O
direito ao tratamento humanizado deve abranger todos os
aspectos do atendimento hospitalar. A cada momento vemos
surgir algum ângulo importante, que precisa ser
normatizado, em respeito aos usuários. Encontramos freqüentemente
situações lamentáveis, em que atitudes errôneas
denigrem a imagem da instituição. Pois temos afirmado
freqüentemente que quando existe falha no atendimento
ninguém sai dizendo que foi mal atendido pelo funcionário
fulano de tal. O que informa é tão somente o nome do
hospital ou unidade onde o fato ocorreu. Quem sofre
prejuízo é a imagem da instituição.
Algumas
opiniões que cheguei a veicular em artigos sobre o
trabalho do pessoal da enfermagem chegaram a gerar
algumas reações. Houve até quem achasse que eu teria
alguma predisposição para com a categoria. Acontece
que tudo que cito é baseado em fatos e mesmo que sejam
fatos que envolvam profissionais, não significa que a
categoria age conforme aqueles maus profissionais. Ao
contrário, cada categoria precisa cuidar para que
aqueles fatos não se repitam.
Existem
certos momentos em que as questões não deixam claro
quem são os responsáveis pela atribuição. Ocorrem
situações em que questões técnicas podem ser
encaradas como administrativas e neste ponto é preciso
que sejam feitas correções, a fim de evitar maiores
problemas. Quanto mais organizado for o serviço,
preferencialmente através de normas claras e precisas,
menor possibilidade de surgirem problemas.
Sei
que haverá quem não goste de ver tratado mais um fato
relacionado com a enfermagem, mas é indispensável que
analisemos uma ocorrência recente. O fato se deu num
hospital particular, que tem anunciado esforços para
assegurar a qualidade do serviço e fala até em
humanização do atendimento. Mas na prática não se
viu nem qualidade no serviço nem humanização do
atendimento.
Depois
foi a vez de constatarmos outra desorganização, agora
num hospital público de médio porte. Havia uma senhora
idosa internada na UTI e os familiares tinham de se
deslocar mais de trinta quilômetros para visitá-la. As
visitas eram marcadas para as 11:30 às 12:00 horas, e
das 17:00 às 17:30 horas, diariamente. Ocorre que em
dias seguidos foi impossível efetuar a visita. Motivo:
as visitas foram canceladas porque naquela mesma hora
estava sendo feita a higiene dos enfermos, devido a
atraso da lavanderia na entrega das roupas.
É
bom lembrar que as técnicas desenvolvidas para o
atendimento ao doente atingem níveis muito
qualificados. Até mesmo a forma de fazer a higiene é
detalhada em protocolos que impressionam a qualquer
leigo e até mesmo aos estudiosos do assunto. Nada mais
justo que sejam empregadas e disseminadas nas instituições
hospitalares. Entretanto, há sempre a necessidade de
sintonizar a técnica com a pessoa, a fim de que seja
tratado o doente como um todo, e não somente a doença.
Volto
ao fato, então. Uma senhora de 78 anos estava na UTI do
hospital havia três semanas. Problemas cardíacos,
diabetes e outros complicadores. Já não estava sequer
medicada, tão grave era seu caso. Os parentes estavam
providenciando a extrema unção, procurando fazer com
que a sua passagem fosse tranqüila, como é normal. A
visita dos familiares era sempre a partir das 17:00
horas e somente por trinta minutos. Nada mais. Mas é
inacreditável o que foi presenciado pelos familiares na
última tarde em que a mulher ficou naquele local.
Tão
logo autorizaram a visita, montaram em torno da cliente
aquela aparato da higienização. Sentaram-na numa
cadeira e fizeram o procedimento exatamente durante o
período da visita. Não conseguimos encontrar algo mais
dantesco para completar aquele quadro já tão
martirizador. No mesmo dia a senhora foi a óbito.
Passou, portanto, mais um momento completamente avesso a
tudo que se tem construído no rumo da humanização
hospitalar, da qualidade do atendimento e dos cuidados
paliativos.
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