OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

DANÇA NO GELO 

 

“Não voto em cínico”, “Patota de irresponsáveis”, “Se existir canibalismo, uns comerão os outros e todos morrerão”. Se há menos de um mês estas frases fossem pronunciadas nos programas eleitorais no rádio e televisão, seriam alvos de pedidos de direito de resposta e um dos lados saltaria para denunciar baixo nível, sinal de desespero, desrespeito ao eleitor. Acontece que os eleitos ainda sequer foram diplomados, mas o clima continua de disputa, seja por cargos, espaço, prestígio, outros para tentar mostrar serviço - ou desserviço – à comunidade que a tudo assiste como estivesse em torno de uma pista de gelo, onde os atores após a dança resolvem enxugá-la.

Sem entrar no mérito – se é que existe algum – a declaração do prefeito de Natal, Carlos Eduardo, de que não vota em cínico numa alusão ao colega de Currais Novos, José Lins, mostra a quantas anda o clima interno no partido que integram – o PSB – e a disputa pela presidência da Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte – Femurn – com eleição marcada para o próximo dia 15. Apontado inicialmente como candidato de consenso - por ser o prefeito da maior cidade do Estado - Carlos Eduardo ficou irritado e parece que começa a despertar para o novo cenário desenhado pelas urnas. Meteu o pé na jaca e dá a entender que, cumprido o seu dever de gratidão, apoiando a reeleição da governadora Wilma de Faria nos dois turnos, o jogo está zerado.

Não é diferente o clima envolvendo lideranças do PT, levando o prefeito de Janduís, médico Salomão Gurgel, a classificar como “patota de irresponsáveis” os petistas que administram a Secretaria Estadual de Saúde. “Até quando a governadora Wilma de Faria abrigará na Secretaria de Saúde a patota de irresponsáveis que, capitaneada pelo ex-secretário Ruy Pereira, fechou o Hospital Psiquiátrico de Caicó, reduziu o número de leitos nos hospitais de Mossoró e Natal, nada criando, em substituição, para atender os doentes mentais que precisam de tratamento?”. Que a saúde vai mal não precisa ser especialista, mas chutar o pau da barraca como fez o prefeito petista é porque entende que passaram do limite.

Já em Parnamirim, com a espirituosidade e bom humor - atributos que carrega como jornalista e político - o prefeito Agnelo Alves procurou adiar por mais algum tempo a discussão sobre a sua própria sucessão que irá ocorrer daqui a um ano e meses. Provocado pela declaração de um vereador de que entre os secretários “é cada um querendo engolir o outro”, numa alusão à disputa de quem será o indicado, Agnelo foi taxativo: “Se existir canibalismo, uns comerão os outros e todos morrerão”. Garante que não vai antecipar um minuto da hora da discussão sobre a própria sucessão. Promete colocar no gelo “quem atravessar no meio por ambição, legítima até, querendo antecipar um processo que só ocorrerá daqui a dois anos”.

Esses flashes que recolhi dos jornais desses últimos dias que sequer tive tempo de arquivar, dão-me a oportunidade de lembrar uma história envolvendo a distante era glacial, quando parte do planeta se achava coberta por densas camadas de gelo e a vida dos animais era extremamente curta. Morriam de frio. Conta-se que, na época, os porcos-espinhos, cientes do problema, decidiram juntar-se, viver em grupo. Bem próximo cada um podia sentir o calor do corpo do outro, aumentando o bem-estar da manada e garantindo a própria sobrevivência. Concretizado o agrupamento, no entanto logo se deram conta de que os próprios espinhos machucavam os companheiros mais próximos – justamente aqueles que mais calor forneciam. Por esse motivo, desfizeram o grupo, acabavam morrendo congelados.

Sentiam-se num impasse: quando estavam juntos, viviam, mas feriam-se; quando separados, não sentiam os espinhos, mas acabavam morrendo. Decidiram, então, reagrupar-se. Aprender a conviver com as pequenas feridas causadas pelos mais próximos. Esta lição é remota, mas verossímil para o nosso dia-a-dia: Às vezes os espinhos que outras pessoas possuem nos incomodam, mas temos que tentar conviver com os nossos e os de outras pessoas. Lição que nos faz lembrar dois verdadeiros sacerdotes. O primeiro, sem batina, o ex-governador Cortez Pereira (17.10.1924 – 21.02.2004), que imortalizou a frase “Se unidos não somos fortes, divididos não seremos nada”. E o outro, o imortal Dom Nivaldo Monte (15.03.1918 – 10.11.2006). É dele a frase “Toda palavra é uma semente”. Foi a nossa última - e irreparável – perda.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 27.11.2006

 

 

COLUNAS ANTERIORES

A PADROEIRA

A VITÓRIA DE BABÁ

SEMPRE VERÃO

A FESTA CONTINUA

CONTAGEM REGRESSIVA

MATA GRANDE

FATOS E VOTOS

BOAS E MÁS NOTÍCIAS

ASTRAL DOS CANDIDATOS

ORTEGA E O VOTO

DO LICEU AO CEFET

A RETA DE CHEGADA

BARRIGA DO ALUGUEL

FOLCLORE ELEITORAL

CLARICE PALMA

DO BOATO À INTERNET

LOCUÇÕES ELEITORAIS

MEMÓRIA VIVA

RÁDIO RDJ

SEGUNDO TEMPO

CEMITÉRIO DO ALECRIM

OS AVANÇOS DA JUSTIÇA

A SEMANA ANTIDROGAS

É UMA FESTA SÓ

DA NOSSA NATUREZA

HORA DE DECISÕES

OS COMERCIAIS

ONDE ESTÁ O ATENDIMENTO?

ALUÍZIO ALVES

Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

TOPO

MENU

INDIQUE SITES

CIDADES DO RN

FALE CONOSCO