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29.05.2010
UM TIRO NO FOOT
--- Walter Medeiros* -
waltermedeiros@supercabo.com.br
O Brasil envereda a cada dia por um caminho perigoso e
de perda do controle moral. O fato mais novo é a Seleção
Brasileira de Futebol patrocinada por bebida alcoólica.
E o pior, tendo o técnico e jogadores como
garotos-propagandas. Podem até alegar que se trata de
propaganda permitida por lei. Mas porque é permitido não
tem de ser feito. O prejuízo para a Nação poderá ser
muito grande, muitas vezes maior que a renda auferida
por este injustificável patrocínio. Gasta-se sempre mais
para reparar os males provocados pelo alcoolismo,
através de justiça, polícia, bombeiros, hospitais e
muitos outros serviços públicos.
A princípio, o Governo Federal deveria assegurar outra
postura da Seleção Brasileira, pois cabe ao Ministério
do Esporte construir uma Política Nacional de Esporte,
trabalhando ações de inclusão social e garantindo à
população brasileira o acesso gratuito à prática
esportiva, qualidade de vida e desenvolvimento humano.
Já que somos considerados e alardeamos que somos o país
do futebol, nada mais era de se esperar que não o melhor
exemplo dado pelos atletas da CBF, a qual, apesar de
tratar-se de entidade de direito privado, deve
enquadrar-se aos preceitos das políticas públicas
brasileiras.
Não dá para entender a Seleção Brasileira patrocinada
por bebida alcoólica, enquanto o Ministério da Saúde
tem, desde 2009 um Plano Emergencial de Ampliação de
Acesso ao Tratamento e Prevenção em Álcool voltado a
crianças, adolescentes e jovens em situação de grave
vulnerabilidade social. Onde encontraremos situação de
grave vulnerabilidade social maior que o bombardeio da
mídia anunciando que a Seleção Brasileira é patrocinada
por bebida alcoólica e vendo o técnico Dunga e os
jogadores, a começar por Luiz Fabiano, empunhando aquela
garrafa de bebida que tem o escudo da CBF no gargalo?
Desta forma, parece que de nada teria valido o
Ministério da Saúde ter lançado em junho de 2009 o Plano
Emergencial de Ampliação de Acesso ao Tratamento e
Prevenção em Álcool e outras Drogas (PEAD) voltado aos
100 maiores municípios brasileiros (com mais de 250 mil
habitantes), todas as capitais e 7 municípios de
fronteira selecionados, totalizando 108 municípios.
Essas cidades somam cerca de 78 milhões de habitantes,
corresponde a cerca de 41% da população nacional. O
plano busca alcançar sua clientela por meio das ações de
prevenção, promoção e tratamento dos riscos e danos
associados ao consumo prejudicial de substâncias
psicoativas.
A Portaria Nº 1.190, de 4 de junho de 2009, que
instituiu o citado plano emergencial, levava em
consideração, entre inúmeros outros pontos, o “cenário
epidemiológico recente, que mostra a expansão no Brasil
do consumo de algumas substâncias, especialmente álcool,
cocaína (pasta-base, crack, merla) e inalantes, que se
associa ao contexto de vulnerabilidade de crianças,
adolescentes e jovens; e “a necessidade de intensificar,
ampliar e diversificar as ações orientadas para
prevenção, promoção da saúde, tratamento e redução dos
riscos e danos associados ao consumo prejudicial de
substâncias psicoativas”.
Ao instituir o Plano Emergencial de Ampliação do Acesso
ao Tratamento e Prevenção em Álcool e outras Drogas no
Sistema Único de Saúde - SUS (PEAD 2009 -2010), foi
citada, entre as finalidades, “construir respostas
intersetoriais efetivas, sensíveis ao ambiente cultural,
aos direitos humanos e às peculiaridades da clínica do
álcool e outras drogas, e capazes de enfrentar, de modo
sustentável, a situação de vulnerabilidade e exclusão
social dos usuários”. Mas o estímulo que a nossa Seleção
de Futebol leva aos brasileiros pelo uso de bebida
alcoólica é capaz de pôr por terra todo esse trabalho e,
pior ainda, agravar esse quadro que já é preocupante.
Para deixar a situação mais embaraçosa ainda, na semana
passada foi publicado o Decreto Nº 7.179, de 20 de maio
de 2010, que “Institui o Plano Integrado de
Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, cria o seu
Comitê Gestor, e dá outras providências”, tendo como
fundamento “a integração e a articulação permanente
entre as políticas e ações de saúde, assistência social,
segurança pública, educação, desporto, cultura, direitos
humanos, juventude, entre outras, em consonância com os
pressupostos, diretrizes e objetivos da Política
Nacional sobre Drogas”. No mesmo dia assistíamos a
notícia da edição do Decreto e a propaganda de bebida
alcoólica feita pelos membros da Seleção Canarinho.
Podemos dizer que se trata do que costumou-se chamar de
“tiro no pé”. No caso, em vista da origem do esporte em
questão, “um tiro no foot”.
*Jornalista – Natal/RN
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