O Jeca
Tatu de Monteiro Lobato
--- Medeiros Braga
Eu vou recontar em
versos
O que Lobato contou
No seu livro “URUPÊS”
No qual se imortalizou
Ao externar seu
talento
No Jeca que projetou.
Essa obra foi escrita
No início do século
vinte,
Há mais de noventa
anos
E, assim, por
conseguinte,
Só se escrevia ao
agrado
Das elites de
requinte.
Abriu Monteiro Lobato
Na nossa literatura
A trilha e a caminhada
Para uma nova cultura
Onde o homem fosse
alvo
Da melhor propositura.
Até a SEMANA DA ARTE
MODERNA , ele
antecedeu
O realismo com
sucesso
Que
“URUPÊS” envolveu
Levou muitos a
escrever
Como ele próprio
escreveu.
Porém, Monteiro
Lobato,
Esse genial escritor,
Já fazia suas críticas
A todo historiador
Que maquia personagens
E lhes dá falso
valor.
A manipulação à memória
Falseando o velho e o
novo
Limita qualquer história
(E eu por isso
reprovo)
A uma sala de visita
Da realidade do povo.
Ele parte da premissa
Que não há com
precisão
Um historiador confiável,
Um escritor pé-no-chão
Que extirpasse do
ventre
As mazelas da nação.
Não se falava do povo
Nem da miséria que
grassa,
Daí que Monteiro
Lobato
Levando o protesto às
praças
Resolveu por no debate
O sentimento das
massas.
Causa e efeito é a
ordem
Do método que é
aceito,
Mas, na prática a
inversão
Acontece em qualquer
feito,
Pois, só se chega às
causas
Investigando os
efeitos.
Foi por isso que
Lobato,
Denotando mais sufoco,
Teve que alfinetar
O Jeca e seu mundo
louco,
Abrir seu livro da
vida
E conhecer mais um
pouco.
E começou a
investigar
Sua rude indiferença
Sua maneira de agir
De ditar sua sentença
Relatando com minúcias
Onde marcara presença.
E disse: quando D.
Pedro
Anuncia o fim do
estorvo
No grito de independência
Para o Brasil e seu
povo
Jeca Tatu só espia
E se acocora de novo;
Quando a princesa
Izabel
A abolição assinala
Sonorizando os
tambores
Pelo quilombo e
senzala,
Jeca Tatu só
“magina”,
Coça a cabeça e não
fala;
Quando Floriano
Peixoto
Fez estourar sua
granada,
Levando o pavor aos
lares
Com uma gente
assassinada,
De cócoras Jeca Tatu
Não liga
nada-com-nada.
Com sua língua
travada
Senta sobre os
calcanhares,
Se se levanta não
deixa
Fugir a voz pelos
ares,
Não se interessa por
fatos
Do Brasil, nem de além-mares.
Acocora-se para tudo
Que deseja ou não
fazer,
Se vai triturar o
fumo,
Cortar a palha,
acender,
Amolar enxada, a
foice,
Tomar café ou comer.
Se acaso encontra
algum
Amigo íntimo, é
quando,
Mesmo apressado, ele pára
E, enquanto está
conversando,
Pra conservar o seu hábito
Vai logo se
acocorando.
Sua índole de
acrobata
Traduz-se em atos fiéis,
Com todo peso se
agacha
Impecável e sem revés
Se equilibrando por
horas
Sobre os dois dedãos
dos pés
Jeca Tatu só produz
Aquilo que necessita
E todo o seu excedente
É para a troca
restrita
Qual roupa de
arranca-toco
E algum vestido de
chita.
Ele traz para a
cidade,
Com o fito de
permutar,
Guaribolas, coco
verde,
Banana, manga, cajá,
Farinha de mandioca,
Batata, maracujá.
Traz ainda um caititu,
Galinha de capoeira,
Ovos bem novos,
gostosos,
Que são vendidos na
feira,
E mais...para quem
quiser,
Tem uma égua
parideira
E quando instado a
falar
De forma lúcida,
serena,
No incentivo ao
aumento
Da produção tão
pequena,
Jeca Tatu se limita
A dizer: “não paga
a pena”.
Da terra só a
mandioca
Com o milho pra fazer
pão
E a cana que dá
garapa
E rapadura ao montão...
Dum rolete tem-se o açúcar
Para o ponche de limão.
No lar do Jeca Tatu
A mobília é uma
asneira,
A munheca é a colher
Por ser prática e
ligeira,
Um só banco de três
pernas
E uma cama de esteira.
Segundo o Jeca, a
munheca
É faca, é garfo, é
colher,
Bem pode ser ela usada
Ao tempo que se
quiser,
Torna a comida
gostosa,
Não dá trabalho à
mulher.
No mais se pode ali
ver
De súbito, com precisão,
Cuia, cabaça, gamela,
Marmita lenha, fogão,
Pote de barro, um
caneco
E a panela de feijão.
Eis num gancho à
cumeeira
O toucinho pendurado,
O polvarinho de chifre
Está na parede ao
lado
E a espingarda
pica-pau
Presa a um osso de
gado.
A casa é toda de
taipa,
Feita de vara e estaca
A pique e barro
pastoso
Nessa armação se
ensaca
Tornando a parede sólida,
Nem tão forte, nem tão
fraca.
Todo o seu teto é de
palha
E o piso é barro
batido,
O fogão fora de casa
Com três pedras
construído,
Só pedra grande, e se
chove
Para dentro é
removido.
Na casa desse caboclo
Se algum defeito
aparece
Não se conserta, mantém-se
E o problema
engrandece,
É quando Jeca Tatu
Seu todo restabelece.
Se aparece uma goteira
Na palhoça avariada
O maior trabalho e ação
Na iniciativa tomada
É por ali, pra
aparar,
Uma gamela e mais
nada.
A lei do menor esforço
É por demais
respeitada,
Se cai a massa da casa
Jamais é recolocada,
Sequer a mata que
nasce
Pelo terreiro é roçada.
Até as árvores frutíferas
Tão vitais ao ser
humano
Só há aquelas que
nascem
Do poder do soberano,
Não há jardim, não
há horta
Pra um melhor
cotidiano.
Porém, por Jeca Tatu
.E em mais alguma
ribeira
Tem o caboclo a
mezinha,
Na sua ação
curadeira,
Um farto material
De medicina caseira.
Tem ervas, casca de
pau,
Sementes as mais
variadas,
Muitas espécies de grãos,
Folhas de mato
afamadas
E as tradições
caboclas
Que são por lá
cultuadas.
Água de beiço-de-pote
Pra brotoeja é um
estouro,
Pra curar a dor de
peito
Chá de
jasmim-de-cachorro,
Parto difícil... se
engole
Um pouco de feijão
mouro.
Facada ou carga de
chumbo
Basta encontrar e
comer
Uma flor de samambaia
Que irá sobreviver,
Saindo da fila da rede
Que é usada após
morrer.
Para quebranto de
ossos
Muita erva é
misturada,
Já a cura pra
bronquite
É feita por cusparada
Na boca de um peixe
vivo
Que volta à água
parada.
Se nada disso resolve
Dentro do tempo
esperado
Se busca o São
Benedito,
O seu poder defumado,
As águas bentas e o
rabo
De tatu tão
consagrado.
Fica o enfermo
angustiado
Naquele estado de
perda...
Mas se usar bem do
artifício
A cura o santo não
veda,
Se seguir as instruções,
Com certeza, é tiro e
queda.
Jeca Tatu vai às
feiras,
Bem como, à missa
constante,
Lá se ajoelha,
confessa,
É católico
praticante...
Porém, votar no
governo
Pra ele é o mais
importante.
Com a roupa do
casamento
E os sapatos já sem
cor
Sai mancando pra
pegar,
Com o mais ingênuo
fervor
Junto a seu chefe político,
Seu diploma de
eleitor.
Votando, não sabe em
quem,
Encerra a destinação,
Devolve o diploma ao
chefe,
Recebe um aperto de mão
E a lembrança da
promessa
Pra bem depois da eleição.
Porém, todo
sentimento
De pátria é
desconhecido,
Nação, povo solidário,
Pra Jeca não faz
sentido...
E se atacado o país
Não toma nenhum
partido.
Guerra?... “te
esconjuro!...”
Teme o recrutamento,
E pra dele se livrar
Seria, no insano
senso,
Capaz de cortar um
dedo
Como fez seu tio
Lourenço.
É esse o Jeca Tatu
Que se imbuiu no urupê,
Na festa dos tangarás,
Dançando o cateretê
Onde há abelhas de
sol
E coisas que só ele vê.
É esse o Jeca Tatu
Cheio de idas e voltas
Que vai, ao canto
estridente
Das cigarras e
gaivotas
Modorrando silencioso
Pelo recesso das
grotas.
É esse o Jeca Tatu
Que de face
enternecida
Não canta, não ri, não
ama,
Não fala de voz
erguida,
Nem consegue viver bem
No meio de tanta vida.
Mas, pra Monteiro
Lobato,
Jeca Tatu foi, então,
O resultado grotesco
Do modelo de gestão
Que se implantou no país
Mas, jamais, por opção.
Conhecendo todo efeito
Pelas ações
passageiras
A demência, a ignorância
E as doenças
corriqueiras,
Chegou ele à conclusão
Das suas causas
verdadeiras
E o Instituto Oswaldo
Cruz
Mostrou com maior
clareza
Milhões com chaga,
malária,
Ankilostomose,
fraqueza,
Que só levaram ao
povo
Miséria, atraso,
pobreza.
Então o grande
escritor
Compenetrado, por fim,
Ao analisar os dois
lados
Do Jeca, o bom e o
ruim,
Concluiu que o caboclo
“Não é assim, está
assim.”
Sem ter receios de
errar
Sob este teto de anil,
Digo com convicção
Que, retratado o
perfil,
O infeliz Jeca Tatu
Tem a cara do Brasil.
Brasil que grassa apático
Pelo seu braço
cruzado,
Brasil caboclo onde
sofre
Um povo hospitalizado,
Brasil análfa que
vota
Subserviente e errado.
Esse imenso
contingente
De jecas, sempre
atuais,
Encurralados,
sofrendo,
As mazelas sociais
Estão nas filas de
emprego
Ou nos leitos de
hospitais.