Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

Memórias de um recruta do RO

 

--- Walter Medeiros

 

Meu pensamento andou

até minha juventude;

e refletiu, amiúde,

sobre um tempo que passou

mas que ficou na memória

pois foi um tempo de glória

que a mente bem guardou.

 

Trago na minha lembrança

coisas boas que vivi

muita emoção que senti

num mundo de confiança

foi lá em setenta e dois 

nem antes e nem depois

eu não era mais criança

 

Sonhando com meu futuro

era hora de servir

nunca pensei em sair

mesmo sendo um páreo duro

fui recruta e soldado,

depois um cabo cursado,

dedicado, eu lhes juro.

 

Eu servi no R.O.

que hoje se chama GAC

não era o melhor craque

mas jogava até bozó

na Segunda Bateria

minha obrigação cumpria,

pois já sabia de cor.

 

Era um ambiente lindo

cheio de companheirismo

eu via com realismo

gente entrando e saindo

pelo quartel espalhado

só se via os soldados

a sua missão cumprindo.

 

Que saudade da alvorada

que era tocada por Braga

a memória não apaga

a melodia animada

todos correndo pro rancho

sem fazer nenhum remancho

que comida reforçada...

 

Depois ia prá parada

desfilar ao som da banda

pois seu toque é quem manda

na tropa ali perfilada

e o Coronel D´Aguiar

cumprimentava com o olhar

toda aquela recrutada.

 

Depois Capitão Munhoz

dava suas instruções

sobre Constituições

empostando sua voz

e na Sargenteação

era uma satisfação

juntávamos todos nós

 

De tarde, o Boletim

com ânsia era esperado

nele vinha o resultado

prá quem foi bom ou foi ruim

se alguém era injustiçado

tinha o Sargento Rinaldo

que corrigia, enfim.

 

Quando estava de serviço

tinha novas instruções

nas guaritas, emoções,

todos já sabiam disso.

no quarto de hora, então,

esperava a rendição

sem o menor sacrifício.

 

E no toque de silêncio

um sentimento profundo

das coisas puras do mundo

inda hoje nele penso

Depois o oficial

dava a senha normal

com um termo não extenso.

 

Teve marchas e manobras

em  Punaú, Conceição,

nada era feito em vão,

nem desperdiçava sobras

assim rodei o sertão

com muita animação

junto com pessoas nobres.

 

Nessa feliz convivência

tinha o cabo Emiliano

parecia um franciscano

com aquela paciência

para não brincar com fogo

dizia - isso não é jogo

era muita consciência.

 

Sargento Robson, amigo,

tinha vindo de Olinda

sua amizade não finda

isso com razão eu digo

pois depois o encontrei

e não me decepcionei

se puder inda lhe ligo.

 

O gaucho Wanderley

era um cara legal

e tinha um oficial

cujo nome ainda sei

era o tenente Pinheiro

que passou o ano inteiro

botando tudo na lei

 

Muitos outros encontramos

naquela vida diária

eu ganhei até medalha

inda hoje não sei como 

tinha muita gente boa

mas eu, num tirinho à toa,

findei ganhando a fama.

 

Vez por outra eu meu dia

eu canto os nossos hinos,

pois era nossos destinos

 “Abram alas” – assim dizia

“que vai passando” – e cultua

no quartel ou lá na rua

“a Segunda Bateria”.

 

Também o hino da arma

às vezes fico a cantar

lembrando o som a rufar

algo em mim me acalma

“Poderosa Artilharia”

era assim que se dizia

com toda força da alma.

 

Aí lembro os companheiros

Severo e Lucimar

Nascimento, Edgar

Bezerril, Lima e Pinheiro

Airton, Campos, Trajano,

Gilberto e Luciano,

me lembro desde o primeiro.

 

Marcos Sardinha, Matias,

Alexandre e Batista

Neto, Araújo, Romildo,

Aguiar Freitas, Josias,

Alves e Márcio Leitão,

Gurgel, Francisco, sei não,

Foram muitas alegrias.

 

Hoje já faz trinta anos,

não andamos mais de Reo

nem de Dodge, Coronel,

agora somos paizanos.

Mas a lembrança feliz

liga como uma raiz

a um tempo tão bacana.

 

Despeço-me emocionado

pois revivi na lembrança

um tempo de esperança

onde fui um bom soldado

onde estará todo mundo?

que sentimento profundo

pois tudo agora é passado...

 

FIM

 

  

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