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No meu gabinete em Brasília recebi um conterrâneo.
Anunciou que tinha assunto muito importante. Sentou-se e
disse: “estou em Brasília, deputado e queria que o
senhor me ajudasse”. Perguntei-lhe o que desejava.
Respondeu: “preciso de dinheiro. Numa cidade como esta
ninguém sobrevive liso”. Curioso, indaguei-lhe: “e
por que o sr. veio para Brasília?”. A resposta foi
pronta: “porque queria conhecer esta cidade e o sr, em
quem votei, tem obrigação de me ajudar com dinheiro.
Voto é difícil e caro, deputado”.
Fitei aquele cidadão e argumentei, em detalhes,
qual deve ser a verdadeira missão do parlamentar.
Exemplifiquei que o deputado é como um advogado, que
fala pelo seu cliente. Faz leis, grita, reivindica. Porém,
não tem orçamento ao dispor. Expliquei-lhe o salário
do parlamentar, os descontos, o valor efetivamente
recebido, as verbas, passagens, funcionários
contratados para ajudar no desempenho do mandato. Salvo
o salário, as demais parcelas não significam dinheiro
em espécie no bolso. Enfim, deixei tudo claro. Por fim,
falei sobre a ilegalidade das doações em dinheiro em
época eleitoral.
De nada adiantou. Levantou-se e ao sair foi enfático:
“se todos me disserem a mesma coisa que o senhor
disse, o melhor será anular o voto”.
Preocupou-me aquele quadro. Nunca perdi a chama
do idealismo na política. Convicto, acredito que o voto
deveria ser livre. Decisão pessoal. Levada em consideração
o trabalho realizado, a capacidade do escolhido, a
experiência, as idéias, as propostas.
De toda lama que corre na política brasileira é
impossível negar a responsabilidade do eleitor em tudo
isto. Não há efeito sem causa. Todos que têm mandato
o conseguiram pelo voto supostamente livre. Não houve
nomeações.
O protesto (por mais justo que seja) de votar em
branco é “um tiro no pé da democracia”. Piora a situação. Agrava o quadro
político hoje já tão confuso. Tudo porque, a lei
eleitoral prevê que os deputados para serem eleitos a
justiça eleitoral divide o número de votos válidos
(excluídos nulos e brancos) pelo número de vagas a
preencher, desprezada a fração. A isto se chama
quociente eleitoral. E para saber-se quantos deputados têm
cada partido ou coligação é dividido o número de
votos válidos dados sob a mesma legenda. Denomina-se
quociente partidário.
Ora, se o eleitor opta pelo voto em branco estará
beneficiando aqueles que “compraram o mandato” e por
isto recebem com segurança os “votos válidos” de
quem lhes vendeu. O voto nulo não é computado para o
quociente eleitoral ou eleitoral. O voto em branco
serve, apenas, para destruir a democracia e piorar as
instituições, pela omissão de quem deixa de escolher
livremente o melhor candidato.
Voto proporcional nulo é coisa séria. Tão séria
que o cidadão deve estar consciente de que assim agindo
estará apoiando, indiretamente, os potenciais
“mensaleiros” do futuro. Ou o eleitor assume o seu
papel de votar consciente, ou o Brasil não terá
jeito....
IN
MEMORIAM
Faleceu a poetisa e escritora Maria
Eugênia Maceira Montenegro. Era conhecida como Dona
Gena.
Mineira de Lavras, filha de portugueses,
casou-se em 1939 com o potiguar Nelson Borges
Montenegro, político e fazendeiro. O casal morou,
inicialmente, na Fazenda Itu em Ipanguaçu. Depois,
instalou-se na cidade do Açu.
Conheço bem a terra açuense e orgulho-me das raízes
paternas que lá tenho. Recordo momentos felizes da
minha infância e juventude em contato com amigos do meu
pai, da minha avó e familiares. O traço marcante
daquela gente é sempre o amor às letras. Chama-se a
“terra dos intelectuais”.
Dona Gena foi
uma autêntica açuense. Afirmava que “se continuasse
morando em Lavras não seria poeta. O ambiente para a
poesia encontrei no Açu”.
Mantive contacto com a Sra. Maria Eugênia,
pessoal e por carta, até a sua morte. Figura humana
inteligente e solidária. Ofereceu-me, com dedicatória
carinhosa, o seu livro de contos “Todas as Marias”.
Com estilo leve, transmite amor e sensibilidade a cada
frase escrita.
Quando era Secretário de Governo de Cortez
Pereira, em 1962, participei das eleições municipais.
Com alegria relembro a presença no palanque dela, como
candidata vitoriosa à Prefeita de Ipanguaçu. Deixou a
sua presença administrativa no município com incentivo
total à cultura. Promoveu o teatro infantil e recitais
poéticos nas escolas.
A poetisa Maria Eugênia Montenegro ingressou na
Academia Norte-rio-grandense de Letras em 1972. a
convite de Veríssimo de Melo, que ao saudá-la resumiu
o seu perfil de mulher esposa, intelectual e mãe:
“Maria Eugênia, pelo seu gênio dócil e virtudes de
inteligência, adaptou-se tranqüilamente à nova vida,
passando a ser colaboradora eficiente e ativa do marido,
nos serviços assistenciais. Nos seus instantes de
lazer, estudava, lia, fazia música, pintava e preparava
os livros que mais tarde a credenciariam ao ingresso em
nossa instituição”.
O Brasil perde uma poetisa e escritora do melhor
nível. No Açu ficará a lacuna da sua ausência,
marcada nos traços arquitetônicos do tradicional casarão
da praça da Igreja de São João Batista, que lhe
abrigou até o último suspiro, construído no estilo
arquitetônico das vilas portuguesas do século XVIII,
com grandes espaços, janelas sempre abertas e portas
largas para acolher os visitantes.
Que Deus a receba na Eternidade e lhe conceda o
espaço para continuar a transmitir espiritualmente as
lições de amor e humanismo, que marcaram a sua existência
entre nós.
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