Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

O POETA DOS OPRIMIDOS

"O pior é que a história Quem escreve é o vencedor" Brecht

--- Medeiros Braga

 

Bertold Brecht, dramaturgo,

Poeta de grande valor

Que enfureceu o verdugo

Com o verso libertador,

Dedicou toda sua vida

À uma causa aguerrida

Em prol do trabalhador.

 

Levou a insatisfação

Onde havia indiferença,

Levantou a insurreição

Onde antes era descrença.

Foi um revolucionário

Que despertou no operário

A sua injusta sentença.

 

Nascido na Baviera

Há mais de um século atrás,

Vindo de um berço austero,

Inconseqüente, voraz,

Bertold Brecht foi instado

A seguir do mesmo lado

Conservador dos seus pais.

 

Era o seu pai um burguês

De forte convicção,

Na fábrica foi um severo

Gerente de produção;

No lar um vagão sem trilho

Forçando levar seu filho

Para a mesma formação.

 

Puseram-lhe uma gravata,

Um colete, um palitó,

Pintaram-lhe de plutocrata,

Mas, tudo isso tão-só,

Determinado, prolixo,

Levou a jogar no lixo

Todo esse status sem dó.

 

Todas as ordens de práxis

Para oprimir, explorar,

Foram elas relegadas

Pelo poeta ao enxergar

Que a defesa de sua clava

Firme, se identificava

Com o clamor popular.

 

Foi assim que Bertold Brecht

Desconhecendo o perigo,

Ao se impor ante tiranos

Descobriu um novo abrigo,

E começou com seu verso,

Por todo imenso universo

A incomodar o inimigo.

 

Aos quinze anos de idade

Em versos, por excelência,

Patrióticos, já expunha

Da ideologia a tendência

De ser, como humanitário,

Um agente libertário

De denotada incidência.

 

 

 

Tendo vinte e quatro anos

Chega a ganhar, genial,

Em "OS TAMBORES DA NOITE",

Grande peça teatral

O PRÊMIO KLEIST, imerso, 

Já selando com sucesso

Bom nível intelectual.

 

Todos escritos de Brecht,

Romance, peça, poesia,

Artigos, crônicas e críticas

E tudo o mais que fazia,

No mesmo procedimento,

Expressavam o sentimento

De justiça e rebeldia.

 

No ano de trinta e três

À censura viu-se envolto

Tendo ele que deixar

Da sua pátria, seu porto

Por ter da verve que versa

Escrito a "ofensiva" peça

"A LENDA DO SOLDADO MORTO".

 

Foi a peça considerada

Um acinte pelos sensores,

Tendo Brecht que fugir,

Abandonar seus labores

Para não ser condenado

Aos campos e assassinado

Pelos cruéis transgressores.

 

Escapando do nazismo

Foi aos Estados Unidos,

Mas, ali o capitalismo

Deixou-lhe desiludido...

Julgado, sem prova em vista,

Como "espião comunista"

É, injustamente, punido.

 

Passou por vários países

Tendo sempre por missão

Educar o povo humilde

Pisado sem compaixão...

E alertar o "ignorante

Político" para um instante

Sensato de reflexão.

 

Condenou a classe média

Pela sua insanidade

E os literatos avessos

Às lutas de liberdade...

Outros letrados-alteza

"Que abusaram da beleza

E esconderam a fealdade."

 

O poeta ressentindo-se

Ante o vil dominador

De um poder corrompido,

Proclamou com dessabor

Em desprezível oratória:

"O pior é que a história

Quem escreve é o vencedor.

 

Mais a frente murmurou

Entre as suas reflexões:

"Dos poderosos da terra

Conhecemos as canções.

Eles sobem, depois descem,

Clareiam, mas, escurecem

Como as constelações.

 

Que nós os alimentamos

Já não é grande surpresa...

Que eles subam ou caiam

Quem é que paga a despesa?"

O povo é sempre a corrente:

Move a roda, eternamente,

É quem forma a correnteza.

 

Daí que ele se entregava

À sua luta incontida,

Transformando cada palco

Numa trincheira aguerrida.

Por nunca calar a voz

Quis o seu vil algoz

Por um fim à sua vida.

 

Chegou a uma situação

De reação aos seus atos

Qu' ele em uma reflexão,

Sereno, afirmou sensato,

Relembrando as cicatrizes,

Que trocou mais de países

Do que mesmo de sapato.

 

Foi Brecht um socialista

Que fez a condenação

Do modo capitalista

Dos meios de produção

Onde a classe que produz

Tem por paga a rude cruz

Da miséria e da opressão.

 

Por isso, não vacilava

Na sua grande missão

De unir o trabalhador,

Fazer a conscientização

Para romper, relutante,

Ao jugo vil, humilhante,

Da mais atroz opressão.

 

Não foi como o traidor

Que finge ódio ao burguês,

Se junta aos trabalhadores

E após, com desfaçatez,

Imune a quaisquer conflitos,

Rasga todos seus escritos

E esquece tudo o que fez.

 

Brecht não tergiversou

Na sua ideologia...

Com firmeza  continuou

Em prol do que defendia.

Por atos em todo embate

Sempre externou este vate

Lealdade e rebeldia.

 

Sofreu por onde passou,

Mas, se manteve coerente.

Seu verbo ao trabalhador

Da lição se fez semente.

O seu verso planetário,

Por educar o operário,

Ainda incomoda gente.

 

O caminho inimaginário

Sem lar, sem pátria, sem hino,

Guarnecido por sicário,

Foi ditando o seu destino.

Todo um clamor operário

Fazia-o revolucionário

E o mais audaz peregrino.

 

Estava sempre apressado

Para chegar no "sei onde",

Em algum lugar olvidado

Onde a justiça se esconde,.

Ou indagando do abismo

Onde, junto, o conformismo

Com a miséria se confunde.

 

Falou Brecht, persuasivo,

Aos que esperam sem lutar:

"Querem que tigres convidem

Pra seus dentes arrancar?...

Ou que lobos violentos

Lhes ofereçam alimentos

Ao invés de os devorar?

 

Por isso, nos seus poemas

Ou nas peças teatrais,

Conscientizar, como lema,

Era a luz mais eficaz

A clarear um sistema

De extorsão, de problema

Para as classes sociais.

 

Por vezes se contentava

Ante a injustiça crescente

Quando alguém manifestava

Seu espírito independente

E passava a conclamar

Todo o seu povo a lutar

Por um mundo diferente.

 

Ante os avanços saudou

A luta da humanidade

Por justiça social,

Terra, pão e liberdade,

Por ações socialistas

Que vêm dos idealistas

Dentro da sociedade.

 

Chegou a lançar um método

De laurear lutadores,

Aquele que luta um dia

E que tem os seus valores,

Outros que lutam, humanos,

Dias a mais ou mais anos

E que são bons ou melhores.

 

Porém, a láurea maior,

De justeza indiscutível,

Vai para "aquele que luta

A vida toda"-que incrível!...

Para este, com razão,

É dada com a inscrição:

"Você é imprescindível!!!"

 

Hoje há crime e injustiça,

Porém, há muita revolta,

Bandeira nas praças iça,

Lições há de porta em porta,

E quando um grito maior

Clamar um mundo melhor

Há Brecht decerto em volta.

 

  

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