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Estamos
a exatos dois meses das eleições. De acordo com o
calendário, dentro de duas semanas terá início a
propaganda no rádio e televisão - o chamado "Guia
Eleitoral". Antes tratado com desdém, agora é
apontado como palanque eletrônico, no qual os
candidatos vão tentar chegar ao eleitor a esta altura
ainda mostrando-se desinteressado, mas já se definindo,
de acordo com as pesquisas. Contribui para essa apatia,
os veículos de comunicação de massa - rádio e
televisão - também distantes e como se não bastasse a
Justiça Eleitoral, agora sob severo patrulhamento das
assessorias jurídicas dos partidos. Percebe-se uma
voracidade tal na busca de flagrar o mínimo deslize de
qualquer veículo, a ponto de ruborizar o mais
truculento dos censores que atuavam durante o regime
militar.
Os
advogados partidários cumprem o seu papel, mas estão
carregando demais nas tintas e já provocam reações
como a do superintendente da Tv Tropical, jornalista Jânio
Vidal que está vindo a público para mostrar que não
é por aí. A cada eleição é essa mesma catilinária
de tratamento eqüânime aos partidos políticos,
desiguais pela própria natureza. Uns com história e
serviços prestados, outros usados como trapézio por
alguns oportunistas. Esse debate, envolvendo os meios de
comunicação, vem de longe - e algumas vezes se busca
desviar a atenção da Justiça Eleitoral para os
verdadeiros delitos rondando a manifestação livre do
eleitor.
Mesmo
assim, a campanha em curso vem proporcionando o
ressurgimento de locuções tradicionais, como as que
estão inseridas - são 505 ao todo - no livro de mesmo
título do mestre Luís da Câmara Cascudo. Falecido há
20 anos, coincidentemente no período de uma campanha
eleitoral, Câmara Cascudo foi homenageado durante toda
a semana que passou. Encantou-se, como bem denominaram
os órgãos culturais, no dia 30 de julho de 1986 aos 88
anos de idade. Oito anos antes, pediu - beneficiado pela
idade - o cancelamento do título eleitoral. Não que
fosse avesso à política - era querido e respeitado por
todos, indistintamente e nos anos 30 chegou a ser eleito
Deputado federal - mas porque queria "ficar em casa
sendo marido, pai e avô, intimamente só, lendo,
escrevendo, descansando".
Antes
da presente campanha, por exemplo, e nunca foi muito
diferente, era o Nhenhenhém ( locução 33 do livro
"Locuções Tradicionais no Brasil" ), isto é
a conversa, explicação, queixa interminável, repetida
em tom de lamúria, irritante e monótona para a formação
das alianças. Estas, mantidas por algum tempo a Sete
Chaves (locução 427), sigilo total e cautela absoluta.
E tudo girava em torno de outra locução tradicional:
Macaco velho não mete a mão em cumbuca (a de número
380). Conta a história de laços e armadilhas para a
captura desses animais. Depois de certo tempo podiam
pegar os mais novos. Os mais velhos nem olhavam pra
cumbuca.
Em
plena campanha, ressurgem algumas positivas, como
Quebrar Lanças (288), ou seja, pugnar, defender,
combater em defesa de algo, outras bastante usadas como
Virar Casaca (455) traduzida como versatilidade política.
Transferência da fidelidade partidária. Convicção
sucessiva. Enfim, mudar de partido.Conta Cascudo que
Carlos Emanuel III de Savóia (1701-1773), defendendo
seu ameaçado patrimônio territorial, aliava-se aos
franceses ou aos espanhóis, conforme a utilidade,
usando alternadamente as cores nacionais desses países
em sua casaca. Ou ainda Trastejando (273), hesitando,
vacilante, indeciso, versátil, negando fogo, retardando
manhosamente o compromisso, é-não-é.
A
locução 487 - Uns gatos-pingados, já começa ser
ouvida nesta fase da campanha, onde a temperatura começa
a subir. Significa número diminuto de assistentes, sem
animação e curiosidade. Daí esses dois próximos
meses deverão servir para que os candidatos tentem
destravar a primeira campanha sem showmícios,
camisetas, bonés, brindes e outdoors. E só vão
conseguir, como já estão fazendo, com liberdade de
expressão. Que não pode ser negada aos comunicadores
seja no rádio ou na televisão, dentro das limitações
do período eleitoral, no caso de envolver candidatos.
Se essa garimpagem de pequenas frases na extensão de um
contexto passar a ser considerada e aceita como infringência
à lei - a exemplo do que se tentou com um programa da
Tv Tropical - poderá estar sendo criada uma nova locução
eleitoral: a censura. Pura e simples.
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