OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

DO LICEU AO CEFET

Wellington Medeiros

 

A semana é de preparativos para um encontro de gerações dispostas a resgatar a memória do atual Centro Federal de Educação Tecnológica - Cefet-RN. No próximo sábado, dia 16, os ex-alunos do Liceu Industrial, Escola Industrial de Natal, Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte e do atual Cefet vão promover um encontro de confraternização, a partir das 9 horas, no Clube dos Empregados da Petrobras - CEPE (antiga Aspetro). Constará de ato ecumênico ministrado por padres e pastores ex-alunos da Instituição, seguido de palestra do ex-ministro dos Transportes  Alfredo Nascimento, ex-aluno da ETFRN, sob o tema "Da Oca ao Planalto". O ex-ministro, natural de Martins (RN) foi prefeito de Manaus, onde reside há trinta anos e, atualmente é candidato a Senador pelo Amazonas. Em seguida, um churrasco será servido ao som de cantores e bandas formadas por ex-alunos.

Os organizadores do evento pretendem iniciar a revitalização da Associação dos ex-alunos dessa Instituição fundada através do decreto 7.566, de 23 de setembro de 1909, do então presidente Nilo Peçanha (mandatos de 1909 a 1910 e 1914 a 1917), com a denominação de Escola de Aprendizes Artífices. Será um momento ímpar, não somente para a confraternização entre gerações ali formadas, mas para que receba apoios a iniciativa do professor aposentado Francisco Bernardino de Souza, meu colega de Escola Industrial, para que seja devolvido ao Cefet - com o compromisso de restaurá-lo - o antigo prédio localizado na Avenida Rio Branco, 743, hoje no acervo da Universidade Federal e exibindo sinais de completo abandono. A UFRN, localizada numa das maiores áreas da zona sul de Natal, certamente não irá sentir falta de um pedaço de terreno, onde as paredes se deterioram e o mato cresce até ao lado do mastro onde diariamente era hasteada a bandeira nacional.

Fui aluno em dois níveis. No curso ginasial, de 1959/1962, ainda na Avenida Rio Branco e em seguida já na fase de transferência para o novo prédio - no recém criado curso técnico de Mineração, 1962/1966. É uma fase que lembro hoje com orgulho, mas lamento pelo abandono do seu maior símbolo. Considero um gesto de grandeza quando um candidato - a atual campanha política é exemplo disso - numa  prova de memória, gratidão e humildade exibe na propaganda a casa simples onde nasceu. Demonstra que venceu na vida. É o contrário da escola, um prédio bonito, de arquitetura colonial imponente e que simplesmente virou um monstrengo no centro da capital.

Em artigo que escrevi no dia 10 de maio de 2004 neste mesmo jornal, lembrei que durante essas quatro décadas muitos prédios de Natal ganharam nova destinação, receberam melhorias, como a Capitania dos Portos (hoje Capitania das Artes); o Quartel General do Exército (agora Museu Câmara Cascudo); Palácio Potengi (transformado em Palácio da Cultura); "A República", cujo prédio foi reformado e dotado de um museu e até a sede do extinto Bandern, na Ribeira (hoje Procon estadual), além da preservação e cuidados com prédios como o Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura e o Teatro Alberto Maranhão. A antiga escola somente se compara à Estação Rodoviária da Ribeira, esta assim mesmo com projeto para ser reformada dentro de nova destinação.

Que o encontro deste sábado seja festivo, alegre, fraterno, mas sirva de reflexão e até mesmo para um abraço simbólico na escola-mãe, por cujas salas passaram mestres como Jeremias Pinheiro, Alvamar Furtado, Francisco das Chagas Pereira, Rivaldo Pinheiro, José Bonifácio, José Melquíades, Arnaldo Arsênio, Lourdes Guilherme, Angelita Marinho, Carmem Pedroza, Fernando Cisneiros, Rui Xavier, Geraldo Serrano, Jorge Romano, José de Góis, Pedro Pinheiro de Souza, os irmãos Irineu e Pedro Martins de Lima e tantos outros que só recordo o primeiro nome como mestres Paulo, Natanael, Isaías e a professora Odir.

E que todos possam lembrar a Música "Estudante do Brasil", na época adaptada para o ensino industrial: "Estudante industrial/ Tua missão é a maior missão/ Batalhar pela verdade,/ impor a tua profissão. E o estribilho: Marchar, marchar para a frente! / Lutar incessantemente! /A vida iluminar, / idéias avançar! E assim, tornar bem maior/ Com todo ardor juvenil/A Raça o Ouro, o esplendor/Do nosso imenso Brasil!. Ou, se preferirem, uma análise - porque tem tudo a ver - da frase do presidente advogado Nilo Peçanha, há quase um século, para impulsionar o ensino profissionalizante: "O Brasil de hoje saiu das academias, o Brasil de amanhã sairá das oficinas".

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 11.09.2006

 

 

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