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04.10.2009
SE SE CALA O CANTOR
--- Walter Medeiros –
walterm.nat@terra.com.br *
Uma música em espanhol chegava pelas ondas do rádio para
quem sintonizava a Rádio Havana às 6:00 horas da manhã,
naquele tempo em que a censura imposta pelo regime
militar proibia tudo, e a cada proibição causava um
prejuízo inestimável e irrecuperável ao povo brasileiro.
A voz de Mercedes Sosa se juntava às de Juan Baez, Pablo
Milanez, Milton Nascimento e Elis Regina, em gritos
revolucionários desenhados pelas letras de Violeta
Parra, entre elas Gracias a la vida.
Pela manhã, os estudantes repetiam baixinho aquelas
músicas, junto com o “Vai levando” de Chico Buarque,
“Apenas um rapaz latino-americano” de Belchior e um
“Argumento” (Ta legal, eu aceito o argumento / mas não
me altere o samba tanto assim) de Paulinho da Viola. E
seguiam para a noite aonde, nos bares da vida podiam
conversar, mesmo que sob olhares dos agentes da
ditadura, gritando pelo garçom que apelidaram de “I me
free”, para sentir, pelo menos na imaginação, alguma
sensação de liberdade.
Faltava liberdade naqueles bares, naqueles campi e nas
ruas, pelas quais circulavam revolucionários em atos
clandestinos, na luta por dias melhores na Argentina, no
Brasil, na Nicarágua, no Chile, na Espanha, em Portugal,
Angola, Moçambique e tantos outros países dominados
pelos regimes de exceção. Luta que terminou vitoriosa em
todos esses lugares, com a retomada dos processos
democráticos a partir de bandeiras que reafirmavam: “O
povo unido jamais será vencido”.
Eram momentos de vida ou morte, mas que comportavam
versos inesquecíveis na voz de Mercedes Sosa propagando
os poemas de Pablo Neruda: “Me gusta cuando calas” e era
somente aí que se sentia bem com o silêncio. Não o
silêncio imposto pela censura, mas o silêncio do amor.
Eram versos daquelas belas páginas de “Vinte poemas de
amor e uma canção desesperada”, na qual Neruda mostrava
um dos maiores gritos da história do homem: “Posso
escrever os versos mais tristes esta noite”.
A tristeza veio da truculência, quando Juan Baez foi
probida de cantar no Brasil, sob alegação de que sua
música era subversiva. Ela que planejava trazer gande
prestígio à música brasileira, gravando um disco
completo com músicas de Chico Buarque de Holanda. Da
mesma forma que nos carnavais brasileiros a censura
proibia até ouvirmos a marcha “Bandeira Branca” com
Dalva de Oliveira, confundindo-a com a música “Bandeira
Branca” de Geraldo Vandré.
Nesta manhã de outubro chega a notícia da morte de
Mercedes Sosa. Aquela lutadora que percorreu continentes
em nome das mães argentinas e dos povos oprimidos,
transformando-se numa cidadã do mundo. Que escreveu
belíssimas páginas da música popular, cantando sempre
com seu imenso coração e enfeitando o mundo com sua voz
forte e poderosa. Com a morte de Mercedes Sosa – como
diz a música “Se se cala el cantor” - cala-se um pouco a
vida.
*Walter Medeiros é jornalista
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*Walter
Medeiros é jornalista e bacharel em Direito em Natal-RN. Autor dos
livros “Onde está o atendimento?” Ed. Viena,
"Abelardo, o alcoólatra"
( http://paginas.terra.com.br/arte/cordel/ap009Abelardo.htm
) e "Humanização nos Serviços de Saúde",
Ed. Minelli, 2008.
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