|
O
roubo da imagem de Nossa Senhora da Apresentação
ocorrido no sábado, 25 de novembro, e encontrada três
dias depois abandonada na entrada do Eremitério do
Santo Lenho, em Macaíba, além de ter-se constituído
num ato criminoso foi, sobretudo, afrontoso à
comunidade católica natalense que quatro dias antes
tinha comemorado o Dia da sua Padroeira, tema do nosso
penúltimo artigo publicado neste JH. No local violado -
a Pedra do Rosário – o mesmo onde milhares de pessoas
haviam se reunido para reverenciar a santa, mãos
criminosas agiram para espanto das autoridades
policiais, religiosas e do natalense em geral hoje
conscientes de que vivemos tempos de insegurança pública,
mas nunca imaginando pudesse chegar a tanto.
A
imagem da Padroeira de Natal não foi o primeiro bem público
violado nesses últimos anos. Em 2002 o mesmo ocorreu
com o busto do presidente John Kennedy, levado da praça
que tem o seu nome, localizada no centro da capital. A
poucos metros da mesma praça, um ano depois – 1º de
novembro de 2003 – a estátua de Câmara Cascudo,
esculpida em bronze, localizada sobre u´a mão em
frente ao Memorial com o nome do escritor, foi arrancada
da base e derrubada. Por pouco não foi levada para o
comércio ilegal, não fossem os 120 quilos de bronze
despencando de uma altura de dois metros e que chamou a
atenção do vigilante do prédio. As imagens e fotos do
pedestal e a mão vazios são hoje monumentos à nossa
insegurança.
Desta
feita, pela ousadia, muitas pessoas ao tomarem
conhecimento do fato, relutaram
em acreditar. Dava
para se pensar que passados os festejos, a própria
Igreja tivesse decidido restaurar a réplica da imagem
da santa ali exposta ao tempo, esquecendo de avisar à
comunidade. Mas, testemunhas foram surgindo e a notícia
confirmada. Diante do fato e ainda tendo na memória as
imagens mostradas pelas televisões da festa da
Padroeira, o jeito foi mesmo acreditar. E logo me veio
à lembrança o roubo de imagens sacras ocorrido em
junho de 1977, na Igreja matriz de São José de Mipibu,
de onde uma quadrilha levou quatro imagens – a dos
padroeiros da cidade Santana e São Joaquim - e ainda as
de Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora da Conceição,
considerada na época a mais valiosa e obra prima do
imaginário sacro.
Embora
passados quase 30 anos, guardo sobre aquele roubo uma série
de reportagens que enviei, como correspondente, para a Folha
de S. Paulo - a maioria das matérias aproveitadas
principalmente pelo jornal do grupo, “Notícias Populares” – mostrando a indignação da população
de São José, que diariamente se reunia ao meio dia em
missa celebrada pelo padre, hoje monsenhor Francisco
Canindé Palhano para orar pela volta dos padroeiros,
enquanto corriam as investigações que levaram quatro
meses para desvendar totalmente o caso. Era secretário
de Segurança o coronel João José Pinheiro Veiga,
delegado de Roubos e Furtos, o tenente Altamiro Galvão
de Paiva. Constatada a participação de uma quadrilha
interestadual e sendo as imagens de estilo barroco
tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, a Polícia Federal entrou nas investigações,
tendo à frente o superintendente Hugo Póvoa da Silva,
já falecido. As imagens foram recuperadas no Recife e
Rio de Janeiro e retornaram à matriz de São José num
domingo, 13 de novembro, após uma carreata de
37 quilômetros
iniciada na Catedral de Natal, conduzida pelo o então
arcebispo metropolitano de Natal, Dom Nivaldo Monte.
Com
tudo desvendado, presos os envolvidos - Adolfo José
Henrique, Rinaldo Campelo Vilela, Wilson Ferreira de
Souza, Wilson Gomes Maciel e Manoel Bezerra da Silva –
o caso chegou ainda a render algumas matérias jornalísticas
por conta das queixas formuladas por alguns dos presos
de que haviam sido torturados, o que resultou em
processo no âmbito da justiça federal, presidido pelo
então juiz federal José Augusto Delgado (hoje ministro
do STJ) e tendo como procuradores da República
Francisco das Chagas Rocha e Adalberto Nóbrega. Mesmo
envolvido nas denúncias, o então superintendente Hugo
Póvoa da Silva recebeu, com a cidade em festa, o título
de cidadão de São José de Mipibu, conferido pela Câmara
Municipal, juntamente com o coronel João José Pinheiro
Veiga. Muito já se disse: "Quem ignora o passado
está condenado a repeti-lo". Nesses últimos anos
– e não somente na área criminal – até as frases
antológicas estão perdendo sentido.
|