OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

A RETA DE CHEGADA

Wellington Medeiros

 

A pouco mais de três semanas para as eleições, não deve queimar a língua quem disser que esta é a campanha mais tranqüila pelo menos dos últimos 30 anos no Rio Grande do Norte. Esse clima - mesmo nessa reta de chegada - pode ser atribuído de um lado à aliança das duas mais expressivas lideranças políticas - Garibaldi Filho e José Agripino - e do outro à legislação eleitoral, cujas regras são cada vez mais  rígidas. Sem poder fazer propaganda em outdoor, distribuir brindes como bonés e camisetas, a maioria dos candidatos se limita às aparições no Guia Eleitoral  e na distribuição de fotografias com os respectivos números - os chamados "santinhos" - além dos carros de som, freados para uns devido o alto preço dos combustíveis.

Assim, os 2.101.144 eleitores norte-rio-grandenses aguardam apenas chegar a hora de comparecer às urnas no próximo dia 1º e manifestar a sua preferência, sem grande poluição visual - até os adesivos em veículos são escassos -  movimentação comedida dos carros de som e a quase ausência de denúncias ou acusações. É que os dois principais candidatos ao Governo - Garibaldi Filho e Wilma de Faria - foram aliados quando o primeiro exerceu, antes dela, o segundo mandato de governador, resultando na liberação de volumosos recursos originados da venda da Cosern para a então prefeita de Natal. Essa aliança invalida críticas à venda da empresa estatal. Enquanto denúncias de irregularidades praticadas no governo atual e que estão diariamente na imprensa, não chegam ao Guia Eleitoral dada a limitação de tempo e a chatice do direito de resposta.

Nesse cenário em que ninguém descompõe ninguém é que emerge um novo tipo de especulação, mais para a ocupação de espaços nos jornais, envolvendo as pesquisas eleitorais. Os marqueteiros, que foram estrelas em campanhas passadas agora são vistos com naturalidade em  qualquer estrutura. Estão fazendo a parte deles e os programas, tecnicamente, se nivelam. Os assessores jurídicos que se imaginava fossem dominar a cena, igualmente prestam hoje os seus serviços da mesma forma que em campanhas recentes. A Lei das Eleições 9.504, de 30 de setembro de 1997 é a mesma, com os ajustes naturais a cada dois anos. Mas, entram na moda os analistas de pesquisas.

Tem análise para todos os gostos - ou gastos. Manipulações as mais estapafúrdias pelos que aparecem em desvantagem. Uns parecem estar lendo as pesquisas de cabeça para baixo, outros embaralham os números dos diferentes institutos para confundir o eleitor. Tem até pesquisa fantasma. Quase que diariamente, surgem boatos e declarações nos jornais de pessoas que imaginam que o leitor é besta ou idiota. É preciso ser alienado para sequer ler tanta baboseira, tentando distorcer números, gerar fatos. Aliás, se as universidades quiserem prestar um serviço à sociedade é criar até 2008 a cadeira de Analista de Pesquisa Eleitoral. Certamente vai ser uma das mais concorridas e com emprego garantido, pelo menos daqui a dois anos.

Esses "analistas", lembram uma seqüência de fatos ocorrida há quase dois séculos e que ficou na história. Deposto em 1813, Napoleão Bonaparte refugiou-se na ilha de Elba. Informado da fragilidade do governo provisório, fugiu da Ilha e desembarcou na costa Meridional da França no dia 1º  de março de 1815, rumando para Paris. Valendo-se de fontes mal informadas, ou usando tal artifício para agir de forma tendenciosa, o jornal parisiense "Le Moniteur" hoje é exemplo para ilustrar como às vezes se formam (ou se deformam) as opiniões da imprensa.Confundindo os seus leitores.

 As manchetes desse jornal mostraram como  as coisas podem mudar no curto espaço de duas semanas: Março de 1815, manchete do dia 09/03 - O MONSTRO fugiu do local do exílio; dia 10 - O OGRO (bicho papão) desembarcou em Cabo Juan; dia 11 - O TIGRE apareceu em Gap. As tropas estão chegando de todos os lados para deter-lhe a fuga. A miserável aventura acabará em fuga nas montanhas; dia 12 - É verdade que o MONSTRO adiantou-se até Grenoble; dia 13 - O TIRANO agora está em Lyon. O terror apoderou-se de todos que o viram chegar; dia 15 - O USURPADOR arriscou-se a chegar a umas 60 horas da capital; dia 19 - BONAPARTE adiantou-se em marchas forçadas, mas é impossível que alcance Paris; dia 20 - NAPOLEÃO chegará amanhã aos muros de Paris; dia 21- O IMPERADOR NAPOLEÃO está em Fontainebleau e, finalmente, dia 22 - Ontem à tarde, SUA MAJESTADE o IMPERADOR entrou solenemente em Paris e chegou ao Palácio. Nada pôde superar a alegria universal.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 04.09.2006

 

 

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