Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

O Jeca Tatu de Monteiro Lobato

 

--- Medeiros Braga

 

Eu vou recontar em versos

O que Lobato contou

No seu livro “URUPÊS”

No qual se imortalizou

Ao externar seu talento

No Jeca que projetou.

 

Essa obra foi escrita

No início do século vinte,

Há mais de noventa anos

E, assim, por conseguinte,

Só se escrevia ao agrado

Das elites de requinte. 

 

Abriu Monteiro Lobato

Na nossa literatura

A trilha e a caminhada

Para uma nova cultura

Onde o homem fosse alvo

Da melhor propositura.

 

Até a SEMANA DA ARTE

MODERNA , ele antecedeu

O realismo com  sucesso

Que  “URUPÊS” envolveu

Levou muitos a escrever

Como ele próprio escreveu.

 

Porém, Monteiro Lobato,

Esse genial escritor,

Já fazia suas críticas

A todo historiador

Que maquia personagens

E lhes dá falso valor. 

 

A manipulação à memória

Falseando o velho e o novo

Limita qualquer história

(E eu por isso reprovo)

A uma sala de visita

Da realidade do povo.

 

Ele parte da premissa

Que não há com precisão

Um historiador confiável,

Um escritor pé-no-chão

Que extirpasse do ventre

As mazelas da nação.

 

Não se falava do povo

Nem da miséria que grassa,

Daí que Monteiro Lobato

Levando o protesto às praças

Resolveu por no debate

O sentimento das massas. 

 

Causa e efeito é a ordem

Do método que é aceito,

Mas, na prática a inversão

Acontece em qualquer feito,

Pois, só se chega às causas

Investigando os efeitos. 

 

Foi por isso que Lobato,

Denotando mais sufoco,

Teve que alfinetar

O Jeca e seu mundo louco,

Abrir seu livro da vida

E conhecer mais um pouco.

 

E começou a investigar

Sua rude indiferença

Sua maneira de agir

De ditar sua sentença

Relatando com minúcias

Onde marcara presença.

 

E disse: quando D. Pedro

Anuncia o fim do estorvo

No grito de independência

Para o Brasil e seu povo

Jeca Tatu só espia

E se acocora de novo;

 

Quando a princesa Izabel

A abolição assinala

Sonorizando os tambores

Pelo quilombo e senzala,

Jeca Tatu só “magina”,

Coça a cabeça e não fala;

 

Quando Floriano Peixoto

Fez estourar sua granada,

Levando o pavor aos lares

Com uma gente assassinada,

De cócoras Jeca Tatu

Não liga nada-com-nada.

 

Com sua língua travada

Senta sobre os calcanhares,

Se se levanta não deixa

Fugir a voz pelos ares,

Não se interessa por fatos

Do Brasil, nem de além-mares.

 

Acocora-se para tudo

Que deseja ou não fazer,

Se vai triturar o fumo,

Cortar a palha, acender,

Amolar enxada, a foice,

Tomar café ou comer.

 

Se acaso encontra algum

Amigo íntimo, é quando,

Mesmo apressado, ele pára

E, enquanto está conversando,

Pra conservar o seu hábito

Vai logo se acocorando.

 

Sua índole de acrobata

Traduz-se em atos fiéis,

Com todo peso se agacha

Impecável e sem revés

Se equilibrando por horas

Sobre os dois dedãos dos pés

 

Jeca Tatu só produz

Aquilo que necessita

E todo o seu excedente

É para a troca restrita

Qual roupa de arranca-toco

E algum vestido de chita.

 

Ele traz para a cidade,

Com o fito de permutar,

Guaribolas, coco verde,

Banana, manga, cajá,

Farinha de mandioca,

Batata, maracujá.

 

Traz ainda um caititu,

Galinha de capoeira,

Ovos bem novos, gostosos,

Que são vendidos na feira,

E mais...para quem quiser,

Tem uma égua parideira

 

E quando instado a falar

De forma lúcida, serena,

No incentivo ao aumento

Da produção tão pequena,

Jeca Tatu se limita

A dizer: “não paga a pena”.

 

Da terra só a mandioca

Com o milho pra fazer pão

E a cana que dá garapa

E rapadura ao montão...

Dum rolete tem-se o açúcar

Para o ponche de limão.

 

No lar do Jeca Tatu

A mobília é uma asneira,

A munheca é a colher

Por ser prática e ligeira,

Um só banco de três pernas

E uma cama de esteira.

 

Segundo o Jeca, a munheca

É faca, é garfo, é colher,

Bem pode ser ela usada

Ao tempo que se quiser,

Torna a comida gostosa,

Não dá trabalho à mulher.

 

No mais se pode ali ver

De súbito, com precisão,

Cuia, cabaça, gamela,

Marmita lenha, fogão,

Pote de barro, um caneco

E a panela de feijão.

 

Eis num gancho à cumeeira

O toucinho pendurado,

O polvarinho de chifre

Está na parede ao lado

E a espingarda pica-pau

Presa a um osso de gado.

 

A casa é toda de taipa,

Feita de vara e estaca

A pique e barro pastoso

Nessa armação se ensaca

Tornando a parede sólida,

Nem tão forte, nem tão fraca.

 

Todo o seu teto é de palha

E o piso é barro batido,

O fogão fora de casa

Com três pedras construído,

Só pedra grande, e se chove

Para dentro é removido.

 

Na casa desse caboclo

Se algum defeito aparece

Não se conserta, mantém-se

E o problema engrandece,

É quando Jeca Tatu

Seu todo restabelece.

 

Se aparece uma goteira

Na palhoça avariada

O maior trabalho e ação

Na iniciativa tomada

É por ali, pra aparar,

Uma gamela e mais nada.

 

A lei do menor esforço

É por demais respeitada,

Se cai a massa da casa

Jamais é recolocada,

Sequer a mata que nasce

Pelo terreiro é roçada.

 

Até as árvores frutíferas

Tão vitais ao ser humano

Só há aquelas que nascem

Do poder do soberano,

Não há jardim, não há horta

Pra um melhor cotidiano.

 

Porém, por Jeca Tatu

.E em mais alguma ribeira

Tem o caboclo a mezinha,

Na sua ação curadeira,

Um farto material

De medicina caseira.

 

Tem ervas, casca de pau,

Sementes as mais variadas,

Muitas espécies de grãos,

Folhas de mato afamadas

E as tradições caboclas

Que são por lá cultuadas.

 

Água de beiço-de-pote

Pra brotoeja é um estouro,

Pra curar a dor de peito

Chá de jasmim-de-cachorro,

Parto difícil... se engole

Um pouco de feijão mouro.

 

Facada ou carga de chumbo

Basta encontrar e comer

Uma flor de samambaia

Que irá sobreviver,

Saindo da fila da rede

Que é usada após morrer.

 

Para quebranto de ossos

Muita erva é misturada,

Já a cura pra bronquite

É feita por cusparada

Na boca de um peixe vivo

Que volta à água parada.

 

Se nada disso resolve

Dentro do tempo esperado

Se busca o São Benedito,

O seu poder defumado,

As águas bentas e o rabo

De tatu tão consagrado.

 

Fica o enfermo angustiado

Naquele estado de perda...

Mas se usar bem do artifício

A cura o santo não veda,

Se seguir as instruções,

Com certeza, é tiro e queda.

 

Jeca Tatu vai às feiras,

Bem como, à missa constante,

Lá se ajoelha, confessa,

É católico praticante...

Porém, votar no governo

Pra ele é o mais importante.

 

Com a roupa do casamento

E os sapatos já sem cor

Sai mancando pra pegar,

Com o mais ingênuo fervor

Junto a seu chefe político,

Seu diploma de eleitor.

 

Votando, não sabe em quem,

Encerra a destinação,

Devolve o diploma ao chefe,

Recebe um aperto de mão

E a lembrança da promessa

Pra bem depois da eleição.

 

Porém, todo sentimento

De pátria é desconhecido,

Nação, povo solidário,

Pra Jeca não faz sentido...

E se atacado o país

Não toma nenhum partido.

 

Guerra?... “te esconjuro!...”

Teme o recrutamento,

E pra dele se livrar

Seria, no insano senso,

Capaz de cortar um dedo

Como fez seu tio Lourenço.

 

É esse o Jeca Tatu

Que se imbuiu no urupê,

Na festa dos tangarás,

Dançando o cateretê

Onde há abelhas de sol

E coisas que só ele vê.

 

É esse o Jeca Tatu

Cheio de idas e voltas

Que vai, ao canto estridente

Das cigarras e gaivotas

Modorrando silencioso

Pelo recesso das grotas.

 

É esse o Jeca Tatu

Que de face enternecida

Não canta, não ri, não ama,

Não fala de voz erguida,

Nem consegue viver bem

No meio de tanta vida.

 

Mas, pra Monteiro Lobato,

Jeca Tatu foi, então,

O resultado grotesco

Do modelo de gestão

Que se implantou no país

Mas, jamais, por opção.

 

Conhecendo todo efeito

Pelas ações passageiras

A demência, a ignorância

E as doenças corriqueiras,

Chegou ele à conclusão

Das suas causas verdadeiras

 

E o Instituto Oswaldo Cruz

Mostrou com maior clareza

Milhões com chaga, malária,

Ankilostomose, fraqueza,

Que só levaram ao povo

Miséria, atraso, pobreza.

 

Então o grande escritor

Compenetrado, por fim,

Ao analisar os dois lados

Do Jeca, o bom e o ruim,

Concluiu que o caboclo

“Não é assim, está assim.”

 

Sem ter receios de errar

Sob este teto de anil,

Digo com convicção

Que, retratado o perfil,

O infeliz Jeca Tatu

Tem a cara do Brasil.

 

Brasil que grassa apático

Pelo seu braço cruzado,

Brasil caboclo onde sofre

Um povo hospitalizado,

Brasil análfa que vota

Subserviente e errado.

 

Esse imenso contingente

De jecas, sempre atuais,

Encurralados, sofrendo,

As mazelas sociais

Estão nas filas de emprego

Ou nos leitos de hospitais.

 

  

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