OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 

 

ORTEGA E O VOTO 

 

 

Dos artigos publicados pela "Folha de S. Paulo" em 1978, período no qual fui correspondente,  "Ortega e o Voto" foi também para a minha hemeroteca. Ano eleitoral, em pleno regime militar, somente o fato de conter o semidesaparecido substantivo voto já chamava atenção. José Ortega y Gasset, escritor, filósofo e ensaísta espanhol que viveu entre 1883-1955, é considerado o maior filósofo do mundo hispânico, isto é, o mundo de fala espanhola e portuguesa no qual está incluído o Brasil. Do autor de "A rebelião das massas", a Folha extraiu trechos, nos quais ele faz a defesa do Parlamento: "Dizem que as instituições democráticas perderam seu prestígio. Mas é isso, exatamente, que precisa ser explicado. Pois nada mais estranho que a alegação de desprestígio da democracia e de sua instituição fundamental - o Parlamento".

Fala-se mal do Parlamento em toda parte - dizia ele já naquela época - mas não há uma única sugestão séria de uma instituição que o substitua. Nem sequer existem perfis utópicos de outras formas de Estado que, ao menos idealmente, pareçam preferíveis. Não se deve, pois, acreditar muito na autenticidade desse aparente desprestígio. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez por todas, porque é inquietante ouvir as inépcias que a toda hora se dizem a propósito do Parlamento. É claro que há toda uma série de objeções válidas no modo de conduzir-se dos Parlamentos tradicionais. Mas examinando-as uma a uma, o que se verifica é que nenhuma delas autoriza a conclusão de que se deva suprimir o Parlamento. Ao contrário: todas levam, por via direta e evidente, à necessidade de reformá-lo.

Pois bem - aduzia Ortega -  o melhor que humanamente se pode dizer de uma coisa é que necessita ser reformada, pois isso significa que ela é imprescindível e que é capaz de nova vida. O automóvel atual saiu das objeções que se fizeram ao automóvel de 1910. E dizia mais: "O desprestígio dos Parlamentos não tem nada a ver com seus notórios defeitos. Procede de outra causa, inteiramente alheia à sua natureza de instrumentos políticos. A saúde das democracias, quaisquer que sejam seu tipo e seu grau, depende de um mísero detalhe técnico: o processo eleitoral. Se o regime eleitoral é correto, se se ajusta à realidade, tudo vai bem; se não, embora o resto marche otimamente, tudo vai mal.

Agora, é de se perguntar: o nosso regime eleitoral é correto?  - É, deve ser a resposta. É lei e assim deve ser cumprida. Pode ser reformada? - Pode, não mais para esta eleição na qual foram introduzidos alguns remendos na legislação, mas não a ponto de punir - espera-se que o eleitor o faça - os envolvidos em casos de corrupção, como valerioduto, caixa 2, mensalão, vampiros, sanguessugas para ficarmos apenas nesses cinco ícones envolvendo malversação do erário. Hoje, quando vivemos a  "rebelião do virtual", basta acessar um site de busca da Internet e digitar qualquer dos cinco escândalos e lá estarão deputados federais e em menor número, senadores. Enfim, sobrou para o Legislativo. Raramente, menção ao Executivo, cujo chefe -  espertalhão e esquivo - ainda diz na maior cara-de-pau que nada sabia.

E caso vá fundo em qualquer dos ícones, lá estarão os envolvidos novamente disputando lépidos e fagueiros o voto na atual eleição. Nesta em que o eleitor tem ainda duas semanas -  dez dias de propaganda no rádio e televisão - para refletir e se preparar para fazer a sua própria "rebelião". Apesar da legislação merecer reparos - um deles é a Justiça Eleitoral não poder barrar de ofício muitos marginais - o processo é dos mais avançados do mundo. Desde preparação prévia, transmissão das sessões do TRE ao vivo, urnas eletrônicas, os resultados fornecidos no mesmo dia, tudo isso são avanços recentes e que precisam ser entendidos pelo eleitor como aperfeiçoamento desse instrumento democrático chamado voto.

 "A Importância do Voto Consciente", mensagem do Cardeal D. Eugênio de Araújo Sales, inserida no site da Arquidiocese do Rio de Janeiro - www.arquidiocese.org.br - traduz com a sua reconhecida lucidez este momento: "Caiu sobre nosso povo uma imensa desilusão relativa aos políticos, pela atitude de não poucos que se servem do mandato, antepondo o próprio bem ao bem comum. Ao descalabro provocado pelos desvios de dinheiro público, em benefício próprio ou da família, veio acrescer a desconfiança que ameaça seriamente o País. Sem negar a gravidade dos fatos e dos delitos, muitas vezes impunes, não lancemos o descrédito às instituições democráticas. Antes, devemos dar nossa contribuição por ocasião do pleito eleitoral, para punir os infratores e evitarmos a repetição dessas ações".

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 18.09.2006

 

 

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