OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

A VITÓRIA DE BABÁ 

 

Apesar da fama de termos memória curta, talvez ainda dê para lembrar que a recente campanha eleitoral mais parecia um campo minado. Bombas que não explodiam. Outras que se transformavam num traque. Mesmo assim serviram para fazer do processo um dos mais tensos dos últimos anos. A expectativa era de que a qualquer momento um novo escândalo viesse à tona. O dossiê que seria usado contra os tucanos em São Paulo foi um dos exemplos. Talvez pela ausência dos showmícios, faltou mais alegria. Os fogos somente se ouviam para “sinalizar” - como antigamente o tambor na selva - a presença dos candidatos em algum ponto das cidades. Foi mesmo uma campanha chata e chocha.

Na eleição estadual, do balanço não se consegue guardar nenhum fato mais ameno, apesar da presença, no primeiro turno, do Xeque Humberto, Kanelinha e Zé do Bode, entre outros. Mas, ficaram guardados números preocupantes, especialmente deste segundo turno realizado há exatos 15 dias: 351.506 eleitores simplesmente não compareceram para votar; 155.058 anularam o voto e 21.307 votaram em branco. De cada quatro eleitores, um estava indiferente à escolha dos novos governantes.

Hoje, quem se arriscar a guardar alguns tópicos da campanha, paralelos ao seu dia-a-dia – comício, discursos, promessas, carreatas, adesões, pesquisas – vai encontrar dificuldade para um recall – recordação em inglês - como se faz ainda hoje de campanhas passadas. Se insistir e pesquisar pode até mesmo encontrar alguns fatos ou notas, mas sempre com intenção maldosa, a maioria atingindo pessoas de forma grosseira, deixando bem claro as primeiras e únicas intenções.

Até as brincadeiras com as músicas de campanha dos candidatos, foram de mau gosto, não devendo sequer merecer qualquer registro. Ocorrendo o mesmo com as próprias músicas. Dá para perceber, em todos os setores envolvidos, que já não se faz campanha como antigamente. E esse antigamente, embora remonte ao século passado, não é tão antigo assim. Basta olhar no calendário e ver que esta é apenas a terceira eleição deste século. E os avanços - literalmente - já deixaram as suas marcas. E, para tanto, devem ter contribuído as normas, determinando transparência – até na internet - dos valores a serem gastos pelos candidatos. Uns declarando verdadeiras fortunas.

Embora não pudessem gastar com brindes, camisetas, outdoors e showmícios, são escabrosas muitas histórias surgidas durante a campanha, o que me fez lembrar um fato dessa natureza narrado assim pelo padre Zéluiz no seu livro “Na calçada do café São Luiz”, página 91 - E por falar no Vale do Assu, um velho do Alto do Rodrigues, me visitava na semana passada e eu, no meio da conversa, lhe falei sobre os votos vendidos no Alto, por pessoas que até pouco tempo eram inabordáveis neste terreno. Foi quando meu interlocutor me deu esta lição: “A compra de votos, padre Zéluiz, não foi o pior. O que pesou mesmo foi a recompra” (isto é, no dia da eleição).

São inúmeros os fatos pitorescos anotados em outras campanhas, como este também narrado pelo padre Zéluiz no mesmo livro. Era o início dos anos 80 e no artigo ele indagava: Quem não se lembra do ritmo quente de “Pata Pata” música que tomou conta do Brasil na década de 60?. Pois bem, em Goianinha havia dois candidatos à Prefeitura. Um candidato formado, de anel no dedo, família tradicional e um com o popular apelido de Babá.

Na campanha, a mais quente da história política de Goianinha, a ala do Doutor, parodiando “Pata Pata”, animado por um locutor, gritava sem cessar: “O doutor vai ganhar. Taqui pro Babá!”. Mas a campanha não é somente dinheiro, prestígio político, manobras. O povo começou a ter pena de Babá, humilhado com a multidão de dedos seguidos do refrão inevitável. E a coisa foi se modificando.

De repente a humilhação do povo se viu corporificada na humilhação de Babá. Chegou o dia da eleição. Veio a apuração e com ela a grande surpresa: Babá era o prefeito de Goianinha. De repente o povo foi se juntando até que virou multidão. Aí foi a passeata. A maior já realizada. Mistura de gritos, abraços, prantos, emoção e desmaios. E o locutor animando seu povo, pedindo emprestado a música “Pata Pata”. “- O Babá já ganhou. Taqui pro Doutor!!!”... (E haja dedo).

 

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 06.11.2006

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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