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“Não
voto em cínico”, “Patota de irresponsáveis”,
“Se existir canibalismo, uns comerão os outros e
todos morrerão”. Se há menos de um mês estas frases
fossem pronunciadas nos programas eleitorais no rádio e
televisão, seriam alvos de pedidos de direito de
resposta e um dos lados saltaria para denunciar baixo nível,
sinal de desespero, desrespeito ao eleitor. Acontece que
os eleitos ainda sequer foram diplomados, mas o clima
continua de disputa, seja por cargos, espaço, prestígio,
outros para tentar mostrar serviço - ou desserviço –
à comunidade que a tudo assiste como estivesse em torno
de uma pista de gelo, onde os atores após a dança
resolvem enxugá-la.
Sem
entrar no mérito – se é que existe algum – a
declaração do prefeito de Natal, Carlos Eduardo, de
que não vota em cínico numa alusão ao colega de
Currais Novos, José Lins, mostra a quantas anda o clima
interno no partido que integram – o PSB – e a
disputa pela presidência da Federação dos Municípios
do Rio Grande do Norte – Femurn – com eleição
marcada para o próximo dia 15. Apontado inicialmente
como candidato de consenso - por ser o prefeito da maior
cidade do Estado - Carlos Eduardo ficou irritado e
parece que começa a despertar para o novo cenário
desenhado pelas urnas. Meteu o pé na jaca e dá a
entender que, cumprido o seu dever de gratidão,
apoiando a reeleição da governadora Wilma de Faria nos
dois turnos, o jogo está zerado.
Não
é diferente o clima envolvendo lideranças do PT,
levando o prefeito de Janduís, médico Salomão Gurgel,
a classificar como “patota de irresponsáveis” os
petistas que administram a Secretaria Estadual de Saúde.
“Até quando a governadora Wilma de Faria abrigará na
Secretaria de Saúde a patota de irresponsáveis que,
capitaneada pelo ex-secretário Ruy Pereira, fechou o
Hospital Psiquiátrico de Caicó, reduziu o número de
leitos nos hospitais de Mossoró e Natal, nada criando,
em substituição, para atender os doentes mentais que
precisam de tratamento?”. Que a saúde vai mal não
precisa ser especialista, mas chutar o pau da barraca
como fez o prefeito petista é porque entende que
passaram do limite.
Já
em Parnamirim, com a espirituosidade e bom humor -
atributos que carrega como jornalista e político - o
prefeito Agnelo Alves procurou adiar por mais algum
tempo a discussão sobre a sua própria sucessão que irá
ocorrer daqui a um ano e meses. Provocado pela declaração
de um vereador de que entre os secretários “é cada
um querendo engolir o outro”, numa alusão à disputa
de quem será o indicado, Agnelo foi taxativo: “Se
existir canibalismo, uns comerão os outros e todos
morrerão”. Garante que não vai antecipar um minuto
da hora da discussão sobre a própria sucessão.
Promete colocar no gelo “quem atravessar no meio por
ambição, legítima até, querendo antecipar um
processo que só ocorrerá daqui a dois anos”.
Esses
flashes que recolhi dos jornais desses últimos dias que
sequer tive tempo de arquivar, dão-me a oportunidade de
lembrar uma história envolvendo a distante era glacial,
quando parte do planeta se achava coberta por densas
camadas de gelo e a vida dos animais era extremamente
curta. Morriam de frio. Conta-se que, na época, os
porcos-espinhos, cientes do problema, decidiram
juntar-se, viver em grupo. Bem próximo cada um podia
sentir o calor do corpo do outro, aumentando o bem-estar
da manada e garantindo a própria sobrevivência.
Concretizado o agrupamento, no entanto logo se deram
conta de que os próprios espinhos machucavam os
companheiros mais próximos – justamente aqueles que
mais calor forneciam. Por esse motivo, desfizeram o
grupo, acabavam morrendo congelados.
Sentiam-se
num impasse: quando estavam juntos, viviam, mas
feriam-se; quando separados, não sentiam os espinhos,
mas acabavam morrendo. Decidiram, então, reagrupar-se.
Aprender a conviver com as pequenas feridas causadas
pelos mais próximos. Esta lição é remota, mas verossímil
para o nosso dia-a-dia: Às vezes os espinhos que outras
pessoas possuem nos incomodam, mas temos que tentar
conviver com os nossos e os de outras pessoas. Lição
que nos faz lembrar dois verdadeiros sacerdotes. O
primeiro, sem batina, o ex-governador Cortez Pereira
(17.10.1924 – 21.02.2004), que imortalizou a frase
“Se unidos não somos fortes, divididos não seremos
nada”. E o outro, o imortal Dom Nivaldo Monte
(15.03.1918 – 10.11.2006). É dele a frase “Toda
palavra é uma semente”. Foi a nossa última - e
irreparável – perda.
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