Rimas
para palavras e palavrões
--- Walter Medeiros
Quando o homem foi
criado
No meio da natureza
Foi uma grande
surpresa
Prá boi, macaco e
veado,
Era tudo uma beleza
Não existia tristeza
No vale nem no
cerrado.
Mas essa vida pacata
Que existia na terra
Tempo de paz e sem
guerra
Não tinha nem
opercata
Logo, logo se encerra
Pois lá do alto da
serra
Surgiu o que se
relata.
Para melhorar o mundo
Foi criada a mulher
Duma costela qualquer
Nasceu em um só
segundo
Aí o homem, com fé,
Foi correndo prá maré
Mas não ia até o
fundo.
Aconteceu muita coisa
E o tempo foi passando
A terra se povoando
Pelo homem e a esposa
Hoje a terra vai
rodando
Todo mundo se
estranhando
Até sapo e mariposa.
Antigamente o respeito
Era quase natural
Na zona urbana e rural
Era tudo de outro
jeito
Hoje a coisa vai mal
E tudo que é imoral
É o que tá sendo
feito.
Em qualquer lugar que
vou
Encontro pornografia
Tem delas que arrepia
Quem nunca se
acostumou
A ver no seu dia-a-dia
Essa linguagem vazia
Que a cultura dominou
Mas aqui não vou
rimar
Com as palavras que
malho
Prefiro jogar baralho
A tais palavras usar
Se eu cometer ato
falho
De qualquer santo me
valho
Prá me penitenciar
Muita gente já sentiu
Algo triste de verdade
Pois até a liberdade
Recebe agressão vil
Quando vê essa
disputa
No meio de tanta luta
Pelo bem desse Brasil
E nunca tem quem
socorra
Nosso querido idioma
Pois até gente de
fama
Fala palavrão na
zorra
Não quero uma redoma
Mas eu me sinto na
lama
Feito uma velha
cachorra
A coisa é mesmo preta
Isso não posso negar
Pois vejo em todo
lugar
A rima da clarineta
Mas consigo escapar
Aqui basta me lembrar
Dos olhos de Mariêta
Até mesmo o mais
sublime
Envolvimento de amor
A palavra deturpou
Acho isso quase um
crime
Pois quem se enamorou
E fez lá o seu amor
De outra forma se
exprime
Tem rima também prá
poda
Nesse linguajar tão
chulo
Que faz qualquer um
dar pulo
Feito um samba de roda
Isso também não
engulo
Algo que era tão fulo
Agora é a maior moda.
E o verbo que se vê
Quando alguém se
revolta
E a sua ira solta
Manda logo que você
Chamado de idiota
E não é uma lorota
Vá se... eu não vou
dizer
Mas de toda essa
verdade
Aquela que choca mais
É quando se vê
casais
Sem a menor caridade
Dizerem que são os
pais
De crianças imorais
Mesmo em tenra idade
É como o Rei ficar nu
O tom da pornografia
Pois nomes que não se
via
Para rimar com umbu
Agora em vez de
umbuzada
A rima fica danada
Pois não dizem nem
caju
Lembro quando era
menino
E via com aspereza
Falarem em safadeza
Era o maior desatino
Agora é uma tristeza
Acabaram com a beleza
Do inocente pequenino
Mas ainda tenho fé
Que o forró do sertão
Aquele do Gonzagão
Será sempre o que é
Mensagem de emoção
Sem a besta apelação
Do Calcinha de mulher.
Acho que falo verdade
Quando digo que o povo
Tem amor ao que é
novo
Mas gosta de qualidade
Sei que tudo não
resolvo
Mas aqui agora eu
louvo
Quem faz o bem com
vaidade.
Isso não me santifica
Não é isso que
procuro
Esse é um páreo duro
Pelo que significa
Mas almejo no futuro
Um idioma tão puro
Que nem a água de
bica
Esse é o meu recado
Espero ser entendido
Senão estarei perdido
Andando prá todo lado
Quero que tenham
sentido
Como é feio o alarido
Do pornô banalizado.
FIM