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Cemitério
lembra morte e a maioria prefere distância desse tema.
Exceção do articulista deste JH, professor do Centro
de Biociências da UFRN Juarez Chagas, que aborda o tema
com a maior naturalidade, todos gostariam que as
cidades, pelo menos num ponto, seguissem o exemplo de
Sucupira, de "O Bem Amado", sátira de Dias
Gomes aos políticos corruptos. O seriado fez sucesso
nos anos 80 na Tv Globo, pela falta de quem inaugurasse
o cemitério, obra do prefeito Odorico Paraguaçu,
personagem interpretada pelo ator Paulo Gracindo. Natal,
pelo contrário, já se ressente da falta de cemitérios
públicos. Embora não seja obra subterrânea para a
qual os gestores sempre torcem o nariz, colocar placa
com o nome do prefeito na inauguração de cemitério
pode ser de mau agouro. Aliás, não conheço um só
cemitério com o nome de político. Ou é nome de santo
ou do bairro onde está localizado.
Por
isso, achei interessante o livro "Memórias Póstumas
do Cemitério do Alecrim", lançado no final de
junho, na livraria Siciliano do Midway Mall, pelo
pesquisador e escritor Iericê Duarte Cabral. O autor,
entre outras coisas, conta a história de personalidades
que estão sepultadas no cemitério que este ano
completa o seu sesquicentenário. Disse interessante,
porque é um adjetivo dos mais abrangentes,
classificando algum assunto que julgamos importante,
atraente ou curioso. Escrever sobre cemitério pode
estar em qualquer desses termos e peço licença ao
autor para revelar que foi o gancho que encontrei para
abordar esse tema, aliás, escrevendo sob o clima de velório
provocado pelo fiasco da seleção brasileira neste
final de semana.
Muitos
de nós, que só nos lembramos de cemitério no dia de
Finados, 2 de novembro, vimos nos últimos dois meses -
de 2 de abril a 4 de junho - uma seqüência de mortes
de pessoas que certamente poderão figurar em qualquer
livro que no futuro venha a ser escrito sobre as nossas
personalidades contemporâneas. Se Iericê Duarte
destacou nomes como do governador Pedro Velho, padre João
Maria, industrial Juvino Barreto, jornalista Elias
Souto, médico Januário Cicco e o agropecuarista João
Câmara sepultados no cemitério do Alecrim ao longo do
século passado, somente no primeiro semestre deste ano,
o Rio Grande do Norte perdeu personalidades que
futuramente serão lembrados pela importância de suas
vidas nos mais diversos segmentos da nossa história
recente.
A
começar pelo ex-governador e ex-ministro Aluízio
Alves, falecido dia 6 de maio, aos 84 anos, já
personagem do livro de autoria do jornalista Paulo Tarcísio
Cavalcanti, "Aluízio Alves - o despertador da
esperança" (para adquiri-lo ligar para 3211-1140);
ex-prefeito de Natal, engenheiro Vauban Bezerra de
Faria, no dia 2 de abril, aos 83 anos; o jornalista
Adalberto Rodrigues, morto dia 9 de abril aos 76 anos; o
cantor Elino Julião, falecido em 21 de maio aos 69
anos; o jornalista Marco Antônio Antunes, dia 28 de
maio, na Alemanha, aos 56 anos e o coronel Valdomiro
Fernandes Costa, ex-comandante da Polícia Militar, 71
anos, dia 4 de junho. A seqüência foi,
coincidentemente, nos fins de semana e desses apenas
Adalberto foi sepultado no cemitério do Alecrim, indo a
maioria dos demais para a futura história do Morada da
Paz, em Emaús.
Diante
da sucessão de óbitos de pessoas famosas e por isso
mesmo notícia na imprensa - e certamente na rádio CBN
- o superintendente jornalista Jânio Vidal - avesso ao
tema e pelo título não deve estar sequer lendo este
artigo - chamou atenção para o início das semanas
sempre marcadas por notícias que davam ao noticiário
um tom de morbidez. Achei a observação interessante,
tanto quanto a explicação do filósofo grego Epicuro
(341 - 270 a.C) para falar da morte: "Enquanto
existimos, a morte não existe, e quando ela chega, não
existimos nós". Mesmo respeitando a aversão de um
e a tranqüilidade do filósofo, faço aqui uma revelação
para que percebam porque achei o tema interessante.
É
que menino morei durante anos na rua Campo Santo, hoje
Avenida Governador Rafael Fernandes, no Alecrim. A casa
era a do meu avô Francisco Bezerra de Medeiros e o
quintal tinha como o muro dos fundos o do próprio cemitério.
Sim, o do Alecrim. E o quarto em que me hospedava tinha
uma janela aberta de onde muitas vezes à noite
contemplava as cruzes e os monumentos ali construídos
ao longo do tempo. Invoco o testemunho de Walter, meu
irmão, que insere semanalmente este artigo no seu site rnsites.com.br
. Isto é, aprendi desde menino a conviver até com os
mortos. Só um muro nos separava. Aliás, nossos avós e
pais já estão do outro lado. Fazendo lembrar outra
frase famosa: "Aqueles que amamos nunca morrem,
apenas partem antes de nós".
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