MARGARIDA
MARIA ALVES
“Tendo
por asas
sua voz / Mais parecia
um albatroz /Combatendo a tempestade.”
--- Medeiros Braga
Talhada para os
entraves,
Pra ser mártir, pra
lutar,
Margarida Maria Alves
Foi uma mulher
exemplar.
Não se afrontando com
nada,
Já nasceu
predestinada
Para a extorsão
arrostar.
Ela foi a presidente
Do aguerrido SINDICATO
DOS TRABALHADOES
RURAIS
Onde havia um
patronato
De prática abominável
Que reagia, implacável,
Do grito ao
assassinato.
Ficava em Alagoa
Grande,
Lá no brejo
paraibano.
No centro canavieiro
De muito usineiro
insano
Cujo dinheiro que iça
Dita o poder e a justiça
No molde mais
desumano;
Até aí,
tais poderosos
Davam a palavra final.
E o fim do trabalhador
Do meio do canavial
Que ousasse reclamar,
Seria, sem perdoar,
Chicote, tiro, punhal.
As carteiras de
trabalho
Eram poucas assinadas,
Não se pagava o salário
Das convenções
acordadas.
Roubados em barracões
E na vara de medições
Das tarefas
trabalhadas.
Nos canaviais não
havia
Morada em nenhum
lugar,
Nem uma sombra de árvore
Pra se poder
descansar...
Em estacas enterradas
Redes à noite eram
armadas
A céu aberto, ao
luar.
As águas para o
consumo
Eram todas poluídas,
Pelos próprios agro-tóxicos
E o uso de inseticidas
Que desciam nas
aguadas
Para os rios, e
retiradas
Sendo, em tudo,
consumidas.
Foi ela grande
guerreira
Que rebelou-se à
vildade,
Da coragem era a
bandeira
Sem medo à
adversidade.
Tendo por asas sua voz
Mais parecia um
albatroz
Enfrentando a
tempestade.
Foi uma líder
sindical
Determinada,
aguerrida,
No meio do canavial
Pondo em risco sua
vida
Lá estava
conscientizando,
Com paciência,
educando,
Toda uma classe
sofrida.
Foi ela para a criança
O sonífero do gemido,
Para as mães uma
lembrança
De um sonho já
esquecido...
E para os
trabalhadores
O analgésico das
dores
Que sente um ser
oprimido.
Na entidade abria
escolas,
Contratava educadores,
Comprava livros,
sacolas,
Para os seus
trabalhadores
Onde se aprendia o ABC
E as condições de
entender
As causas dos seus
horrores.
Onde havia
trabalhadores
Levava pra o
sindicato,
Convencia do seu valor
E da injustiça o seu
ato;
Do viver só
trabalhando
E muitas vezes
faltando
Os alimentos no prato.
No meio dos canaviais
Estava lá Margarida
Dando lições
sindicais
Àquela gente excluída.
Indiferente pra sinas
Ela entrava nas usinas
Pondo em risco a própria
vida.
Repetia da exploração
Que as energias
consome
Provocando a inanição
De quem, raramente,
come
“Que é preferível,marchando,
A gente morrer lutando
Do que morrer pela
fome.”
Lutar por melhor salário
E por um taco de
terra,
Quando o latifundiário
Por todos meios a
emperra,
Passou a ser a
bandeira
Dessa brava
companheira
Dos que sofriam tal
guerra.
Se não há reforma
agrária
Muita gente peregrina
A pecorrer muitas áreas
Pelos vales e
campinas.
Ao pobre, sem grau de
estudo
O destino é acabar
tudo
Nas sarjetas das
usinas.
E, assim, o
trabalhador
Procurou se organizar
E da união, com
fervor,
Começou, pois, a
falar...
E com um poder
coletivo
Passou, então,
combativo
Seu direito a
reclamar.
À medida que discutia
Mais aprendia a lição;
Dos deveres que, só,
via
Enxergou outra versão...
E conhecendo o direito
Com o pé no chão,
mais afeito,
Começou a dizer não.
E o sindicato crescia,
Cresciam as reclamações,
A justiça, então, se
enchia
Com as inúmeras ações...
E do firme crescimento
Vinha o
descontentamento
Que enfurecia os patrões.
E surgiram as
tentativas
De procurar
suborna-la,
Com respostas
negativas
Se passou a ameaça-la.
Mas, leal aos
canavieiros
Não curvou-se aos
usineiros
Nem intimidou-lhe a
bala.
Da agitação que se
encerra
Surgiam novas
conquistas,
Dois hectares de terra
Cediam seus altruístas...
Tinha o operário a
rocinha
E algum dinheiro que
vinha
Das vitórias
trabalhistas.
Não
podendo mais conter
O crescimento da luta,
Outra forma de poder
Tão violenta e astuta
Maquinaram uns
usineiros
Ao contratar
pistoleiros
Pra por um fim à
disputa.
E em certa
boca-de-noite,
Na sua casa,
Margarida,
Ao atender num açoite,
U’a pessoa
desconhecida
Com uma “doze”
apontada
Pra seu rosto,
engatilhada,
Foi, mortal,
surpreendida.
Essa mulher corajosa
Que era bem
propositada,
De forma mais
tenebrosa
Foi, covarde,
assassinada,
E até hoje nenhum
mentor,
Quer mandante ou
matador
Teve a pena computada.
A ganância da riqueza
Com o domínio do
poder,
Revelando uma fraqueza
Para o controle
manter,
Não encontrou outra
saída
Que não fosse
Margarida
Vir a desaparecer.
Deu-se em Alagoa
Grande
A mesma tática de
Canudos,
Ou a prática de
Palmares
Do aniquilamento de
tudo
Que viesse a ser a
premissa
Da função de uma
justiça
Reposta com seus
escudos.
É isso a democracia
Nos moldes
capitalistas,
Quando o poder se
asfixia
E segue a justiça as
pistas,
Lançam mão os
poderosos
Dos atos mais
criminosos
Pra calar
sindicalistas.
Porém, mesmo com a
morte
Sua voz não se calou,
O movimento mais forte
Em Alagoa Grande
ficou;
Pois, pela primeira
vez
Na história ali, um
burguês
Num banco de réu
sentou.
Mas, as sentenças, as
cenas
Foram armações para
circo,
Uma satisfação
apenas
Cumprindo um rito jurídico...
Com leis feitas de
encomenda
Só abre a justiça a
tenda
Para acolher ao mais
rico.