OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

OS AVANÇOS DA JUSTIÇA

 

 

Wellington Medeiros

 

 

A frase "chamem a polícia"  que durante muitos anos constituiu um forte argumento em algumas situações de conflito, vem sendo ao longo dos últimos dezoito anos substituída por outra semelhante, mas que sempre ecoa de forma mais suave: "Queremos justiça". É fácil constatar que esse novo cenário, desenhado após o regime autoritário, teve origem na Constituição de 1988 que estimulou a criação das Defensorias Públicas, Juizados Especiais de Pequenas Causas, Código de Defesa do Consumidor, os Procons e o mais importante, a valorização do Ministério Público, o fiscal da lei.

O Direito, cujo conhecimento em nível acadêmico obtive através das aulas-noções no curso de Comunicação Social da UFRN ministradas pelo professor - hoje desembargador aposentado - Ivan Meira Lima, é sem dúvida a matéria mais presente hoje no dia-a-dia das pessoas. Basta ouvir um informativo do rádio, assistir um telejornal ou folhear este jornal para encontrar notícias envolvendo a ação do Poder Judiciário e em conseqüência o envolvimento do Direito. Não é exagero dizer que hoje qualquer evento que envolva disputa, interesse em qualquer das atividades econômicas, políticas ou sociais acaba sempre na justiça.

No semestre que está terminando alguns exemplos, começando pelo carnaval, cuja escola de samba campeã somente foi conhecida depois de decisão judicial, seguindo-se o campeonato estadual de futebol até poucos dias sub judice, isto é, dependendo de julgamento, construções em áreas consideradas de preservação ambiental, concursos públicos, greves e até passeatas estudantís, assuntos que muito bem poderiam ser discutidos e até resolvidos na chamada via administrativa - diálogo, acordo, bom senso - começam muitas vezes pelo Judiciário. Recorrer à justiça virou moda. 

Atentei para este tema ao parar num sinal da Av. Senador Salgado Filho, já nas proximidades do Machadão,  ao receber o último número do jornal "Folha Universal", da Igreja Universal do Reino de Deus com a manchete Vitória da Justiça.  O jornal chama atenção para o fato de que após 12 anos de investigação e acusações sem provas da imprensa (leia-se jornal O Globo e revista Istoé), o órgão máximo do judiciário brasileiro concluiu: bispos da Igreja Universal são inocentes. A decisão era do Supremo Tribunal Federal. Li a reportagem, mas continuei sem entender o porque de caracterizar como vitória da justiça e não da própria IURD através de uma decisão do judiciário.

Também não consegui entender a posição do ministro Marco Aurélio Mello, do Tribunal Superior Eleitoral, em tentar barrar os reajustes para o funcionalismo público federal porque estamos em ano eleitoral, onde segundo ele os políticos abrem as "caixas de bondade". É que nos anos em que não ocorrem eleições, não se ouve um pio de qualquer autoridade orientando os executivos para que dêem os aumentos, corrijam os salários seis meses, um ano antes. Aí, o Ministro teria toda a autoridade e argumentos para criticar os reajustes que nos últimos dez anos os servidores - incluindo os do Poder Judiciário - só conseguem após muito suor, luta e até mesmo greves.

Por fim, fui procurar então uma definição de Justiça e encontrei: conformidade com o direito; a virtude de dar a cada um o que é seu; a faculdade de julgar segundo o direito e melhor consciência. E para caracterizar a posição do ministro do TSE, só encontrei a definição acadêmica de advogado do diabo: o encarregado da cúria romana, de levantar objeções a uma proposta de canonização, ou de propor as objeções numa conferência religiosa. Ou ainda, aquele que se encarrega de opor e sustentar objeções a qualquer tese, ou anda sempre a levantar dificuldades, a criar objeções.

Nos juizados e tribunais, são esses advogados - os do diabo - os responsáveis maiores pelo que eles mesmo chamam de morosidade da justiça. A justiça nada tem de morosa. O Tribunal de Justiça do Estado, por exemplo, dispõe de um site na Internet www.tjrn.gov.br, onde os processos são acompanhados em tempo real. Está adotando o programa Pauta Zero agora também na primeira instância. Chegando às comunidades através do ônibus da Justiça itinerante. Instituiu o Plantão Jurisdicional de Desembargadores, a começar no próximo fim-de-semana.

O que existe é um aparato para o retardamento dos processos. Talvez aí justifique a manchete do jornal da Igreja Universal: arquivar um processo 12 anos depois pode, estranhamente,  ser visto como uma vitória da justiça. É que do outro lado certamente estavam advogados tentando embargar até mesmo o arquivamento. Na verdade, enquanto o processo estiver tramitando eles estão faturando. Ou tentando justificar altos salários.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 26.06.2006

 

 

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