OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

LOCUÇÕES ELEITORAIS

Wellington Medeiros

 

Estamos a exatos dois meses das eleições. De acordo com o calendário, dentro de duas semanas terá início a propaganda no rádio e televisão - o chamado "Guia Eleitoral". Antes tratado com desdém, agora é apontado como palanque eletrônico, no qual os candidatos vão tentar chegar ao eleitor a esta altura ainda mostrando-se desinteressado, mas já se definindo, de acordo com as pesquisas. Contribui para essa apatia, os veículos de comunicação de massa - rádio e televisão - também distantes e como se não bastasse a Justiça Eleitoral, agora sob severo patrulhamento das assessorias jurídicas dos partidos. Percebe-se uma voracidade tal na busca de flagrar o mínimo deslize de qualquer veículo, a ponto de ruborizar o mais truculento dos censores que atuavam durante o regime militar.

Os advogados partidários cumprem o seu papel, mas estão carregando demais nas tintas e já provocam reações como a do superintendente da Tv Tropical, jornalista Jânio Vidal que está vindo a público para mostrar que não é por aí. A cada eleição é essa mesma catilinária de tratamento eqüânime aos partidos políticos, desiguais pela própria natureza. Uns com história e serviços prestados, outros usados como trapézio por alguns oportunistas. Esse debate, envolvendo os meios de comunicação, vem de longe - e algumas vezes se busca desviar a atenção da Justiça Eleitoral para os verdadeiros delitos rondando a manifestação livre do eleitor.

Mesmo assim, a campanha em curso vem proporcionando o ressurgimento de locuções tradicionais, como as que estão inseridas - são 505 ao todo - no livro de mesmo título do mestre Luís da Câmara Cascudo. Falecido há 20 anos, coincidentemente no período de uma campanha eleitoral, Câmara Cascudo foi homenageado durante toda a semana que passou. Encantou-se, como bem denominaram os órgãos culturais, no dia 30 de julho de 1986 aos 88 anos de idade. Oito anos antes, pediu - beneficiado pela idade - o cancelamento do título eleitoral. Não que fosse avesso à política - era querido e respeitado por todos, indistintamente e nos anos 30 chegou a ser eleito Deputado federal - mas porque queria "ficar em casa sendo marido, pai e avô, intimamente só, lendo, escrevendo, descansando".

Antes da presente campanha, por exemplo, e nunca foi muito diferente, era o Nhenhenhém ( locução 33 do livro "Locuções Tradicionais no Brasil" ), isto é a conversa, explicação, queixa interminável, repetida em tom de lamúria, irritante e monótona para a formação das alianças. Estas, mantidas por algum tempo a Sete Chaves (locução 427), sigilo total e cautela absoluta. E tudo girava em torno de outra locução tradicional: Macaco velho não mete a mão em cumbuca (a de número 380). Conta a história de laços e armadilhas para a captura desses animais. Depois de certo tempo podiam pegar os mais novos. Os mais velhos nem olhavam pra cumbuca.

Em plena campanha, ressurgem algumas positivas, como Quebrar Lanças (288), ou seja, pugnar, defender, combater em defesa de algo, outras bastante usadas como Virar Casaca (455) traduzida como versatilidade política. Transferência da fidelidade partidária. Convicção sucessiva. Enfim, mudar de partido.Conta Cascudo que Carlos Emanuel III de Savóia (1701-1773), defendendo seu ameaçado patrimônio territorial, aliava-se aos franceses ou aos espanhóis, conforme a utilidade, usando alternadamente as cores nacionais desses países em sua casaca. Ou ainda Trastejando (273), hesitando, vacilante, indeciso, versátil, negando fogo, retardando manhosamente o compromisso, é-não-é.

A locução 487 - Uns gatos-pingados, já começa ser ouvida nesta fase da campanha, onde a temperatura começa a subir. Significa número diminuto de assistentes, sem animação e curiosidade. Daí esses dois próximos meses deverão servir para que os candidatos tentem destravar a primeira campanha sem showmícios, camisetas, bonés, brindes e outdoors. E só vão conseguir, como já estão fazendo, com liberdade de expressão. Que não pode ser negada aos comunicadores seja no rádio ou na televisão, dentro das limitações do período eleitoral, no caso de envolver candidatos. Se essa garimpagem de pequenas frases na extensão de um contexto passar a ser considerada e aceita como infringência à lei - a exemplo do que se tentou com um programa da Tv Tropical - poderá estar sendo criada uma nova locução eleitoral: a censura. Pura e simples.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 30.07.2006

 

 

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