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20.10.2007
Evite o primeiro atrito
--- Walter Medeiros
A freqüência
com que o assunto alcoolismo vem surgindo na imprensa,
rádio e televisão faz um esboço desse problema que afeta
toda a sociedade, pois queiram ou não, todos os cidadãos
findam fazendo parte desse quadro, sempre como vítimas.
O alcoolismo foi declarado doença pela Organização
Mundial de Saúde em 1967 e afeta tanto as pessoas que
bebem como suas famílias, que adoecem junto; os
empregadores e o poder público, que desembolsa boa parte
dos seus gastos para enfrentar problemas decorrentes do
consumo de bebida. As conseqüência do alcoolismo
terminam sempre nos hospitais, delegacias de polícia,
corpos de bombeiros, juizados das mais diversas causas,
penitenciárias, cemitérios e uma lista imensa de outros
lugares.
Há 72 anos uma entidade vem cuidando de alcoólatras no
mundo inteiro e está até na Internet, onde encontramos o
site
http://www.alcoolicosanonimos.org.br , que
divulga inclusive um lema interessante: “Evite o
primeiro gole”. Conhecida popularmente como A.A., a
entidade funciona desde que dois alcoólatras descobriram
que podiam manter-se sóbrios compartilhando seus
problemas entre si. Mas juntamente com aquela entidade
desenvolveu-se também no mundo inteiro uma organização
chamada Al-Anon, que cuida de familiares e amigos de
alcoólatras, adota os mesmos princípios de Alcoólicos
Anônimos (adaptados) e adaptou também esse lema, para
recomendar: “Evite o primeiro atrito”.
É sobre esse “primeiro atrito” que desejo falar,
considerando algumas informações importantes que tive a
oportunidade de colher em evento promovido por aquela
entidade, ao qual tive a sorte de comparecer na
qualidade de profissional interessado no assunto. Ao
evitar o primeiro atrito, os familiares fazem com que
muitos problemas sejam evitados também, pois sempre que
existe um confronto com um alcoólatra - embriagado ou
não - as conseqüências podem ser drásticas.
Segundo uma palestrante - que não se pode identificar
para manter seu anonimato seguindo os princípios da
entidade - “Al-Anon surgiu da mesma
‘necessidade’ de AA. A necessidade de ‘dialogar’, de
uma pessoa entender a outra, falarem a mesma linguagem,
trocarem as experiências vividas com seus entes queridos
doentes, que tanto lutavam para largar a bebida e não
conseguiam. Não custou muito para que as esposas dos
alcoólatras descobrissem que o estado em que se
encontravam era resultado do convívio sob o domínio do
álcool, quando seus familiares e amigos se tornavam
pessoas também doentes, de uma doença emocional. A troca
de experiências mostrava o caminho a seguir.”
Como o alcoolismo é considerado uma doença reflexiva - pois todos
do convívio do alcoólico adoecem juntos - torna-se
dificílimo compreender uma vida tão atribulada, onde o
senhor de tudo é o álcool, que impera, manda e comanda a
vida do alcoólico e conturba toda a família, pondo de
água abaixo todos os planos feitos anteriormente. Até
que o familiar tome conhecimento de que o alcoólico é
portador de uma doença, aceite, compreenda e se trate
junto, leva muito tempo e requer sacrifício de ambas as
partes, explica a representante dos familiares.
O Al-Anon no Rio Grande do Norte completou trinta anos de formação
em 2007. Desde que surgiu, os seus membros procuram
mostrar que quando um familiar ou amigo de alcoólatra
evita o primeiro atrito, está contribuindo para a
recuperação, na medida em que evita um descontrole
emocional de ambos. Al-Anon mostra que qualquer assunto
ou problema surgido pode e deve ser tratado somente
depois que os ânimos estiverem acalmados, noutro dia,
noutra hora. Falam em “recuperação” e não em “cura”,
porque o alcoolismo não tem cura; pelo menos até agora
não foi descoberta.
A importância das esposas de alcoólatras freqüentarem o Al-Anon
está na recuperação delas próprias. A palestrante
esclareceu que à medida que elas freqüentam, tomam
conhecimento de que seus familiares são uns doentes,
descobrem que adoeceram emocionalmente durante esse
mesmo tempo e trazem consigo as seqüelas do sofrimento
daquele convívio. Passam a trabalhar os sentimentos
negativos, tão fortes, tão vivos, tão bem guardados e
conservados – de raiva, ressentimento, angústia,
negação, rancor, auto piedade. Isso só acontece numa
sala de Al-Anon, onde o foco do tratamento é o familiar
e não o alcoólico, garante ela. Uma mudança de atitude
do familiar, esteja o alcoólico bebendo ou não, muda o
clima e a convivência se torna mais amena, acrescenta.
Por fim, ela informa o telefone da sua entidade em
Natal: (84) 32010889.
---
*Walter
Medeiros é jornalista e bacharel em Direito em Natal-RN. Autor dos
livros “Onde está o atendimento?” Ed. Viena e
"Abelardo, o alcoólatra"
( http://paginas.terra.com.br/arte/cordel/ap009Abelardo.htm
).
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