OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

SEGUNDO TEMPO

 

 

Wellington Medeiros

 

 

Passada a Copa do Mundo, com a Itália sagrando-se tetracampeã, é hora de mudar de assunto, virar o disco como se dizia antigamente, pois nem só o futebol prende a atenção dos brasileiros de quatro em quatro anos, mas também as eleições nas quais ficam de fora apenas as de prefeito e vereador. Os comentários sobre a campanha do Brasil na Copa da Alemanha mostraram toda nossa indignação e alguns ficaram na memória, por conseguir traduzir em poucas palavras o sentimento de revolta pelo fiasco da seleção de Parreira. Como este do comentarista Arnaldo Jabor, na rádio CBN, lembrando a famosa frase de Nelson Rodrigues para descrever a mobilização e a expectativa que as copas do mundo criam no Brasil: "A seleção é a pátria de chuteiras". Para ele, agora são "Chuteiras sem pátria".

Encerrada a Copa - para nós brasileiros em clima de tristeza, e para alguns até choro e revolta - está começando o segundo tempo, uma temporada de alegria. É a campanha eleitoral 2006. Se a Copa nos permitiu alguns poucos momentos de alegria, a campanha eleitoral é diferente. Quase todos os instantes são, aparentemente alegres, começando pelos marqueteiros, comunicadores e assessores jurídicos - estes já tentando mostrar serviço - selecionados para o trabalho extra. Depois é só observar o sorriso largo dos candidatos, os abraços, apertos de mão, as mensagens, as músicas sempre "pra cima" e o alto astral que tentam aparentar, fazendo com que nesses próximos dois meses e meio o eleitor se sinta prestigiado, valorizado, gente.

Mesmo mudando de assunto é bom que se avalie o papel desempenhado pela maioria dos veículos da imprensa especializada nos dois eventos. Na Copa do Mundo endeusando os jogadores selecionados, fazendo com que os torcedores brasileiros acreditassem que o grupo era imbatível. Na política, apesar de toda a cobertura dos escândalos - caixa 2, suborno, mensalão, sanguessuga, CPIs, enfim às investigações comprovando nítida prática de corrupção no governo do PT - todos continuam soltos, muitos deles candidatos, fazendo atual a frase de Rui Barbosa advertindo que "de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

Como num e no outro evento percebe-se que a imprensa levou de goleada - a primeira, por merecimento, mas no segundo caso, até agora, por culpa do juiz, o primeiro a não ver nada, não saber de coisa alguma, enquanto todo tipo de falta era cometida e, apesar de advertido, optou pela impunidade, da qual calcula se autobeneficiar. Se no primeiro evento, a recuperação somente daqui a quatro anos, no outro - o das eleições - o trabalho da imprensa poderá ser o grande adversário dos que se imaginam impunes. É que a partir do dia 15 de agosto - quando o jogo político começará para valer - o brasileiro que ainda parece tonto diante da overdose de corrupção, poderá ser despertado, de forma didática, no horário eleitoral, para o que ocorreu nesses últimos quatro anos. Aí, a imprensa - especialmente a televisão - deverá refrescar a memória - curta - do povo.

Tão curta como esta frase que encontrei na Internet: "Brasil? Fraude explica". Ou estas que mostram o conceito sobre muitos que fizeram por onde: Ladrão que rouba ladrão vive no Distrito Federal; Todo homem que se vende recebe mais do que vale; Faça seu candidato trabalhar, não vote nele; Não roube, o governo detesta concorrências !!!Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal. Ou esta piada: Dois políticos analisam uma proposta de negociata em Brasília. São muitos milhões em jogo. Um deles pergunta: - Quanto nos dariam por isso? - Num país sério, nos dariam uns quinze anos, eu acho.

E para os que desejam começar a semana com astral diferente da semana passada, selecionei dez frases que se fossem candidatas, ocorreria uma disputa bem acirrada: "Chato é quando você fala "aparece lá em casa", e o cara aparece; O pior cego é aquele que anda sem bengala; Administrar dinheiro é fácil. Difícil é administrar a falta dele; Antes sonhava, hoje não durmo mais; De onde menos se espera é que não sai nada mesmo; Feliz é índio, só entra em fila quando tem dança na tribo; Meia idade: é a altura da vida em que o trabalho já não dá prazer e o prazer começa a dar trabalho; Boa coisa é ter amigos, ruim é precisar deles; Você pode melhorar sua aparência sem precisar de operação plástica: basta sorrir ou Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta.

 

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 10.07.2006

 

 

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