OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

BARRIGA DO ALUGUEL

Wellington Medeiros

 

Há exatos 25 anos, embora de forma induzida, o jornal "A República", sob a nossa direção, cometeu um erro que no jargão chamamos de "barriga". Ainda por cima, ampliada através de uma nota na coluna "Informe JB", espaço nobre do Jornal do Brasil, edição de 11 de agosto de 1981. Sob o título "O uso do cachimbo", a nota tinha o seguinte conteúdo: "O jornal "A República", porta-voz oficial do Governo do Rio Grande do Norte, noticiou na primeira página de sua edição de sábado, que o General Golbery do Couto e Silva havia sido substituído na chefia do Gabinete Civil da Presidência da República pelo General Leitão de Abreu". Esse segundo "General" era grafado em itálico para acentuar bem o nosso erro. Leitão de Abreu era renomado jurista e iria exercer o cargo no Governo do presidente João Figueiredo. Pedi ao editor a fonte da informação: Agência AJB, ou seja, Agência Jornal do Brasil.

O telex AJB 060-A - o "a" era de atenção -  exibia o título Leitão de Abreu e o seguinte texto: "Brasília (AJB) - Ao final da tarde de hoje, dia 7, ganharam corpo as informações de início tímidas, de que o General João Leitão de Abreu, que exerceu esse mesmo cargo no Governo Médici, será o substituto do General Golbery do Couto e Silva, na chefia do Gabinete Civil da Presidência da República". Encaminhei o telex ao redator Cícero Sandroni, historiando os fatos como cliente da AJB, a quem chamei de "cachimbo que há três anos usamos para manter bem informados os nossos leitores, através dos noticiários nacional e internacional que, com regularidade, eficiência e credibilidade, nos vêm sendo fornecidos".

Apresentadas as desculpas, relevei o incidente - pelo visto a nossa barriga do aluguel - e que deve servir de lição para quem faz esse tipo de jornalismo de insinuações, embora saiba que está lidando com pessoas do mesmo ramo, sujeitas naturalmente a falhas e que não deveriam ser expostas como desinformadas ou alienadas. É uma prova de que nós -  pode ser no Jornal do Brasil, no The New York Times, na centenária "A República" ou neste JH - não somos infalíveis e que na hora em que constatarem uma falha, primeiro se inteirem sobre as suas causas para poder fazer críticas ou julgamentos.

Hoje, vê-se que nem mesmo o avanço ocorrido nas três últimas décadas - quando passamos do teletipo para o telex, daí para o satélite e a Internet, da folha diagramada para a editoração eletrônica - tem evitado que, diariamente, falhas sejam observadas em jornais e revistas, como a troca de títulos, de fotografias, datas e até em preços de mercadorias de anúncios que já chegam prontos das agências de publicidade. Se isso ocorre agora, com o trabalho sendo executado em salas equipadas e com ar condicionado, imaginem nos anos literalmente de chumbo. Eram as linotipos e as páginas montadas em textos compostos em pedaços de chumbo e os clichês, chapa metálica em que eram gravadas as imagens.

Contava-se nos dedos os balanços de empresas que não eram republicados por incorreção. Geralmente eram páginas repletas de números, somas e gráficos e que, apesar de todos os cuidados - na Tribuna do Norte eram mil recomendações do Dr. José Gobat e a dedicação na oficina de Baltazar Pereira - no final ainda surgia um número fora do alinhamento ou o cerco de um gráfico incompleto. E o cliente cheio de razão pedindo a republicação.A época de balanços para os jornais é o Natal hoje para os lojistas. Principalmente para a TN, durante o regime militar, com o fundador Aluízio Alves cassado e o diretor Agnelo Alves idem - cujo nome não podia sequer aparecer no expediente - tendo que segurar a barra da discriminação e do medo que assustava muitos empresários.

Com a modernidade o termo republicação caiu em desuso, dando lugar a Errata ou Erramos. Mesmo assim, matei a saudade na semana passada ao ver um artigo meu - o de número 123 -  publicado regularmente às segundas-feiras, desde 23 de março de 2004 neste JH,  "republicado por troca no crédito do autor". E aqui registro a atenção e o zelo incomuns do coordenador desta página, Roberto Canuto e da equipe do JH em busca de falha zero. Nesses três anos, nenhuma linha cortada no final do parágrafo. Pontuação ou acentuação mostrando incompatibilidade entre o meu computador e o do jornal. Sintonia perfeita. Nada a reclamar. Aliás, se existe uma pessoa que poderia muito bem tratar de alguns personagens citados no artigo que "assinamos" sobre folclore dos políticos, é o companheiro de página Franklin Capistrano. Afinal, além de vereador, escritor e militante católico ele é médico psiquiatra.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 28.08.2006

 

 

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