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23.09.2009
LEMBRANÇAS DA FARDA CAQUI
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Walter Medeiros* - walterm.nat@terra.com.br
O Céu ensolarado deste dia – 23 de setembro
– remete-me àquela manhã de 1966, quando fui à Escola
Industrial de Natal prestar exames a fim de ingressar no
Ginásio Industrial. Era um dia tranqüilo e ali encontrei
amigos de outros colégios onde estudei: Escola Rural
Doutor Manoel Dantas, Grupo Escolar Áurea Barros, Grupo
Escolar Calazans Pinheiro e Externato Saturnino.
Lembro daquela porta azul que fechava a
escada depois que eram iniciadas as atividades, das
histórias tão fascinantes que meu irmão, Wellington
contava, do tempo em que ele estudou na EIN e fez o
Curso Técnico de Mineração, concluído em 1963. E aquele
pátio, onde conviviam aqueles estudantes disciplinados
sob o olhar vigilante e paternal do inspetor Aécio.
Meu ingresso ocorreu em 1967, inaugurando a
escola nova, que logo passou a chamar-se Escola
Industrial Federal do Rio Grande do Norte. Aquele prédio
moderno, com belas rampas e obras de arte, era povoado
por uma animada geração que fazia a transição para novos
campos da técnica e ampliava os horizontes daquela
instituição hoje, exatamente hoje, secular.
Durante os quatro anos de ginásio vivi
momentos inesquecíveis na escola: o som de La
dernière valse, com Michelle Mantieu que saía da
pequena radiola portátil da professora Expedita
Medeiros, com G. Mauger na mão; o professor Eulício
Farias de Lacerda ensinando a conjugar verbos; o
professor Arthur Medeiros mostrando a eloqüência da
época; o professor Xavier mostrando textos de Rubem
Braga – Amor e outros males; o professor René
explicando os conjuntos finitos e infinitos; enquanto
Perigoso completava as explicações dos livros de Ari
Quintella.
O professor Cláudio, lembro-o explicando o corpo humano,
a professora Mitsi completando nossos conhecimentos;
professor Severino e professora Vilma Leiros Cunha
falando sobre geografia com as obras de Manoel Correia
de Andrade e o fino da bossa, Natanael, historicamente
impecável, contando as histórias dos Açores e da Madeira
nos livros de Victor Mussumeci; e a professora Fátima
ensinando tantas músicas belas, como “Amo-te muito”,
“Montaria” e “O Trem de Ferro”.
Nas oficinas, aprendemos artes gráficas com tipos
manuais; assistimos fazerem jarros com argila;
aprendemos eletricidade para instalações elétricas
residenciais e fizemos uma porca na oficina de mecânica.
Aprendemos, por fim, com os professores Walter e Názaro
o que era picofarady e montamos um rádio a partir de uma
chapa de zinco, que funcionou perfeitamente. Era algo
tão empolgante, que em certo momento sonhávamos em ser
montador na fábrica de rádios ABC canarinho de ouro, em
Recife.
Belos tempos, em que se ouvia canções da Jovem Guarda,
jogava-se biloca debaixo dos cajueiros, fazia educação
física nas quadras ao ar livre, com as instruções dos
professores Serrano, Ferdinando, José Maria Pinto e
Sebastião Cunha e a simpatia de Rosemiro, que encontrei
semana passada fazendo compras num supermercado.
Marchava-se pelas ruas com a farda da escola, cheios de
orgulho, para depois assistir aos jogos e as jogadas
inesquecíveis de Cezar fazendo cestas do meio da quadra.
O plano de ser montador de rádio não deu certo, apesar
de ter feito o curso de Rádio, TV, Transistores e
Eletrônica do Instituto Universal Brasileiro, que me
conferiu diploma profissional. Fui para o Padre
Miguelinho fazer o científico de engenharia e de lá o
curso de Direito na UFRN. Depois obtive o registro de
jornalista profissional.
Em 1979 voltei para a escola – então já Escola Técnica
Federal do Rio Grande do Norte – ETFRN. Em 1980 fui o
responsável pela implantação do Boletim Informativo, o
qual resgatou importantes momentos da história da
instituição, bem como registrou aquele novo momento que
vivia. Dali em diante contemplei a cena de transformação
em CEFET e agora IFRN. Mas a essência é a mesma do velho
Liceu Industrial. E a saudade é sempre grande, quando se
lembra da velha EIN, daquela roda dentada que seguiu
tempo afora nos nossos bolsos e da farda caqui com friso
verde.
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*Walter
Medeiros é jornalista e bacharel em Direito em Natal-RN. Autor dos
livros “Onde está o atendimento?” Ed. Viena,
"Abelardo, o alcoólatra"
( http://paginas.terra.com.br/arte/cordel/ap009Abelardo.htm
) e "Humanização nos Serviços de Saúde",
Ed. Minelli, 2008.
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