OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

CLARICE PALMA

Wellington Medeiros

 

É praxe em discursos, durante a saudação a diferentes segmentos presentes com muitos nomes de expressão, se fazer a citação de um deles e pedir que os demais se sintam homenageados. Hoje, recorro a esse argumento oratório para assinalar os 10 anos da morte de Clarice Palma, expoente da intelectualidade feminina com quem tive a alegria de ter convivido e através dela homenagear as mulheres norte-rio-grandenses que se dedicam às letras e às artes aí incluindo a música. E esclareço logo que na atual campanha não sou candidato. Mesmo com essa intenção de homenagear a todas - também as políticas, as que prestigiam a nossa cultura -   abro uma exceção, para nomear duas norte-rio-grandenses recém eleitas para a Academia de Letras: Diva Cunha e América Rosado. Uma para a vaga de Aluízio Azevedo e a outra para a de Vingt-un Rosado.

Clarice Palma, que deixou pelo menos uma dezena de livros publicados, muitos deles editados pela gráfica da Imprensa Oficial, exato na época sob a nossa direção, faleceu no dia 11 de agosto de 1996,dedicou a maior parte de sua vida à arte cênica, consagrando-se na interpretação de "Dona Xepa", personagem-título da peça de Pedro Bloch. Foi a primeira mulher natalense a encenar no palco do Alberto Maranhão e, por isso, era considerada a Dama do Teatro Potiguar. Mas, a habilidade de Clarice não se limitava apenas ao palco. Tocava bandolim e violão,dirigiu vários programas radiofônicos e num poema deixou cravado este verso: Com Wellington, fiz Serenatas/em noites claras e belas ... /e na radiofonia/Já fizemos com alegria/ grandes papéis em novelas!. Isso mesmo, está na página 72 do livro "... E minha vida continua!", o décimo que lançou, em 1986.

E continuou ainda por mais dez anos, dentro da maneira discreta e reservada em que viveu, junto à filha adotiva Therezinha até subir ao "Novo palco para Clarice" , título da reportagem da jornalista Salésia Dantas, publicada no Diário de Natal, edição de 16 de agosto de 1996, relatando o novo e definitivo cenário. A escritora, que era funcionária do Tribunal Regional Eleitoral - foi aprovada em primeiro lugar no Concurso de Técnico Judiciário - pertenceu a várias entidades culturais, entre elas a Ordem dos Músicos do Brasil, Academia de Trovas, Movimento Poético Nacional e manifestava o desejo de ingressar na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Canditatou-se em 1979, quando a vaga foi preenchida por Mário Moacir Porto.

Clarice, também jornalista - nesse tempo não havia a exigência de diploma - escreveu em jornais e revistas e tinha um mérito que conservou até os 85 anos: temperamento jovial, transmitindo muita energia e sendo dotada de espantosa memória. O escritor Menotti Del Picchia, agradecendo o exemplar do livro "Eu, de volta!" que ela escreveu em 1978, lhe enviou um bilhete elogiando os versos: "Há neles uma permanente carga de mocidade sadia, irradiante e contagiosa, que torna seus poemas um sedativo espiritual, tão necessário para este mundo de tanta vaidade, violência e miséria". Do confrade do Movimento Poético Nacional, falecido em  1988, ela guardava um livro miniatura por ele autografado contendo apenas o poema "Juca Mulato", com a dedicatória: "Clarice, este Juca Mulatinho é seu.Guarde-o".

Alto astral, Clarice Palma fazia amizades e procurava cultuá-las, como ocorria desde os operários da Imprensa Oficial responsáveis pela editoração e revisão gráfica dos seus livros até o general José Moretzsohn, comandante da Sétima Brigada, a quem dizia ter adotado como filho. No último livro, um poema dedicado ao militar que era mineiro, quando este recebera em agosto de 1985 o título de Cidadão Natalense. Foi nesse livro que também ficaram poemas narrando a doença e morte do então Presidente Tancredo Neves. Um deles glosa a famosa frase do Presidente aos amigos preocupados com a sua dura rotina nas vésperas da posse: "Terei toda uma eternidade para descansar".

                    No poema "... E minha vida continua!", que dá título ao seu último livro, ela consegue mostrar toda a sua razão de viver: "Minha vida continua/ sem sintomas de velhice/ há 74 anos, querendo mais outro tanto/ cheio de paz e de encanto/ de ternura ... de Meiguice". Nesse poema, escrito em janeiro de 1985 ela preconiza: E se findar, algum dia/ esta doce Vida minha/ quando, então, me "empacotarem"/ num caixão, sem ter mais jeito/ pode dizer, a respeito/ que eu vou indo "Danadinha"!!!. Era assim a natalense Clarice da Silva Pereira Palma. Sempre de bem com a vida.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 14.08.2006

 

 

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