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Apesar
da fama de termos memória curta, talvez ainda dê para
lembrar que a recente campanha eleitoral mais parecia um
campo minado. Bombas que não explodiam. Outras que se
transformavam num traque. Mesmo assim serviram para
fazer do processo um dos mais tensos dos últimos anos.
A expectativa era de que a qualquer momento um novo escândalo
viesse à tona. O dossiê que seria usado contra os
tucanos em São Paulo foi um dos exemplos. Talvez pela
ausência dos showmícios, faltou mais alegria. Os fogos
somente se ouviam para “sinalizar” - como
antigamente o tambor na selva - a presença dos
candidatos em algum ponto das cidades. Foi mesmo uma
campanha chata e chocha.
Na
eleição estadual, do balanço não se consegue guardar
nenhum fato mais ameno, apesar da presença, no primeiro
turno, do Xeque Humberto, Kanelinha e Zé do Bode, entre
outros. Mas, ficaram guardados números preocupantes,
especialmente deste segundo turno realizado há exatos
15 dias: 351.506 eleitores simplesmente não
compareceram para votar; 155.058 anularam o voto e
21.307 votaram em branco. De cada quatro eleitores, um
estava indiferente à escolha dos novos governantes.
Hoje,
quem se arriscar a guardar alguns tópicos da campanha,
paralelos ao seu dia-a-dia – comício, discursos,
promessas, carreatas, adesões, pesquisas – vai
encontrar dificuldade para um recall – recordação em
inglês - como se faz ainda hoje de campanhas passadas.
Se insistir e pesquisar pode até mesmo encontrar alguns
fatos ou notas, mas sempre com intenção maldosa, a
maioria atingindo pessoas de forma grosseira, deixando
bem claro as primeiras e únicas intenções.
Até
as brincadeiras com as músicas de campanha dos
candidatos, foram de mau gosto, não devendo sequer
merecer qualquer registro. Ocorrendo o mesmo com as próprias
músicas. Dá para perceber, em todos os setores
envolvidos, que já não se faz campanha como
antigamente. E esse antigamente, embora remonte ao século
passado, não é tão antigo assim. Basta olhar no
calendário e ver que esta é apenas a terceira eleição
deste século. E os avanços - literalmente - já
deixaram as suas marcas. E, para tanto, devem ter
contribuído as normas, determinando transparência –
até na internet - dos valores a serem gastos pelos
candidatos. Uns declarando verdadeiras fortunas.
Embora
não pudessem gastar com brindes, camisetas, outdoors e
showmícios, são escabrosas muitas histórias surgidas
durante a campanha, o que me fez lembrar um fato dessa
natureza narrado assim pelo padre Zéluiz no seu livro
“Na calçada do café São Luiz”, página 91 - E por
falar no Vale do Assu, um velho do Alto do Rodrigues, me
visitava na semana passada e eu, no meio da conversa,
lhe falei sobre os votos vendidos no Alto, por pessoas
que até pouco tempo eram inabordáveis neste terreno.
Foi quando meu interlocutor me deu esta lição: “A
compra de votos, padre Zéluiz, não foi o pior. O que
pesou mesmo foi a recompra” (isto é, no dia da eleição).
São
inúmeros os fatos pitorescos anotados em outras
campanhas, como este também narrado pelo padre Zéluiz
no mesmo livro. Era o início dos anos 80 e no artigo
ele indagava: Quem não se lembra do ritmo quente de
“Pata Pata” música que tomou conta do Brasil na década
de 60?. Pois bem, em Goianinha havia dois candidatos à
Prefeitura. Um candidato formado, de anel no dedo, família
tradicional e um com o popular apelido de Babá.
Na
campanha, a mais quente da história política de
Goianinha, a ala do Doutor, parodiando “Pata Pata”,
animado por um locutor, gritava sem cessar: “O doutor
vai ganhar. Taqui pro Babá!”. Mas a campanha não é
somente dinheiro, prestígio político, manobras. O povo
começou a ter pena de Babá, humilhado com a multidão
de dedos seguidos do refrão inevitável. E a coisa foi
se modificando.
De
repente a humilhação do povo se viu corporificada na
humilhação de Babá. Chegou o dia da eleição. Veio a
apuração e com ela a grande surpresa: Babá era o
prefeito de Goianinha. De repente o povo foi se juntando
até que virou multidão. Aí foi a passeata. A maior já
realizada. Mistura de gritos, abraços, prantos, emoção
e desmaios. E o locutor animando seu povo, pedindo
emprestado a música “Pata Pata”. “- O Babá já
ganhou. Taqui pro Doutor!!!”... (E haja dedo).
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