|
O
tremelique do cabra que buliu com uma moça do Nordeste
--- Walter Medeiros
As coisa que eu relato
Nesses versos que
escrevo
Sempre têm algum
relevo
Pois tratam de algum
fato
De repuxar qualquer
nervo
Assim, para esse
acervo
Vou ser bem imediato.
Nas quebradas do sertão
Bem no topo de uma
serra
Um cabra quase se
ferra
Numa noite de aflição
Foi parar naquela
terra
Onde nenhum homem erra
E ninguém atira em vão.
Ele estava proibido
De na cidade passar
Sob pena de ganhar
Uns tapas no pé do
ouvido
E morrer para pagar
O que devia por lá
Prá não ser tão
enxerido.
Prá compreender a
história
Primeiro eu vou dizer
O que precisa saber
Duma remota memória
Trinta anos vai fazer
Que Chico de Saruê
Fez uma coisa inglória
Ele veio lá da roça
Onde plantava feijão
Foi a sua perdição
Quando entrou numa troça
Arranjou uma paixão
E cheio de emoção
Foi parar numa palhoça.
O danado é que Chico
Fez logo o que não
devia
Nem de noite nem de
dia
Foi seu gesto mais
nanico
Deitou-se com a Maria
Que logo no outro dia
Fez ele deixar o pico.
- Suma daqui, vá
embora
Que não posso mais
lhe ver
É melhor para você
Mudar logo sem demora.
Quando acabou de dizer
Viu ele estremecer
Pois só tinha uma
hora.
Foi o tempo que lhe
deram
Os irmãos daquela
jovem
Não queira que eles
provem
Pois o pior já
fizeram
Logo logo eles se
movem
E aqui as balas chovem
Nenhum segundo
esperam.
Chico sumiu pelo brejo
Com um saco amarrado
Pelas costas arriado
Pisando espinho e tejo
Um cabrito desgarrado
Seria mais animado
E tinha mais privilégio.
Atravessou a caatinga,
Pulou cerca de arame
Sonhava com um salame
Mas só tinha a
moringa
Sentia-se num tatame
Derrotado e infame
Sangue e suor lhe
respinga.
Foi dando lá o seu
jeito
Cada vez mais se
afastando
Toda hora se lembrando
Uma grande dor no
peito
Pela estrada pensando
Naquele momento quando
Seu passado foi
desfeito.
Atravessou o Nordeste
Sem poder admirar
Coisas que via passar
Era um verdadeiro
teste
Lá no Norte foi parar
Decidido a morar
Tão longe do seu
agreste.
Sem falar do seu
passado
Foi vivendo nova vida
Arranjou casa e comida
Trabalhando no pesado
Era tudo na medida
Uma terra prometida
Mas vivia desterrado.
Ele procurou viver
Dentro da normalidade
Tinha lá sua vaidade
Que ninguém pode
perder
E uma cara-metade
Ali achou de verdade
E se casou prá valer.
Teve filhos com Antônia
A mulher que desposou
E quando o tempo
passou
A família bem risonha
Para o Nordeste voltou
Mas longe se instalou
Daquela terra medonha.
Mas a vida não alerta
Para certos episódios
Onde se cultiva ódios
Nem a pessoa desperta
É como chegar no pódio
E encontrar-se com Ródio
Aquele que mais
detesta.
Já fazia tanto tempo
Daquele fato vivido
Que Chico tava
esquecido
Era outro seu
pensamento
Para atender um pedido
Numa excursão tinha
ido
Num ônibus
super-lento.
O transporte que pegou
Era o maior
pinga-pinga
Parecia uma caninga
Mas mesmo assim
cochilou
Não existe quem
distinga
Nem a chuva que
respinga
Nem o rumo que tomou.
Pelas duas da manhã
Foi feita uma parada
E toda passageirada
Descia achando bom
Na brisa da madrugada
Uma notícia danada
O Chico mudou o tom.
Sonolento e distraído
Sentado na lanchonete
Queria comprar
chiclete
Já tinha até pedido
Mas como um grande
bofete
Disse, nervoso –
repete!
O nome que escutou.
Ele havia perguntado
Que cidade era aquela
Olhando pela janela
Ficou logo apavorado
Sua face amarela
Lembrava-se da donzela
Que havia namorado.
Era naquela cidade
Que não podia voltar
Foi logo pro seu lugar
Pedindo por caridade
Para não mais demorar
Pois precisava chegar
A qualquer outra
cidade.
Ninguém sabia por quê
Ele também não dizia
Tudo que ele queria
Era uma estrada ver
Onde então sentiria
Sua maior alegria
A certeza de viver.
Chegando noutra cidade
Respirou fundo e falou
Que nunca imaginou
Que pudesse de verdade
Viver momentos de
horror
Como aqueles que
passou
Que infeliz realidade.
Era essa a história
Que eu vi Chico me
contar
Sei que vão me
acreditar
Pois guardo cá na memória
Trinta anos no Pará
Para depois se
arriscar
Obrigado, vou embora.
FIM
|