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02.07.2010
POR QUE BEBEM
--- Walter Medeiros* – waltermedeiros@supercabo.com.br
Um dos aspectos mais citados nos ambientes
de tratamento do alcoolismo é que os dependentes do álcool
bebem por qualquer motivo. Bebem porque estão felizes, bebem
porque estão tristes, bebem porque o time ganhou, bebem
porque o time perdeu, bebem porque tiveram uma raiva, bebem
porque tiveram uma conquista, e assim por diante. Ao que
parece, trata-se, na verdade, de um indicador que pode ser
estudado e certamente resultará em resposta muito
interessante sobre o comportamento dos bebedores-problemas.
Vale lembrar aqui o Capítulo XII do livro
O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupery, no qual o
principezinho, como chamam os portugueses, dialoga com um
bêbado que encontrou em um dos planetas que visitou, após o
que mergulhou numa profunda melancolia: “- Que fazes ai?
perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma
coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.
- Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre. - Por que é
que bebes? perguntou-lhe o principezinho. - Para esquecer,
respondeu o beberrão. - Esquecer o quê? indagou o
principezinho, que já começava a sentir pena. - Esquecer que
eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça. -
Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava
socorrê-lo. Vergonha de beber! concluiu o beberrão,
encerrando-se definitivamente no seu silêncio. E o
principezinho foi-se embora, perplexo. As pessoas grandes
são decididamente muito bizarras”, dizia de si para si,
durante a viagem, o principezinho.
Pois para esquecer ou para lembrar,
observamos nesta sexta-feira os bares, botecos,
restaurantes, quiosques e calçadas por aonde passamos, duas
horas depois do fim do jogo do Brasil com a Holanda e
tivemos uma forte impressão de vazio. Houvesse o Brasil
ganho o jogo, certamente aqueles espaços estariam ocupados
com pessoas festejando e bebendo. Seriam pessoas que têm e
pessoas que não têm (os que não têm são a maioria, cerca de
80%) problema com a bebida alcoólica. Estariam festejando
justamente o que teria sido uma grande conquista. A
conquista não veio e a maioria ficou em casa ou foi para
casa, se estava fora. O fato é que a bebedeira ficou por
conta somente de quem já tinha começado a beber ou aqueles
que realmente bebem por qualquer motivo e até os cria, se
não os têm.
O infortúnio brasileiro na Copa do Mundo
parece que foi um baque nos “guerreiros” (Principalmente
Dunga e Luiz Fabiano), que faziam propaganda de bebida
alcoólica, bebida esta que, aliás, anunciava como
patrocinadora oficial da Seleção Brasileira. Ao que parece,
a bebida alcoólica por eles anunciada não teve o condão de
levar a nossa seleção mais adiante. E assim os bares e
demais ambientes festivos ficaram meio vazios, aguardando o
fim do verdadeiro luto que se abateu sobre a nação inteira,
que sofre, mesmo não tendo sido esta a primeira vez que se
frustra tanto sonho. Na parede da memória, como diz Belquior,
estão certos jogos nos quais o Brasil deu adeus antecipado
às copas do mundo.
Não pretendo estudar esse assunto
especificamente, mas acredito que pode ser uma boa sugestão
para quem estuda o comportamento humano, o alcoolismo, a
saúde mental e outros temas, verificar quem é esse universo
que fica no bar num dia como este de hoje. Para tanto,
poderia até começar com aquelas inocentes perguntas do
principezinho, feliz abordagem daquele grande escritor
francês, para documentar essa realidade tão visível, mas
ainda pouco registrada. Um trabalho desses pode tornar-se
uma importante contribuição para o tratamento do alcoolismo
e outras dependências químicas que se alastram Brasil e
Mundo afora, tratados até como algo engraçado pelo repórter
da TV Globo, conforme vimos nas participações que tiveram de
Amsterdã. Naquela capital européia, pelo menos, se sabe
muito bem por que as pessoas beberam neste dia 2 de julho de
2010.
*Jornalista
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