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A
despedida de Teodorico, o filho mais velho de Zaqueu
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Walter Medeiros
Aquela
luz que ilumina
Aqui
no meu pensamento
Sempre
tem o seu momento
Que
começa e termina
Pois
agora eu me sento
Prá
escrever rápido ou lento
Um
caso que me fascina.
É
um fato verdadeiro
Que
aqui eu vou narrar
Pois
quero compartilhar
Esse
caso por inteiro
Onde
o sertão virou mar
Existia
um lugar
Que
criava cangaceiro.
Pois
foi num tempo antigo
Que
a história sucedeu
O
filho de seu Zaqueu
Tinha
o irmão por amigo
Mas
foi um engano seu
Um
momento ele viveu
Correndo
sério perigo
Chamava-se
Teodorico
Aquele
jovem rapaz
Que
não suportava mais
Dizia
que nenhum tico
O
regime dos seus pais
Com
castigos colossais
Era
de pedir penico.
O homem era rigoroso
Castigava prá valer
Coisa de estremecer
Aquele pai horroroso
Fazia os filhos gemer
Sem saber o que dizer
Para um homem tão
raivoso.
Os meninos apanhavam
Eram surras de chicote
Tinham que ser muito
forte
Prá tudo aquilo agüentar
Sonhavam com outra
sorte
Talvez até ir pro
Norte
Para a vida melhorar.
Teodorico sonhava
Com a sua liberdade
Queria ter mais idade
Prá mandar tudo às
favas
Mas enquanto era menor
Não podia seguir só
Pois o pai jamais
deixava
Enquanto o tempo
passava
Ele ia matutando
Um plano arquitetando
Pois a coisa tava
brava
Sofrendo ia esperando
Em onde, como e quando
Saía e se libertava.
Mas um dia foi demais
Ele nunca esqueceu
Pois a coisa assim se
deu
Com o tristonho rapaz
Obedecendo a Zaqueu
Quase que ele morreu
Porque demorou demais
Ele saiu do roçado
E foi até o barreiro
Teria que ir ligeiro
E dar água para o
gado
Porém desobedeceram
E na água se meteram
Demorando um bocado
Quando chegaram de
volta
Zaqueu estava bufando
E logo ele foi pegando
Um pau que nem se
entorta
Perguntou o que sabia
E ouviu o que queria
O resto não lhe
importa
Os meninos só
culparam
O irmão Teodorico
O pai não fez nenhum
bico
Logo todos escutaram
Cada paulada um grito
Daquele jovem aflito
Que os irmãos
acusaram
Depois de quinze
minutos
Prostrado lá no
terreiro
Só se via o sangueiro
Parecia um bicho bruto
Cortes pelo corpo
inteiro
Levado para o celeiro
Era um verdadeiro luto
O tratamento que havia
Era o mais natural
Lavar com água de sal
Era tudo que podia
Não existe nada igual
Àquele gesto animal
Uma grande covardia
Mas era assim que era
O costume do sertão
Gestos de humilhação
Aconteciam de vera
Sem qualquer contemplação
Era a lei do bordão
Parecia uma galera
No outro dia, quebrado
Sem poder nem se mexer
O pai inda foi querer
Que fosse para o roçado
Mas a mãe foi
convencer
Que não havia porquê
Ser ainda mais malvado
Mas lá no seu
pensamento
Teodorico almejava
Para o dia que chegava
Um outro discernimento
A coisa era muito
brava
Mas uma fuga preparava
Nem que fosse num
jumento
Passaram-se alguns
dias
Tudo voltava ao normal
Mas numa questão
moral
O rapaz se prevenia
Arrumou mala e bornal
Fugiria prá Natal
Ninguém mais o
deteria
Só que quando ia
fugir
Preferiu peitar a fera
Parecia uma quimera
Mas resolveu lhe pedir
Que de forma bem
sincera
Resolvesse como era
Que deveria partir
Aí teve uma surpresa
Na dureza de Zaqueu
Pois ele estremeceu
Olhando para Tereza
Escutou e entendeu
A fala do filho seu
Com uma cara de
tristeza
Nunca ninguém no sertão
Tinha visto coisa
assim
O homem cor de carmim
Parecia um pimentão
Olhou pro filho e
enfim
Disse pois se é assim
E não vou impedir não.
Faça lá da sua vida
O que você bem quiser
De jumento ou a pé
Procure sua guarida
Você sabe como é
Mas quando a gente
quer
Procura a melhor lida
Naquele exato momento
Ele se surpreendeu
Pois nos olhos de
Zaqueu
Num toque singelo e
lento
Uma lágrima rompeu
E um abraço se deu
Ante tão vasto
relento.
O filho foi lhe
dizendo
- Tava de mala
arrumada
e hoje a minha parada
eu posso até não tá
vendo
mas nesse mundo mais
nada
nem a ponta de uma
espada
brecava o que to
querendo.
Dali
ele foi embora
E
a mãe ficou chorando
Os
irmãos se lamentando
Mas
tinha chegado a hora
Pela
estrada andando
Sua
história foi contando
Todo
dia, mundo afora.
O
que dali se passou
Eu
só vou contar depois
Só
sei que cuidar de bois
Ele
nunca mais cuidou
Despeço-me
aqui, pois
Dizendo
que aqueles dois
A
vida não mais juntou.
FIM
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