o homem da faca

Faca prá se defender,

Prá matar e não morrer

E até prá partir jaca.

 

Mas Severino é tranqüilo

Acham um belo rapaz

Dizem até que é de paz

E tem o melhor estilo

O tempo não vai prá traz

Cangaço não volta mais

E ninguém quer mais segui-lo.

 

Termino essa narração

Não estou arrependido

Sinto meu dever cumprido

Essa é minha opinião

Espero ter atendido

A um antigo pedido

Do povo dessa Nação.

 

FIM

  

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