A sina
do pernambucano inocente que ficou 19 anos preso
--- Walter Medeiros
Neste mundo
esculhambado
Em que temos de viver
Vou contar para você
Sobre um homem injustiçado;
Uma história de
tremer
Que deu muito o que
fazer
E condenou o estado.
O estado de Pernambuco
Cometeu danos morais
E também materiais,
Uma coisa de maluco;
Contra um jovem rapaz
Que era forte e sagaz
Mas virou um
vuco-vuco.
Pois esses incríveis
danos
Vêm de algo
impertinente
Prenderam ilegalmente
Um homem só por
engano;
Debaixo do sol poente
Essa prisão diferente
Durou dezenove anos.
Tal violação humana,
A maior que já se
viu,
A justiça decidiu,
Mas ali não basta
grana;
Pois tudo repercutiu
E uma vida ruiu
Porque o estado se
engana.
Duas vezes por engano
Foi preso e
encarcerado,
Nada ficando provado
No fórum
pernambucano;
Do Cabo ele foi levado
E apareceu o culpado
Que estava se
esquivando.
O mecânico e
motorista
Era um homem bondoso,
Bom filho e bom
esposo,
Não era
mercantilista;
Mas tido por perigoso
Acabou todo seu gozo
Não pode mais ser
passita.
Na Aníbal Bruno preso
E na Barreto Campelo
Não é o melhor
modelo,
Sofreu o maior
desprezo;
Nunca lhe tiveram
zelo,
Foi tempo de desespero
Qualquer um ficava
teso.
Não tinha banho de
sol
E era violentado,
Sofria de todo lado
Querendo sair do rol;
Como todo injustiçado,
De capitão a soldado
Não davam nem
Bezerol.
Alguém que nunca foi
gênio
Tirou a sua visão
Em uma rebelião
Inda no outro milênio;
Na cela, sem compaixão,
Atacaram-lhe então
Com o gás lacrimogênio
O Marcos M. da Silva
Não recebeu
garantias,
Ninguém no mundo
ouvia
Sua constante
assertiva;
Em sua cela todo dia
A história repetia
Mas lhe deixaram à
deriva.
Acusado falsamente
Marcos viu desmoronar
Tudo que tinha em seu
lar
Acabou bem de repente;
Não conseguia falar
Com os chefes do lugar
Mandavam sair da
frente.
Contraiu tuberculose
Quando estava na prisão,
Também perdeu a visão
Me diga se não é
dose;
Isso não é ficção,
É história de uma ação,
Com isso não há quem
prose.
Naquela cela, tão só,
Quase que ele morreu,
Mas como sobreviveu
Lembra a história de
Jó,
Com a fé que Deus lhe
deu
Esse tempo ele venceu
Nunca vi cousa pior.
Se um ser humano erra,
Erra mais que julga
errado
Deixando encarcerado
Inocente dessa terra;
E tem julgador malvado
Que julga precipitado
Nem olha se o réu
berra.
Marcos perdeu
liberdade,
Ficou na prisão
sofrendo,
Treze anos padecendo
Essa é que é a
verdade;
Um caso muito horrendo
Que só merece adendo
Da falta de caridade.
Claro que alguém
falhou,
Cometeu grande imprudência,
Pois não houve paciência
Pra ver o que alegou;
Bradando sua inocência
Marcos não teve clemência,
Cada vez mais se
afundou.
Foi o capitão
Galindo,
Novo chefe da prisão
Que fez a reparação
E deu seu sofrer por
findo;
Pelo menos desde então
Cumprindo a sua missão
Mandou que fosse
seguindo.
No presídio nada
havia,
No cartório também não,
Nada contra o cidadão
Documento algum dizia;
Na vara da execução,
Mais uma confirmação
Da própria
secretaria.
O juiz da transferência
Diz que não lembra de
nada;
Carreira imaculada,
Mas assinou a sentença;
Diz que não fez coisa
errada,
Mas lascou o camarada
Ora tenha paciência!
No fim de todo esse
horror,
Despido de vaidade,
Para buscar a verdade
Foi um desembargador;
Com toda dignidade,
Por nossa sociedade
Pediu perdão e falou.
Doutor Fernando é o
nome
Do homem que levantou
Perto de Marcos
chegou,
Viu que o sofrer não
some;
A sua mão apertou,
O fórum todo chorou
Com o gesto daquele
homem.
Marcos terá 2 milhões,
Decidiu o tribunal,
Uma quantia legal,
Mas não paga emoções;
Não corrige todo o
mal,
Nem pune ação ilegal
Dos julgadores errões.
Diz um nobre advogado
Que o Marcos teve
sorte;
Se fosse pena de
morte,
Ela já estava
enterrado;
Justiça precisa norte
E isso é uma prova
forte,
Verdadeiro arrazoado.
Marcos vai ter o
dinheiro,
Mas perdeu sua visão,
Sofreu mais do que
Sansão,
Pois passou o tempo
inteiro
Sem ter dinheiro na mão,
Tudo que ouvia era não
Do povo interesseiro.
E quem fez ele sofrer,
Será que irão pagar?
O estado vai deixar
Simplesmente esquecer
Quem achou de condenar
Sem as provas
confirmar
A tamanho padecer?
Será que é desse
jeito,
Condena e fica por
isso?
Onde está o
compromisso
Que algum dia foi
feito,
De nunca ser submisso
Cumprir bem o seu ofício
Em favor do bom
direito?
Aquelas
“autoridades”
Que condenaram ao calvário
Pelo cárcere diário,
Dias de atrocidades,
Não vão virar réu
primário
Têm vultoso salário
Nem gostam dessas
verdades.
Não é um caso
isolado,
Com certeza temos
mais,
Vez por outra nos
jornais
Surge alguém injustiçado;
E o Estado nada faz
Para garantir a paz
De um povo
desencantado.
Agora a gente imagina
O homem perder a pista
Sem ter nada que
assista,
Como foi a triste
sina,
Nesse mundo de
conquista
O que é perder a
vista
Deixar de usar a
retina.
Mas tem gente mais
injusta,
Que inda culpa o réu
Como se fosse um Céu,
Pois não sabe quanto
custa
Ficar tanto tempo ao léu
Cumprindo triste papel
Esse quer ser uma
“busta”.
Marcos diz que
procurou
Ajuda de muita gente,
Dizia ser inocente,
Mas ninguém
acreditou;
Pois nunca é
diferente
Pode ser incoerente
Ninguém nunca lhe
ajudou.
Agora é tocar a vida
Como Deus lhe
aprouver,
É isso que o povo
quer,
Mas é grande a
ferida;
Precisa de muita fé
Prá continuar em pé
Mesmo já tendo
guarida.
Que isso sirva de lição
Aos senhores da Justiça
Continuem nessa liça
Mas procurem a razão;
Sem moleza nem preguiça,
Pois quem erra só atiça
O mal em muita ação.
Termino emocionado,
Pois não é fácil
saber
Que alguém teve de
viver
Um tempo tão
assombrado;
Um abraço prá você
Que conseguiu tudo ler
Pois é muito abençoado.
Até qualquer outro
dia
Nas rimas do meu
cordel
Rogando ao grande Céu
Uma bela fantasia
Para algum menestrel
Trazer histórias de
mel
Repletas de alegria.
FIM