A violência
pegou Tadeu além da imaginação
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Walter Medeiros
Soltei o meu
pensamento
Na nossa realidade
Para buscar a verdade
Daqui e do firmamento
E encontrei
estarrecido
Alguém que havia
vivido
Por fora do nosso
tempo.
Era um jovem rapaz
Que tinha uma vida sã
Mas numa certa manhã
Acidentou-se num cais
Ficando sem a memória
No auge da sua glória
E não refletia mais.
Essa jovem criatura
Feliz e estudiosa
Lia poesia e prosa
E histórias de
bravura
Em um estado de coma
Ficou em uma redoma
Parado em sua cultura.
Sem ter notícia de
nada
Aquele jovem, Tadeu,
Por trinta anos viveu
Com sua mente isolada
De lá dos anos
setenta
Aonde a vida era tão
lenta
Até 2000 foi parada.
De repente ele tornou
Para surpresa geral
Foi algo muito legal
E todo mundo vibrou
Mas não entendia nada
Com a mente perturbada
Quando um jornal
olhou.
A manchete era chacina
Que ele achou chocante
E uma notícia adiante
Da morte de uma menina
Deixava bem mais
chocado
Pois não era
acostumado
Com tanta carnificina.
Tadeu tava curioso
Pela tecnologia
Pois inda não
conhecia
Algo prá si
estrondoso
Pois a tevê colorida
Era nova em sua vida
Olhava bem cauteloso.
Mas na tv foi pior
A surpresa que pegou
Pois quando alguém
ligou
Ficou que fazia dó
Ao ver o noticiário
Lembrava-se do calvário
Pois sofria até Popó.
E viu buraco de bala,
Arsenal de arma pesada
Gente morta na calçada
Quase ele fica sem
fala
Cena de troca de tiro
Tudo num pequeno giro
Que vida desmantelada!
Procurava ser discreto
Mesmo estando chocado
Dizendo-se admirado
Imaginava seu neto
Ao ver nova reportagem
Que mostrava a
passagem
Do lixo que tinha um
feto.
Atônito com tudo
aquilo
Ele aguçava os
sentidos
E mais tarde teve
ouvidos
Prá um jogo de
futebol
Foi a surpresa maior
Sorte é que não tava
só
Quando viu aquele rol.
Era um rol de palavras
Que o narrador dizia
Como se o bem que
havia
Tivesse ido às favas
Tudo era violento
Mesmo não tendo
intento
De deixar pessoas
bravas.
Tiro, canhão,
artilheiro
Atacar e agredir
Ofender, matar, fugir,
Ele ouviu o jogo
inteiro
Parecia uma guerra
Mas bom cabrito não
berra
Ele inda tava
cabreiro.
Aos poucos em sua
mente
Lembrava do far west
Revistas, filmes - que
teste!
Bang bang entre
valentes
Mas como era ficção
Não cortava o coração
Era muito diferente.
Agora, bem ao seu lado
Violência e ameaça
Não podia ir à praça
Para não ser
assaltado
Ou encontrar
traficantes
Que em questão de
instantes
Deixam tudo arrasado.
Que tristeza se abatia
Dentro do seu coração
Será que viveu em vão
Um tempo sem
serventia?
Pedia a Deus prá ter
fé
Pois sabia como é
Muito duro o
dia-a-dia.
Dentro do seu coração
Palpitava um alvoroço
Era o fundo do poço
Uma banalização
Da vida do ser humano
Queria que fosse
engano
Ou só uma ficção.
Mas tudo ia mais longe
Pois quando alguém não
matava
O doente não escapava
Não tinha mais atenção
E gente morrendo a míngua
Inda dizem que é a língua
De alguém da televisão.
Pois foi lá mesmo então
Que uma notícia
triste
De um fato que
persiste
Causou grande comoção
Uma pessoa morrer
Pelo fato de não ter
Uma simples injeção.
É preciso ter cuidado
Com o nosso idioma
Pois sinto forte
sintoma
Que é muito arriscado
Usar palavras pesadas
Violentas, carregadas,
Para tudo que é lado.
Disso tudo o pior
É que a ruindade
domina
No trabalho, na
esquina,
Filho, pai e até avó,
Um triste palavreado
Imoral, mal educado,
É uma feiúra só.
Não fica só por aí
Pois hoje em qualquer
escola
Nem o diretor controla
Até eu mesmo já vi
Meninos, jovens,
meninas,
Gritando coisas
ferinas,
Que não dá para
sorrir.
É uma mistura feia
De traficante de droga
Com um som que não
empolga
A quem preza a vida
alheia
Destruindo uma nação
Que anda na contra-mão
Onde já falta cadeia.
Nosso amigo estatelado
Começou a reagir
Dizendo que ia sair
Falando prá todo lado
Contra essa situação
Mesmo parecendo em vão
E até ficando
marcado.
Como tudo é difícil
Na nossa sociedade
Mesmo falando a
verdade
Acharam que era indício
De alguma outra doença
Pois é assim que se
pensa
Neste país de suplício.
Arranjaram logo um
jeito
De diagnosticar
Que ele ia precisar
De voltar para um
leito
Consideraram anormal
Sua saúde mental
E tiraram seus
direitos.
Aquele homem já são
Que via a realidade
Só por falar a
verdade
Provocava aversão
Foi prá novo sacrifício
Internaram-lhe no hospício
No mais grave pavilhão.
Sumiu pelo corredor
Numa camisa de força
E não tem ninguém
que torça
Por aquele sofredor
Foi mais uma conseqüência
Do mundo de violência
Que no Brasil se
instalou.
FIM