|
Zidane – o grande jogador francês – mesmo com o
ombro direito machucado, continuou em campo, no jogo
final da França contra a Itália. A cada jogada, a platéia
o aplaudia delirantemente. De repente, o telão do estádio
mostra a sua loucura repentina, ao dar uma cabeçada no
adversário, que o agredira verbalmente. O italiano
xingara a sua irmã. Poucos segundos foram suficientes
para ser golpeada a imagem de um ídolo, ovacionado
durante toda a Copa. Irrompeu a mais aguda vaia em um
campo de futebol, iniciada pelos próprios franceses. O
público testemunhou a agressão física. Mas, não
ouviu a verbal. Nenhuma complacência. A turba irada
confirmou aquela advertência de Chaplin: “A
vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.
Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente,
antes que a cortina se feche e a peça termine sem
aplausos”.
A história mostra que foi sempre assim. São necessários
anos para alguém formar uma boa imagem e conceito. E
alguns segundos, apenas, para perdê-los. A memória
coletiva julga instantaneamente. Cícero, quando atacado
em Roma pelas costas, por Herênio e Popílio, estendeu
corajosamente a cabeça e exclamou: “morro
eu na Pátria que tantas vezes salvei?”.
Cristo, no seu último julgamento, ouviu a multidão
ensandecida responder a pergunta de Pilatos, se Ele
deveria ser crucificado, ao lado de dois ladrões:
“Mate-o. Não conhecemos outro rei, senão César”.
Pilatos, pressionado pela opinião pública, lavou as mãos
e disse: “sou
inocente do sangue deste justo”.
Não justifico, nem defendo a indisciplina de Zidane.
Acho até que ele deverá ser punido pela atitude
anti-esportiva. Porém, foi excessiva a sentença de
rejeição, dada sumariamente pela platéia enfurecida.
Ele teve uma carreira brilhante e muitas vitórias deu
à França. Jogava contundido e dominado pela violenta
emoção de uma final de Copa do Mundo. “Garrincha,
chamado pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade de a
“alegria do povo” (inspirado na Cantada 147 de Bach)
revidou uma agressão na Copa de 62, após fazer dois
gols contra o Chile. Foi expulso de campo”.
O exemplo de Zidane demonstra o risco das condenações
apressadas, sobretudo quando atingem aqueles, cujas
atividades exigem exposição pública. As manipulações
da opinião pública, apoiadas em símbolos, em meias
verdades, fatos isolados ou atos impulsivos podem
destruir, sem chance de recuperação, patrimônios de
vida ou carreiras profissionais, construídas com sacrifícios
e lutas.
O século XXI terá o grande desafio de encontrar
caminhos justos, que orientem os julgamentos coletivos,
originários da comunicação social de massa. Tudo isto
para que não se repitam no futebol – como em outras
situações – aqueles comentários que ouvi na TV,
quando o ídolo Zidane, em poucos segundos, sem ter
sequer o direito de dar explicações do seu gesto de
indisciplina, passou a ser exemplo de um marginal,
travestido de jogador de futebol.
Afinal, Zinane seria herói ou vilão? Cabe uma boa
reflexão, legal e humana, sobre o episódio, até
porque a FIFA terminou dando-lhe o título de melhor
jogador da Copa. A impunidade deve ser combatida. Porém,
a injustiça é mais cruel do que a própria impunidade.
IN
MERMORIAM
1. O
padre italiano Sabino Gentille, na última semana,
desceu à tumba na pequena cidade de
Castel di
Tora. A sua terra natal é
semelhante ao bairro de Mãe Luíza. Um morro, perto
das estrelas, mais perto de Deus. Não apenas conheci o
padre Sabino, fui seu amigo e admirador. Sincero. Afável.
Duro no combate à injustiça social. Um idealista. Místico.
Deixou o magistério para dedicar-se, de corpo e alma,
à tarefa de reduzir as desigualdades sociais. A cidade
de Natal sentirá falta do Padre Sabino. Ele merece
todas as homenagens póstumas. Para o seu nome ficar
gravado na cidade que tanto serviu.
2. Faleceu
também o advogado, escritor e humanista Marcos
Cavalcanti Maranhão. Filho de Djalma Maranhão,
ex-prefeito da cidade de Natal, deixa vasta obra histórica
e intelectual. No Instituto Histórico e Geográfico,
teve grande atuação. Fui seu contemporâneo.
Testemunhei as marcas do trauma deixado pela violência
sofrida por seu pai. Nunca demonstrava mágoa, ou
vindita. Orgulhava-se do pai e preservava a sua memória.
A minha geração empobrece com a morte de Marcos.
ACONTECE
Referência turística
Conheci
a Pousada Costa Branca, localizada na praia de Ponta do
Mel, em Areia Branca. É exemplo de competência da
iniciativa privada, no setor de turismo do Estado. O
Hotel possui nível internacional. Não faz nenhuma
diferença de “resorts” no Caribe, ou em praias nativas do mundo. O ponto alto é
o serviço: agradável, carinhoso e eficiente. Quem não
conhece deve conhecer essa pousada. Vale a pena.
|