OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

DA NOSSA NATUREZA

 

Wellington Medeiros

 

Como o natalense é inimigo das árvores, especialmente árvores de sombra, é, por força de lógica formal, inimigo declarado das aves que delas dependem e assistem... Esta frase não é de autoria de nenhum iniciante no jornalismo; de político e nem poderia ser ou ativista de alguma ONG - Organização Não-Governamental - defensora do meio ambiente. Quem disse isso há exatos 46 anos foi o mestre Luís da Câmara Cascudo, numa Acta Diurna publicada no jornal "A República", de 9 de junho de 1960, sob o título "Bichos e Homens". Cascudo (30.12.1898 - 30.07.1986), lembrava que por volta de 1910, portanto há quase um século, centenas e centenas de garças e de guarás povoavam de beleza e de colorido os mangues de Carnaubinha e de Guarapes. Era - lembrava - um espetáculo inesquecível, tardinha, assistir ao voejar das pernaltas sobre o verde dos mangues.

O mestre registrava ainda que nessa hora os "apreciadores" iam alvejar as aves, derrubando-as aos tiros, numa caçada tão teimosa quanto estúpida. Já não pousa uma só dessas aves naquela região. O homem "civilizado" matou-as ou espavoriu-se para sempre. E acrescentava: Justamente Guarapes quer dizer "no caminho dos guarás", denunciando a antiguidade do pouso que o "cristão" interrompeu com sua bestialidade truculenta. Para concluir, mais adiante, que "aves são elementos vivos, decorativos, maravilhosos, de alta valorização artística das cidades. Nós continuamos matando... matando... matando... Comprova-se, assim, que Luís da Câmara Cascudo foi também um ambientalista ao defender a preservação das nossas belezas naturais, o que nas últimas três décadas passou a ser chamado de meio ambiente.

Há quase meio século a preocupação do mestre era com árvores e aves, o Dia Mundial do Meio Ambiente, instituido em 1972 e que é comemorado hoje, 5 de junho, transformou-se em mais um momento de reflexão de nossas ações em relação à vida e ao uso e abuso dos recursos naturais. Instituído pela Assembléia Geral das Nações Unidas, anualmente um país sedia um encontro sobre meio ambiente e tratando de um assunto específico. Em 1992 foi a vez do Brasil, com o evento que ficou conhecido como Eco-92, com o tema "Uma Única Terra, Preocupe-se e Faça sua Parte". Outros temas que chamaram a atenção do mundo foram "Água - Dois Bilhões de Pessoas Estão Morrendo por Falta Dela!", debatido no Líbano e "Procuram-se! Mares e Oceanos - Vivos ou Mortos", em Barcelona, Espanha.

Se para o imortal Luís da Câmara Cascudo somos inimigos das árvores, mais ainda somos dos mares, marés, praias ou rios. Basta observar o que ao longo dos anos foi ocorrendo com o Potengi - o rio que abraça o mar - e os mangues transformados em viveiros de camarão, as nossas praias, antes cantadas em verso e prosa e hoje leiloadas, entregues à especulação ou inacessíveis aos natalenses e famílias. Não raro, estudiosos alertam para os riscos de contaminação dos lençóis d´água, tudo esbarrando na falta de saneamento básico. Os projetos de saneamento enchem gavetas dos burocratas, o mesmo ocorrendo com a drenagem, outro drama ambiental vivido por grande parte da população.

Esse cenário é descrito em outras palavras pela Promotora de Justiça Rossana Sudário em artigo que escreveu para um tablóide sobre meio ambiente publicado neste domingo "O Ministério Público e a defesa do Meio Ambiente : "O poder público em todos os níveis, municipal, estadual e federal, não tem cumprido com sua obrigação de defender o meio ambiente e muitas vezes é o principal poluidor, seja através de obras públicas que degradam o meio ambiente ou de sua omissão criminosa, que permite a poderosos de grupos econômicos imporem seus ilegítimos projetos poluidores a toda a sociedade. O cidadão comum - acrescenta - sente-se intimidado tanto pela complexidade dos problemas quanto pelo poder econômico e político dos criminosos ambientais". Chega a falar em ataques pessoais, ações de indenização por supostos danos morais e até ameaças de morte que buscam intimidar os promotores que atuam na defesa da cidadania.

O jeito foi voltar ao artigo "Bichos e Homens" - página 157 d´O Livro das Velhas Figuras, volume 4, editado pelo Instituto Histórico - que o mestre Cascudo encerrou de forma mais amena : "Numa tarde destas, o poeta Newton Navarro apareceu-me com uma gaiola e nela um galo-de-campina, inquieto, agitando a cabecinha de púrpura, numa indagação do destino. Trazia-me o galo-de-campina para que eu o soltasse. Como um barão do Império trazia a carta de alforria para que um amigo concedesse as alegrias da manumissão ao escravo. Tive o júbilo de abrir a portinha e ver o galo-de-campina voar. Muitos minutos esteve indeciso, olhando-nos do alto da espirradeira. Depois, desapareceu, feliz! Os poetas têm dessas idéias incomparáveis".

É preciso escrever mais alguma coisa?...

 

 

                     

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 05.06.2006

 

 

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