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25/07/2008

Glênio Sá: Comunista por Opção, Pai por Amor

--- Jana Sá*

Há 18 anos, em 26 de julho, sofri o mais duro golpe da minha vida, a perda do meu pai. Uma dor compartilhada com milhares de pessoas, em especial os trabalhadores e democratas do Estado do Rio Grande do Norte, pois foi ao lado do povo trabalhador e idealizador de uma sociedade mais justa que Glênio Sá tratou de travar incontáveis lutas, menosprezadas durante muito tempo como episódios sem significação que firmariam a passividade como conceito diante da tirania e da desigualdade.

Não se tratava de ser uma espécie de super-homem. Nada disto. Homem simples, como não poderia deixar de ser, tinha debilidades, falhas e erros. Mas, sabia que ser comunista não era um ato de proclamação solene nem apenas um comprometimento formal, era antes e acima de tudo uma transformação real e consciente nas idéias e práticas, no comportamento ideológico e moral, na elevação do nível de compreensão política e das aptidões práticas, no desempenho das atividades partidárias e das responsabilidades. Aos 16 anos, já tinha presente de que ser comunista era uma opção cotidiana.

Em todos os seus atos, era extremamente responsável para cumprir as tarefas revolucionárias. Era um líder que encarnava a missão e quem o seguia, seguia como quem segue o próprio organismo coletivo. Somente a morte quebraria um compromisso firmado por Glênio. A morte interrompeu a vida de um homem que só queria a felicidade da humanidade. Ele não se importava se a trajetória desta felicidade implicava na abdicação das benesses de sua vida pessoal. Foi forte diante do inimigo de classe, mas foi impotente diante da morte.

Esse homem, a quem o povo mesmo inconscientemente deve muita gratidão pela abnegação com que abraçou a causa do proletariado, nunca reclamou da difícil vida pessoal que teve. Ao contrário, resistiu até onde a vida lhe permitiu que vivesse. Começou a luta lado a lado, permaneceu fiel a ela lado a lado, organizou o partido lado a lado, e quis a fatalidade que essa longa jornada de luta consciente de 24 anos fosse interrompida.

Glênio Sá deixa um legado de coerência, probidade, abnegação, lealdade, renúncia pessoal e, acima de tudo, incorruptibilidade. Contudo, de tudo o que sei, o que mais me impressiona é a lembrança de um pai muito doce, calmo, carinhoso, compreensivo e presente. Quando penso nele me vem à mente a sua imagem sorrindo. A ele devo o motivo de meu entusiasmo e amor pela vida. Meu pai, ao mesmo tempo em que deixou um grande vazio na família, partindo quando eu ainda tinha seis anos e o meu irmão Gilson nove, deixou o que considero hoje a maior herança: seu exemplo de vida e de luta. Sua luta e seu exemplo terão a continuidade na concretização do meu ideal. E por todo tempo que ainda viver, perpetuarei sua memória, pois uma árvore morre, mas deixa dentro de seus frutos a semente de sua vida.

Hoje, passados dezoito anos, a única forma de homenageá-lo é colhermos o fruto da semente plantada e regada carinhosamente por esse baluarte da classe operária.

*Jornalista

26/07/2008)

Alírio Guerra

--- Walter Medeiros – waltermedeiros@digizap.com.br

A data de hoje, sempre lembrada, traz para nós uma força, uma vontade de lutar, de continuar lutando, de superar dificuldades, de vencer tantos obstáculos que aparecem à nossa frente. Fui amigo de Glênio Sá e amigo também de Alírio Guerra, que se foi junto com ele naquele triste acidente de Jaçanã, há dezoito anos. Glênio recebeu, recebe e continuará recebendo muitas homenagens justas pela sua história de valentia, coragem e luta, que o coloca entre os heróis. Alírio tinha o mesmo valor, pelo que fez nas lutas democráticas e revolucionárias do Brasil. Morreu junto, no mesmo lugar, na mesma hora, na mesma batalha política. Deixou viúva Eveline e os filhos Júlio, João Pedro e Manuela.

Alírio quis ser médico, mas as lutas do povo transformaram seus planos pessoais e fez dos estudos de medicina uma experiência. Findou abraçando a profissão de analista de sistemas, na qual foi também dos mais competentes, chegando a Diretor Técnico da DATANORTE, a maior empresa de processamento de dados do estado naquela época (1990). Era querido por todos, pela sua postura amável, amigável, conciliadora, mesmo sendo radical quando necessário. Sua marca era a responsabilidade, para trabalhar e cobrar trabalho de quem devia, fosse na empresa onde trabalhava e era um referencial para toda a sociedade, como na sua atuação política, onde parece que conseguia chegar em todo dia, toda hora, todo local.

Conheci Alírio no primeiro evento promovido pelas mulheres lutadoras de Natal no Colégio Nossa Senhora das Neves. Professora Elizabeth Nasser e Rizolete Fernandes devem saber mais precisamente a data, que deve estar documentada em seus belos livros de história do movimento feminino potiguar. Junto com Alírio veio Eveline Macedo, sua mulher, que teve importante papel na organização da União das Mulheres de Natal – UMNA. Era ainda o tempo da clandestinidade, onde as reuniões se davam nas residências dos militantes e em salas alugadas para aos poucos consumarem os fatos do avanço das lutas democráticas.

Lembro de uma noite na qual em meio a muita tensão por conta das perseguições políticas da ditadura aos militantes de esquerda, ele chegou para mim e perguntou – faz mais de vinte anos – se eu já tinha ouvido alguma coisa de um compositor chamado Nando Cordel. Pegou-me de surpresa e complementou demonstrando sua altíssima sensibilidade humana, poética e premonitória: anote este nome, que este rapaz vai ser uma grande figura da música popular brasileira.

Homem estudioso, preparado, lutador, teve uma atuação viva, intensa e valiosa na luta revolucionária da esquerda brasileira. Mesmo assim pouco ainda se sabe da sua história, que precisa ser resgatada pelos seus familiares e amigos. Sua brusca passagem impediu um avanço que certamente iria qualificá-lo cada vez mais como quadro das lutas democráticas. Mas seu exemplo, sua história e seu legado precisam ser resgatados, delineados, preservados e mostrados aos brasileiros. Eis uma tarefa para seus familiares, camaradas, admiradores e amigos.

 


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